Arquivo para setembro 4th, 2011

No sábado (27 de Agosto de 2011) ocorreu o I Encontro do PIBID – Unicamp. O Projeto de incentivo e bolsas para iniciação a docência visa diversas áreas do conhecimento e do ensino. Dos diversos sub-projetos o que mais nos interessa para esta disciplina – Estágio Supervisionado em Ciências Sociais II – é o da área de sociologia, coordenado pelas professoras Angela Araujo e Andrea Galvão. Nesse post me proponho a sistematizar a exposição do andamento, dos limites, dos problemas e de tudo mais que fora apresentado pela coordenadora Angela Araujo.

O projeto, que conta com vinte bolsistas, começou a ser realizado em 2010 e atinge duas escolas: o COTUCA (colégio técnico) e o E.E Prof. Castinauta de Albuquerque. A primeira questão apontada pela professora, e depois pelos bolsistas, foi a diferença de perfil dos dois colégios; o primeiro por ser técnico, ter um Vestibulinho para selecionar alunos e fazer parte da Unicamp, tem muito mais recursos, seus alunos geralmente não trabalham e, na maioria das vezes, não se interessam pelas áreas de ciências humanas, por estarem no ensino técnico. Já no Castinauta, que tem poucos recursos financeiros em relação ao colégio anterior, os alunos trabalham de dia e estudam a noite, portanto o desenvolvimento de atividades extra-classe, leituras para casa ou atividades fora do horário de aula tem barreiras práticas para a sua realização.

No Castinauta, a ideia inicial do projeto era fazer com que os alunos fossem parte do conhecimento, no sentido de que também o produzissem. A ideia se demonstrou muito difícil, devido a realidade dos alunos exposta acima, e por isso foi abandonada. Ao invés disso, no momento cada turma conta com dois bolsistas que tentam experimentar dinâmicas, aulas e atividades com os estudantes, dentre as quais: dinâmica da fábrica de sapato (para explicar o conceito de mais valia) e simulação de um julgamento. Cabe ressaltar que em 2010 com a constante ausência do professor de sociologia por problemas de saúde os bolsistas tiveram que assumir as aulas, o que não era a atividade que deveria ser realizada por eles, neste primeiro período. Em 2011, com a entrada de um novo professor  houve maior integração do projeto com o docente . Os bolsistas do PIBID, como atividade do projeto, pretendem realizar enquetes para identificar melhor o perfil dos alunos, além disso, programar uma visita a fábrica ocupada Flaskô, entre outras atividades.

No COTUCA, dentre as atividades a ser desenvolvidas esta a elaboração de um projeto de pesquisa, no qual os alunos fossem os pesquisadores e os bolsistas seus orientadores. Tal projeto tem-se realizado através de plantões semanais, onde os alunos recebem a orientação para o seu desenvolvimento. Além disso, pretende-se trabalhar com a questão da reforma agrária e, nesse sentido, agendar uma vista a um acampamento do MST. Sobre os trabalhos de pesquisa dos alunos, ainda há a ideia de expor os projetos elaborados pelos estudantes.

É importante salientar, e refletir, que a avaliação do projeto até agora, nas palavras da coordenadora do projeto PIBID tem sido muito positiva no que se refere a formação de professores, mas infelizmente, reduzida no tangente ao impacto do projeto nas escolas.

*Este post é referente as minhas impressões sobre a apresentação. Qualquer dúvida ou equivoco encontrado aqui poderá ser melhor trabalhado pelos bolsistas do projeto.

Neusa Gusmão (2003) nos demonstra que a “desigualdade” entre professor e aluno é comumente compreendida como diferenças etárias, mas deve ser deslocada para um problema referente à diversidade cultural dos indivíduos. Isto exige a abordagem antropológica do processo educativo de maneira a relacionar, por meio da comparação, diferentes experiências e mentalidades culturais, considerando, inclusive, as condições pedagógicas da relação professor-aluno para o “mestre” compreender a si próprio. Na medida em que a transgressão é parte constitutiva do processo educativo, o professor deve passar necessariamente pela experiência concreta dos sujeitos socioculturais envolvidos e seus saberes incorporados expressos através da oralidade, muitas vezes negligenciada em favor da escrita. A partir da abordagem da autora, considero que repensar os usos da escrita e da oralidade no processo educativo possa estimular o exercício da transgressão no ensino de sociologia e evitar um espírito de vanguarda sociológica numa pretensa produção de consciência, o que viria a prejudicar a aprendizagem.

O texto apresenta uma reflexão acerca da descontinuidade entre o ensinar e o aprender na sociedade capitalista e industrial, e, nesse sentido, afirma a importância da antropologia no processo educativo para contrapor a homogeneização e silenciamento do outro não compreendido. O uso de uma metodologia comumente referida à antropologia, o reconhecimento de uma “memória cultural” e a relação não hierarquizada de saberes permitem que seja instaurada “uma prática pedagógica emancipatória e intercultural” (GUSMÃO, 2003, p. 212).

A descontinuidade entre o ensinar e o aprender é compreendida enquanto produto da centralidade da escrita, pois no processo educativo a ênfase na escrita resultaria na fixação do “signo escrito” e na incompatibilidade com o entendimento que o aluno traz consigo, sendo que, esse saber particular chamado por Iturra de “saber incorporado” (ITURRA apud GUSMÃO, p. 198), se expressa pela oralidade, no sentido amplo do termo.

A educação, se entendida enquanto transmissão de conceitos e conteúdos, está relacionada às informações que são supostamente necessárias, mas ela não vai para além disso. Para Iturra, a educação deve fornecer “uma metodologia no comparar e descobrir a razão e o funcionamento das coisas, fatos, valores, acontecimentos próprios da vida social” (p. 198), e, portanto, torna a antropologia relevante para a abertura de novas possibilidades no processo de ensino-aprendizagem, na medida em que a Antropologia e a Pedagogia se aproximam pelo procedimento da comparação na prática pedagógica. O reconhecimento dos desencontros entre o que se ensina e o que se aprende direcionam o processo educativo a um conhecimento significativo, que, para tal, é preciso compreender “a mente cultural, a passagem da oralidade à escrita e a relação intrínseca entre cultura e experiência, compreendendo esta como a vida vivida, a vida que se tem, inscrita na memória cultural dos indivíduos e de grupos, entre estes, pais, filhos, professores, educadores…” (p. 199).

O não reconhecimento da mentalidade cultural permite estabelecer, portanto, uma descontinuidade entre professor e aluno ao nível das diferenças de capacidades distinguidas pela idade e não pelos indivíduos. Em decorrência disso, o professor e o aluno, tomados pela diferença nas etapas da vida, significam formas de interpretação que se anulam. E, portanto, faz o professor objetivar a igualdade de todas as mentes e o aluno, para ser aceito, submeter-se a um saber que não compreende. É nesse sentido que a escola cumpre a função da prática pedagógica em nome do dever ser, e, não reconhecendo outros saberes, recusa outras lógicas através das quais se pode apreender e compreender o real e escolhe por simplesmente fazer ensino.

A atribuição de uma desigualdade cultural vivenciada nas experiências dos diferentes indivíduos considera a possibilidade da coexistência de outros saberes de maneira não excludente. É reconhecendo que os professores e os alunos são portadores de diferentes histórias de vida que a conciliação com a comparação constitui recurso para construção e acesso ao saber. A compreensão do mundo no qual vivem os sujeitos da educação deve passar não somente pelo saber legitimado, mas também pelo saber que emerge da experiência de vida, ou seja, a partir da reflexão sobre a própria trajetória e, conseqüentemente, tornando-se transgressoras e criativas em relação com o saber legitimado.

Deste modo, o processo educativo possibilita, ao se contrapor ao modelo ocidental de convergência centrada no signo escrito, uma Pedagogia da Divergência e o movimento educativo de uma Pedagogia da Conflitualidade. Trata-se da complexidade humana considerada junto à sua realidade, una e múltipla.

 

Referência bibliográfica:

GUSMÃO, Neusa. “Antropologia, processo educativo e oralidade: um ensaio reflexivo”. In: Pro-Posições – vol. 14, N. 1 (40) – jan/abr. 2003