Sugestão de vídeo – “O perigo da história única” – Chimamanda Adichi

O post apresenta uma pequena palestra da escritora Chimamanda Adichie que pode ser utilizada em sala para tratar de questões relativas ao etnocentrismo, racismo e relativismo cultural.

“Os livros africanos me salvaram de ter uma historia única sobre o que os livros são”

A escritora nigeriana Chimamanda Adichie começa sua reflexão sobre os perigos da historia única a partir de dois pequenos relatos sobre a sua infância e de como esses eventos foram reveladores sobre a importância dos múltiplos enfoques sobre a realidade. Quando era pequena, ela lia livros infantis britânicos e americanos que com sua versão do que seria o mundo não ofereciam possibilidades para ela, uma africana, negra, nigeriana de se ver contemplada nas histórias, ou além, da possibilidade de haver histórias onde sua realidade, seu contexto fossem narrados e vividos. Era a impossibilidade da existência de uma outra história.

A segunda pequena história de sua infância foi a partir do acolhimento de um garoto pobre pela sua família. Sua mãe sempre enfatizava a condição da família do garoto, como se “ser pobre” fosse a única condição da existência da família dele e do que poderiam ser. Em uma breve visita a aldeia desta família, se espantou em ver a produção das pessoas, que escapava da idéia que tinha do que era ser pobre, e descobriu mais uma vez que havia outra versão dos fatos aos quais lhe foram transmitidos.

Continua relatando suas experiências pessoais e de quando, já mais velha, foi cursar a universidade nos EUA e o choque que constatou de colegas americanos quando as expectativas deles sobre ela, como africana não foram realizadas na prática. Posições que eram reveladores de duas grandes noções que ainda permeiam o senso comum sobre a África.

A primeira destas noções é da África como o lugar do atraso, miséria e do subdesenvolvimento, idéia permeada pela velha noção evolucionista da humanidade, que organiza as sociedades segundo os seus graus de desenvolvimento (sobretudo tecnológico) onde a África ocupa o ultimo lugar desta escala.

Uma noção que também ignora o papel dos colonizadores na herança da estrutura social brutal que fundou e orientou as futuras nações africanas e mais uma vez culpabiliza unicamente os países africanos por seus problemas, enfatizando sua incapacidade superá-los sem a ajuda externa do branco.

A segunda noção que opera no senso comum (e presente também na “alta cultura”) sobre a África é a do continente africano como uma totalidade, homogêneo, e com uma única identidade pautada na noção de raça negra , como argumenta o autor Kwame Anthony Appiah. Um tipo de visão que é revelada também pelo professor de Chimamanda Adichie ao analisar seu romance e concluir que este não era “autenticamente africano”.

A autora nos revela ainda que acabou por desenvolver uma espécie de “identidade africana”, mesmo que antes não a possuísse. Fato que pode ser analisado pela autora estar um contexto cultural distinto do seu e onde esperavam a “diferença” que ela possuía, uma caracterização do outro como um ser totalmente distinto e idealizado que no fim das contas acaba por se auto-afirmar como distinto.

Outra experiência pessoal relatada era sobre sua viagem ao México, e de como foi orientada pela mídia americana e pelos debates em torno dos imigrantes nos EUA sobre o que era “o mexicano” e de como ao chegar ao país percebeu o equivoco que cometera ao encontrar uma realidade distinta das narrativas que sempre a informou.

Nossa atenção é chamada depois sobre a relação da história única com as relações de poder: quem conta a história, sobre quem, como, para quem são contadas estas histórias e em quantas versões, e o poder está justamente nestas características, e de como podem definir e cristalizar como é o outro. Outro ponto que nos chama atenção é a palavra “nkali” da tribo Igbo, que significa – “ser maior do que o outro”, o que nos remete a idéia do antropólogo Claude Lévi-Strauss de que toda cultura possui um certo grau de etnocentrismo.

Outro ponto trazido pela discussão e que se faz parte do debate sobre cultura é da criação de estereótipos de uma pessoa ou personagem que são universalizados como sendo de um povo todo. São ignoradas as diferentes histórias que compõem os indivíduos – suas experiências e práticas – que constituem um ser complexo, expoente de um contexto cultural que também é complexo e diverso, ao contrário da idéia ocidental de que nas sociedades “outras” não há indivíduos.

Ao encerrar sua reflexão a autora caminha por um debate presente na própria antropologia, de que a história única enfatiza as diferenças entre os grupos e sociedades, em detrimento da afirmação dos elementos que as sociedades e culturas possuem em comum, podendo dificultar a já conturbada convivência humana.

Link para o vídeo: http://www.ted.com/talks/lang/pt/chimamanda_adichie_the_danger_of_a_single_story.html

Referências:

APPIAH, Kwame Anthony. Na casa de meu pai: a África na filosofia da cultura. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.

LÉVI-STRAUSS, Claude. “Raça e História”, in Os Pensadores, vol. L, São Paulo: Abril Cultural, 1978

About these ads



    Deixe uma resposta

    Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

    Logotipo do WordPress.com

    Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

    Imagem do Twitter

    Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

    Foto do Facebook

    Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

    Foto do Google+

    Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

    Conectando a %s



Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 31 outros seguidores

%d blogueiros gostam disto: