A sociologia e as relações de poder na escola

Nesta última quinta-feira (25/08), os nossos colegas bolsistas do projeto do PIBID das professoras Angela Araújo e Andréia Galvão, do IFCH/UNICAMP, vieram em sala de aula nos contar sobre sua experiência em duas escolas públicas de Campinas. Durante a exposição foram levantadas algumas questões sobre as relações de poder que estes alunos perceberam durante sua permanência nas escolas, relações de poder que se davam entre diretores, professores, comunidade e alunos.

poder na escola

As relações de poder encontram-se em todo lugar na sociedade. Por que na escola seria diferente?

Isso me fez pensar sobre as condições em que o professor de sociologia, eventualmente, irá encontrar para trabalhar nas diferentes escolas e como essas condições poderiam ser exploradas pelo professor de sociologia em sala de aula. Uma das conclusões levantadas pelas discussões em sala, grosso modo,  era a de que as relações de poder entre os atores internos e externos da escola influenciavam nas condições de ensino da escola. Não apenas a disputa interna de poder entre funcionários, professores e alunos, mas também com relação à comunidade e ao “público” em que a escola está inserida.

Pensando, deste modo, em como o professor pode explorar as contradições e condições das relações de poder da própria escola, realizei uma pequena pesquisa através do Google Acadêmico (uma boa sugestão para o professor que busca aquela bibliografia a mais) e encontrei um pequeno texto da professora Magali de Castro da PUC Minas:

http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0102-25551998000100002&script=sci_arttext

Este texto explora algumas teorias do poder para explicar as relações assimétricas encontradas em algumas escolas brasileiras (o texto trata de um estudo realizado em escolas de Belo Horizonte no início dos anos 90). A professoa Castro explora as teorias do campo simbólico de Bourdieu e a de dominação de Weber para retratar como se dão as relações de poder nas escolas brasileiras e algumas das suas consequências para o trabalho do professor. Vale a pena reproduzir o último paragrafo do texto para exemplificar a importância deste estudo para a sensibilização do professor para as suas condições de trabalho:

“Vivendo, na rotina diária, relações de um poder simbólico, tais atores são envolvidos, em determinados momentos críticos, em disputas por cargos de poder e lutas por imposição de idéias, pelas quais mobilizam os recursos de que dispõem e vêem cair o véu do poder simbólico, que cede lugar ao embate, quase sempre desgastante. Estes momentos, apesar de muitas vezes representarem um alto custo para a Instituição e seus atores, são inerentes às relações de poder e fazem, inevitavelmente, avançar o universal, como afirma Bourdieu.” (CASTRO, 1998)

Outro pequeno texto que reforça as relações de poder na escola é o texto do professor Maurício Tragtenberg, professor da Escola de Administração de Empresas da FGV-SP, que trata da dimensão da aplicação dos instrumentos de poder na escola, utilizando-se da abordagem genealógica das instituições de Foucault:

http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0102-64451985000100021&script=sci_arttext

escola prisão

É uma escola ou uma prisão? Acho que Foucault diria que é a mesma coisa...

Segundo Tragtemberg, o uso dos instrumentos de disciplina na escola configuram-se como instrumentos de exercício do poder. Seu texto nos ajuda a pensar a escola enquanto espaço de poder a priori, onde sua aplicação é fundamental para a dinâmica da (re)produção de saber e “estandardização” da sociedade:

As normas pedagógicas têm o poder de marcar, salientar os desvios, reforçando a imagem de alunos tidos como “problemáticos”, estigmatizados como “o negrão”, o “índio”, o “maloqueiro” ou o morador da “favela”. A escola, ao dividir os alunos e o saber em séries, graus, salienta as diferenças, recompensando os que se sujeitam aos movimentos regulares impostos pelo sistema escolar. Os que não aceitam a passagem hierárquica de uma série a outra são punidos com a “retenção” ou a “exclusão”. (TRATEMBERG, 1985)

Mas afinal, será que estas abordagens sociológicas servem apenas para percebemos como será difícil nossa atuação escolar e nossa tarefa de ensinar sociologia? Eu acho que não. O entendimento de como as assimetrias das relações de poder na sociedade pode levar a uma compreensão crítica e transformadora da realidade, não apenas para nós professores, mas especialmente para os alunos. Afinal de contas, por que ensinamos Sociologia para as pessoas senão para lhes dar subsídios para que transformem sua realidade? Acredito que sensibilizar os alunos para as assimetrias da sociedade pode realmente lhes render uma postura crítica e transformadora da realidade, e que realidade melhor para trabalhar com os alunos senão que a sua própria, ou seja, a realidade da escola?

BIBLIOGRAFIA:

CASTRO, Magali de. Um estudo das relações de poder na escola pública de ensino fundamental à luz de Weber e Bourdieu: do poder formal, impessoal e simbólico ao poder explícito. Rev. Fac. Educ.,  São Paulo,  v. 24,  n. 1, Jan.  1998 . Available from <a href=””><http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-25551998000100002&lng=en&nrm=iso&gt;. access on  25  Aug.  2011.

TRAGTENBERG, Maurício. Relações de poder na escola. Lua Nova,  São Paulo,  v. 1,  n. 4, Mar.  1985 .   Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-64451985000100021&lng=en&nrm=iso&gt;. access on  25  Aug.  2011.

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  1. Ferreira

    A idéia de que ensinar Sociologia seja “dar subsídios para que [as pessoas] transformem sua realidade” parece implicar outra idéia: a de que as pessoas desejam transformar sua realidade. Assim, para aprender Sociologia a pessoa não poderia estar satisfeita e acomodada com a situação, precisaria estar incomodada e com vontade de transformar a realidade. Como diz o post, “sensibilizar os alunos para as assimetrias da sociedade pode realmente lhes render uma postura crítica e transformadora da realidade”. Nesse sentido, sua sugestão é que tomemos o contexto escolar, por exemplo, como a realidade a ser transformada? Se for isso, então se trata de fazer da crítica à escola uma atividade escolar?

    • No concordo com o a afirmao de que “dar subsdios para que [as pessoas] transformem sua realidade” parea implicar a ideia de que elas *devessem*desejar transform-la. claro que a compreenso crtica de uma dada realidade (que o que tenho proposto at ento) no pressupe necessariamente o desejo de transform-la, mas pode suscitar no aluno a capacidade intelectual para tal. O que quero dizer com isso? Quero dizer que necessrio despertar no aluno (ou que pelo menos seria um objetivo meu enquanto professor, muitas vezes difcil de alcanar, reconheo) a * capacidade* de pensar a sua realidade social. “Sensibilizar os alunos para as assimetrias da sociedade”, portanto, seria uma maneira muito til de despertar um estranhamento da realidade no aluno e incentivar uma reflexo sobre como essas assimetrias, essas relaes de poder, podem condicionar a vida cotidiana dele, por exemplo.

      Logo, minha proposta no fazer da crtica escola uma atividade escolar, mas sim proporcionar a *possibilidade* de uma viso crtica para, a partir da, fazer o aluno compreender melhor a realidade que o cerca. Transformar a realidade, posteriormente, j teria que ser uma escolha dele, acredito eu.




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