“Eles não usam black-tie”

Filme “Eles não usam black-tie”, considerações para utilização do cinema nacional em sala de aula. Sugestão de interpretação do filme para explicação dos movimentos sociais segundo o marxismo.

                 O filme “Eles não usam black-tie” é um filme brasileiro de 1981 que retrata uma greve e as relações pessoais que a cercam. Mostra uma família onde o pai e o filho são operários da mesma empresa, há uma série de acontecimentos na vida dessa família que são permeados pelo quadro de greve que os operários iniciam na empresa.

            Otávio é o pai dessa família, casado com Romana e com dois filhos. Otávio é um antigo operário da fábrica, militante, já foi inclusive preso por seu envolvimento em greves e movimentos operários. Muito engajado na causa dos trabalhadores preocupa-se em encontrar o momento certo para realizar greves, nos quais os seus companheiros estejam conscientizados e apóiem o movimento.

            Tião é o filho primogênito de Otávio, trabalha na mesma fábrica que o pai e namora Maria, a qual engravida e então resolvem se casar. Tião tem a influência do pai militante, mas tem outras preocupações que influenciam em suas atitudes divergindo da ideologia do pai.

            Romana, mãe de Tião e esposa de Otávio é preocupada com o filho e marido que se envolvem em movimentos operários, no entanto, apóia integralmente o marido em suas atitudes militantes, grevistas e que luta por seus direitos. Como mãe não abandona Tião, mas envergonha-se das atitudes do filho que vão contra as ideologias dela e do marido.

            Maria é a namorada de Tião, tem uma vida difícil com um pai alcoólatra e um “irmão” pequeno. Engravida de Tião sem querer, mesmo sem condições financeiras os dois resolvem se casar, mas então os acontecimentos em torno da greve modificam as relações entre os dois, pois Maria preocupa-se também com sua nova e inesperada situação, mas não de forma egoísta como Tião, ela pensa não só em seu próprio bem como também em toda a classe com que se identifica.

            Há também outros personagens relevantes, como o militante extremista e apressado chamado de “italiano”, que tenta de qualquer modo e o mais rápido possível iniciar a greve. E o Bráulio, amigo de Otávio, também militante, mas mais comedido e que busca acalmar os ânimos e evitar desentendimentos e rupturas dentro do movimento, sendo o mais consciente e equilibrado é muito respeitado por todos.

            São com esses personagens principais que todo o enredo se passa. Nesse filme não só é possível ver passo a passo o início de um movimento social, operário e sua organização, como também todas as suas conseqüências e problemas que vão além do âmbito político, invadindo o privado, afinal trata-se diretamente da vida das pessoas e de suas ideologias e convicções.

            O filme trata muito disso: ideologia, convicção e consciência de classe. É interessante notar como essa consciência difere de personagem para personagem no filme, e como ela se transforma e se revela no decorrer dele. Essa consciência de classe não é algo intrínseco, e sim é algo que deve ser buscado e que muitas vezes apesar de representar uma união com iguais é enfraquecido por uma hegemonia que prega a ideologia do opressor, a qual o oprimido sem se dar conta acolhe e aceita passivamente pensando ser o melhor para si mesmo.

            Paulo Freire fala sobre essa situação do oprimido diante do opressor:

            Ao fazermos essa afirmação, não queremos dizer que os oprimidos, neste caso, não se saibam oprimidos. O seu conhecimento de si mesmos, como oprimidos, se encontra, contudo, prejudicado pela “imersão” em que se acham na realidade opressora. “Reconhecer-se” a este nível, contrários ao outro não significa ainda lutar pela superação da contradição. Daí esta quase aberração: um dos pólos da contradição pretendendo não a libertação, mas a identificação com o seu contrário. (FREIRE, 1994, p.18).

            Disso que Paulo Freire trata fica evidente no filme representado nas atitudes de Tião. Apesar de se reconhecer como pertencente a classe operária, encontra-se imerso na realidade opressora, na posição que se encontra, tendo por experiência o caso do pai militante que passou um certo tempo inclusive preso por suas atividades políticas, Tião teme uma mudança apenas para pior na sua vida se unir-se ao movimento. Teme perder o emprego estando prestes a casar e ter um filho, pois tem interiorizado que a sua classe pode tentar lutar por seus direitos, mas ao fazer isso acabará por ser prejudicada.

            Já Maria, sua namorada, discorda dessa posição e não só se vê como parte da classe, como vê como traição consigo mesma trair aos interesses da classe por vantagens pessoais. Inclusive ela prefere ficar ao lado dos amigos e companheiros de classe a ficar do lado do noivo que furou a greve e traiu seu pais e os demais operários. Maria vê a si mesma como oprimida e portanto como pertencente a um todo de oprimidos pertencentes a mesma classe de forma indissociável.

            A questão da conscientização e da luta de uma classe por seus direitos é abordada de uma forma pelo filme que deixa clara as diferenças que existem dentro de um mesmo cenário e contexto de conscientização. Primeiramente entre os operários, muitos eram a favor da causa mas temiam as repressões ao movimento, outros inflamados queriam movimentos em certo ponto violentos e ostensivos, outros simplesmente alienavam-se pensando apenas em suas próprias vidas estando conformados com a posição de oprimidos.

            É interessante observar que as mesmas variantes ideológicas e de consciência política e social existiam em um grupo familiar próximo. Otávio consciente e militante ponderado, que lutava incessantemente pelos direitos da classe pelas formas que lhe pareciam mais sensatas, batia de frente com seu filho Tião que achava a militância inútil e que só trazia prejuízos para os próprios militantes que se sacrificavam por outros, sendo para ele mais vantajoso “se unir”, ou ser manipulado, pelos opressores e obter “vantagens pessoais”.

            É bem claro no movimento sindicalista que representa o filme que ou você é companheiro e participa ativamente do movimento, ou você pelego, que trai seus iguais em busca de vantagens egoístas ou por pura covardia. É bom lembrar que o filme retrata uma época em que os movimentos sociais eram reprimidos com muito mais violência evidente, os envolvidos nesses movimentos eram presos e demitidos, outros funcionários eram coagidos a entregar os “cabeças” do movimento, que deveriam ser afastados em uma tentativa de conter a organização e revolta da classe operária. Isso porque os opressores, os donos das fábricas sabiam que apesar de todos os operários sentirem-se injustiçados e oprimidos seria necessário pessoas que os organizassem e os conscientizassem como massa, como grupo, como um todo que deve lutar e permanecer junto em busca de um bem comum.

            Essa não é uma tarefa fácil, as pessoas podem se reconhecer como pertencentes a uma classe, conscientizando-se da sua situação de opressão, reconhecendo seus opressores como diferentes e seus companheiros oprimidos como iguais, mas ainda há um grande passo a percorrer entre essa percepção e a inclusão e identificação com o movimento, a mobilização, onde não há vantagens que não sejam de todos juntos é muito complicado de se alcançar, por isso Paulo Freire sugere toda uma pedagogia do oprimido que internalizaria desde cedo a consciência política e de classe.

            Eles não vestem Black-tie não é só um dos grandes filmes do cinema nacional brasileiro, mas é também um filme que nos mostra uma realidade dos movimentos sociais com toda a sua complexidade e relações que estão de maneira direta ou indiretamente relacionas. É interessante notar os diferentes níveis e consciência e os motivos para que as pessoas não percebam que a união da classe é uma das  formas de conseguir melhoria para a própria classe, sendo que uma classe não é uma ideia abstrata e sim formada por um grupo de pessoas que estão submetidas e identificam-se como vivendo as mesmas situações pelos mesmos motivos.

Bibliografia

FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1994.

Questões que poderiam ser trabalhadas em classe à respeito do filme:

O que significa ser oprimido?

De que forma os movimentos sociais estão organizados?

Quais as relações entre movimentos sociais e classe social?

Como as personagens do filme relacionam-se com “sua” classe social?

De que forma opressão relaciona-se com classe social?

Trabalhar com essas questões em sala à partir de um filme é muito rico de forma que coloca os alunos a refletirem sobre diversos aspectos que relacionam-se.  A contribuição de Freire fará refletir sobre o que é “ser” e “reconhecer-se” como tal, e de que forma isso influência nos atos dos sujeitos, e assim na superação ou não dessa situação de opressão.

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  1. Ferreira

    Seria muito importante evidenciar a relação entre esta resenha detalhada e aparentemente pouco crítica do filme e o ensino de sociologia no ensino médio. Isso poderia ser alcançado, talvez, desdobrando melhor as relações com a obra citada de Freire, que foram pouco exploradas.

  2. thaysezambon

    Não optei por realizar propriamente uma resenha crítica, e sim apresentar o filme para os que possivelmente não tenham conhecimento dele deixando evidente as relações que nele estão presentes e que poderiam ser aproveitadas em uma aula de sociologia.
    Atualizei o post colocando algumas sugestões de questões para que essa relação fique mais evidente, assim como um comentário final que auxilia a compreender o que Freire traz sobre esse tema.




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