Atividade extracurricular no primeiro ano do ensino médio: Oficina de fotografia com abordagem sociológica

A escola enfrenta o constante desafio de motivar o aluno para o trabalho em sala de aula frente a crescente banalização de certo nível de acesso a novas tecnologias. A onda do desenvolvimento tecnológico assume um caráter de fluidez que traz consigo notórias redefinições simbólicas na sociedade. A reestruturação, por exemplo, da noção da distancia física entre os indivíduos e o meio, o dinamismo ao acesso as informações, as mudanças de paradigma no campo das relações sociais, etc., fazem parte da vida de uma grande parcela dos jovens contemporâneos e alteram, consequentemente, a relação dos mesmos com o ambiente escolar. Em meio a esse contexto, a escola possui nas mãos uma ferramenta capaz de despertar a atenção e o interesse do aluno quando utiliza a mesma tecnologia presente no cotidiano dos jovens no exercício do aprendizado.

A fotografia surge nesse sentido como um vasto campo de possibilidades, pois se identifica e faz parte da própria relação do aluno com o mundo. Essa temática abre espaço para a construção do conhecimento a partir de um tema inerente ao cotidiano dos jovens, tanto por meio da criação artística, quanto pela interpretação crítica das imagens e tudo que gira a sua volta. Além disso, o ato de fotografar desperta a sensibilidade e amplia o horizonte do fotógrafo, no caso o aluno, levando-o a ter um olhar mais “afinado” e um senso mais apurado das coisas ao seu redor. Foi pensando nisso que, amparado por uma proposta da Faculdade de Educação da Unicamp, desenvolvi um modelo inicial para um trabalho de estágio que foi realizado com um grupo de quinze alunos do primeiro ano do ensino médio, todos moradores do bairro Jardim Satélite Iris II da cidade de Campinas. O projeto, desenvolvido ao lado do grupo responsável pela matéria de estágio na Unicamp, foi colocado em prática por mim e mais um colega da mesma universidade. A Escola Estadual Rosina Frazatto dos Santos, localizada no bairro em questão, mesmo sem oferecer o ciclo pedagógico do ensino médio cedeu o espaço necessário para a concretização do trabalho. Os alunos foram selecionados a partir de um cadastro sistematizado pelo mesmo professor responsável.

O projeto busca a estruturação de uma oficina de fotografia de caráter extracurricular, com o objetivo de beneficiar o lazer, trazer uma nova experiência aos participantes e desenvolver-se amparado na educação. Na oficina, os alunos tem a oportunidade de construir suas próprias câmeras fotográficas e sair a campo para a obtenção de imagens que, posteriormente, poderão ser trabalhadas de diferentes formas.

O projeto apresenta aos alunos a oficina fotográfica do Pinhole. Essa técnica caracteriza-se por um processo alternativo de se fazer fotografia, sem a necessidade do uso de equipamentos convencionais. O projeto parte da construção artesanal da própria câmera a partir da utilização de materiais simples e corriqueiros, como, no caso, caixinhas de fósforo. O nome Pin-hole está relacionado à língua inglesa e pode ser traduzido como “buraco de agulha”. A técnica do pinhole permite a obtenção de imagens a partir de uma câmera fotográfica que não possui lentes, tendo em seu lugar apenas um pequeno furo (feito por uma agulha) que funciona como ponto de captação da luz. A construção prática das câmeras trabalha com os mais variados recipientes onde possam ser vedadas todas as entradas de luz, deixando apenas o orifício da agulha como ponto captador. A entrada da luz, controlada através desse ponto, permite a projeção da imagem exterior no fundo do compartimento obscuro, captada, por sua vez, por qualquer superfície fotossensível, como papel filme ou filme fotográfico de rolo. Seguem abaixo algumas ilustrações práticas da estruturação da técnica fotográfica do Pinhole:

O que torna esse processo fotográfico tão especial é o fato de a fotografia pinhole permitir a obtenção de uma foto de forma extremamente simples. Não há necessidade de lentes óticas ou de maquinário fotográfico complexo, e a câmera fotográfica pode facilmente ser construída artesanalmente. Em um primeiro momento, o destaque fica por conta de todo o envolvimento do aluno no desenvolvimento e na construção das câmeras, o que permite um entendimento mais amplo do processo básico da fotografia.

O primeiro passo da oficina teve como objetivo a construção artesanal da câmera pinhole a partir da utilização de caixinhas de fósforo convencionais. Num encontro de caráter extracurricular e bastante descontraído, por duas horas e meia os participantes se mostraram muito interessados no desenvolvimento do projeto. Foi apresentado aos alunos um breve comentário acerca da temática do pinhole, os objetivos pretendidos pela oficina, e a técnica utilizada que, de uma maneira simples e objetiva, desvincula a prática fotográfica do uso de grandes parafernálias tecnológicas e equipamentos caros, estimulando a discussão do reaproveitamento de materiais. Além disso, a concretização paulatina do projeto permitiu aos participantes um maior contato com conceitos básicos da técnica e da linguagem fotográfica, como, por exemplo, no estudo da ótica, da física, química, etc.

O objetivo inicial do projeto é dar uma oportunidade ao aluno para que ele possa entender o processo fotográfico desde a formação da imagem até seu produto final. Dessa forma, o aluno adquire uma maior compreensão do ato fotográfico e vê cada vez mais instigado em si um “olhar fotográfico” para as coisas ao redor. Segue abaixo um vídeo dinâmico, com o modo de construção resumido das câmeras e o material necessário:

O modelo de câmera construído na oficina foi basicamente o mesmo mostrado pelo vídeo. A diferença é que alguns participantes optaram pela utilização de papel filme ao invés do filme de rolo, o que tornou o projeto ainda mais viável financeiramente, visto que alguns dos materiais utilizados foram fornecidos pela própria escola, trazidos de casa pelos alunos, por mim e pelo grupo do professor. As câmeras foram construídas e ficaram guardadas na escola por uma semana, até nosso próximo encontro.

Na semana seguinte, assim que avistadas, as câmeras foram logo “atacadas” pelos alunos contagiados pelo entusiasmo e pela ansiedade. Monitorados por mim e por mais um antigo funcionário da escola, os participantes foram levados a campo em clima de lazer para a obtenção das imagens. A saída foi realizada em torno do próprio bairro em que se localiza a escola, o Jardim Satélite Iris II, sendo que algumas das imagens também foram obtidas dentro da própria instituição.

Em campo, a obtenção das imagens foi dividida em dois momentos: Primeiro, os alunos foram aconselhados a tirar fotos de caráter livre, praticarem a técnica do pinhole e capturarem os momentos à sua volta que bem entendessem. A maioria das cenas escolhidas refletiam movimentos cotidianos dos moradores da região. Gente trabalhando, gente jogando conversa fora no bar de esquina, gente aguardando o ônibus no ponto, etc. A natureza do bairro também foi muito contemplada com fotografias das ruas arborizadas, dos jardins mantidos pelos moradores, dos cachorros de rua agrupados sob as sombras frescas, etc. A relação de vivência entre os participantes da oficina foi documentada, principalmente, com fotografias envolvendo os próprios amigos. Nesse momento a pretensão em estimular o lazer e a integração de grupo foi partilhada por todos os alunos.

Num segundo momento, os alunos tiveram como objetivo a obtenção de imagens que revelassem as condições estruturais do bairro Jardim Satélite Iris II. Sob o olhar dos próprios jovens moradores da região foram registradas diversas cenas que fomentaram, mais tarde, um debate acerca das questões sociais da região. Para tal, foi realizado um exercício amparado em diversos conceitos e discussões envolvendo a disciplina da sociologia. As cenas eleitas nesse momento revelaram ruas não asfaltadas, rede elétrica com muitos pontos em péssimo estado de conservação, rede de saneamento básico falha com diversos focos de acúmulo de esgoto e lixo próximos das residências, construções habitacionais precárias, a velha discussão do transporte público ineficaz somado ao péssimo estado de conservação das vias, etc. Ao final desse dia, obtidos os resultados, levamos os negativos para serem revelados durante a semana e marcamos com os participantes nosso último encontro.

As imagens ilustrando as condições de vida no bairro refletiram o contexto região. O Jardim Satélite Iris caracteriza-se como uma das áreas de risco ambiental de maior amplitude e morbidade no município de Campinas. O bairro está situado sobre e ao redor de um antigo depósito de lixo, conhecido por “Lixão da Pirelli”, onde detritos industriais, hospitalares, domésticos e de varrição urbana foram despejados durante anos. Mais tarde, quando desativado, o terreno do lixão foi tomado e muitas casas do Satélite Íris acabaram sendo erguidas muito próximas ou ainda mesmo na própria área do antigo lixão, com grande risco para os moradores. Duas décadas depois, a falta de destinação adequada de lixo ainda é visível nas ruas do bairro. O Jardim Satélite Íris é um dos muitos bairros resultantes do crescimento urbanizado exagerado de Campinas nas décadas de 60 a 80, quando a população da cidade cresceu a taxas muito maiores do que as do Brasil e de São Paulo. A condição socioeconômica das famílias dos participantes da oficina espelha a situação precária do bairro. A maioria das crianças participantes da oficina de fotografia, por sua vez acompanhadas mais de perto por mim, reside em áreas de ocupação e apenas cinco delas possuíam casa própria. A média da renda mensal familiar desse grupo é de um a três salários mínimos. As profissões dos pais dos alunos aparecem como ocupações de baixa remuneração vinculadas ao setor terciário, sendo eles em sua totalidade proletários.

Na semana seguinte, como passo concluinte de nossa oficina, reunimos todos com a intenção de bater um papo sobre os resultados obtidos. O objetivo final do projeto surge na tentativa de, através da fotografia e da análise crítica dos resultados, suscitar um debate em busca de uma maior compreensão da estrutura que envolve o contexto do bairro Jardim Satélite Iris II. Com o exercício do olhar fotográfico, temos em mãos a possibilidade de apresentar ao participante uma nova maneira de enxergar seu próprio meio. O aluno se vê diante da oportunidade de eleger uma cena corriqueira e torna-la especial, desenvolvendo tanto seu viés artístico/criativo, empreendido no momento da obtenção da imagem, quanto de seu horizonte crítico, trabalhado nessa tentativa de discussão posterior a respeito das esferas sociais mais amplas que envolvem alguns dos assuntos documentados nas fotografias. As formas como se configura a sociedade contemporânea, a desigualdade social, a noção de poder e política, a questão da sustentabilidade e do reaproveitamento de materiais, etc., foram alguns dos temas levantados para o debate a partir das imagens obtidas na região.

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