O que a Sociologia tem a ver com a descontinuidade entre o ensinar e o aprender?

Neusa Gusmão (2003) nos demonstra que a “desigualdade” entre professor e aluno é comumente compreendida como diferenças etárias, mas deve ser deslocada para um problema referente à diversidade cultural dos indivíduos. Isto exige a abordagem antropológica do processo educativo de maneira a relacionar, por meio da comparação, diferentes experiências e mentalidades culturais, considerando, inclusive, as condições pedagógicas da relação professor-aluno para o “mestre” compreender a si próprio. Na medida em que a transgressão é parte constitutiva do processo educativo, o professor deve passar necessariamente pela experiência concreta dos sujeitos socioculturais envolvidos e seus saberes incorporados expressos através da oralidade, muitas vezes negligenciada em favor da escrita. A partir da abordagem da autora, considero que repensar os usos da escrita e da oralidade no processo educativo possa estimular o exercício da transgressão no ensino de sociologia e evitar um espírito de vanguarda sociológica numa pretensa produção de consciência, o que viria a prejudicar a aprendizagem.

O texto apresenta uma reflexão acerca da descontinuidade entre o ensinar e o aprender na sociedade capitalista e industrial, e, nesse sentido, afirma a importância da antropologia no processo educativo para contrapor a homogeneização e silenciamento do outro não compreendido. O uso de uma metodologia comumente referida à antropologia, o reconhecimento de uma “memória cultural” e a relação não hierarquizada de saberes permitem que seja instaurada “uma prática pedagógica emancipatória e intercultural” (GUSMÃO, 2003, p. 212).

A descontinuidade entre o ensinar e o aprender é compreendida enquanto produto da centralidade da escrita, pois no processo educativo a ênfase na escrita resultaria na fixação do “signo escrito” e na incompatibilidade com o entendimento que o aluno traz consigo, sendo que, esse saber particular chamado por Iturra de “saber incorporado” (ITURRA apud GUSMÃO, p. 198), se expressa pela oralidade, no sentido amplo do termo.

A educação, se entendida enquanto transmissão de conceitos e conteúdos, está relacionada às informações que são supostamente necessárias, mas ela não vai para além disso. Para Iturra, a educação deve fornecer “uma metodologia no comparar e descobrir a razão e o funcionamento das coisas, fatos, valores, acontecimentos próprios da vida social” (p. 198), e, portanto, torna a antropologia relevante para a abertura de novas possibilidades no processo de ensino-aprendizagem, na medida em que a Antropologia e a Pedagogia se aproximam pelo procedimento da comparação na prática pedagógica. O reconhecimento dos desencontros entre o que se ensina e o que se aprende direcionam o processo educativo a um conhecimento significativo, que, para tal, é preciso compreender “a mente cultural, a passagem da oralidade à escrita e a relação intrínseca entre cultura e experiência, compreendendo esta como a vida vivida, a vida que se tem, inscrita na memória cultural dos indivíduos e de grupos, entre estes, pais, filhos, professores, educadores…” (p. 199).

O não reconhecimento da mentalidade cultural permite estabelecer, portanto, uma descontinuidade entre professor e aluno ao nível das diferenças de capacidades distinguidas pela idade e não pelos indivíduos. Em decorrência disso, o professor e o aluno, tomados pela diferença nas etapas da vida, significam formas de interpretação que se anulam. E, portanto, faz o professor objetivar a igualdade de todas as mentes e o aluno, para ser aceito, submeter-se a um saber que não compreende. É nesse sentido que a escola cumpre a função da prática pedagógica em nome do dever ser, e, não reconhecendo outros saberes, recusa outras lógicas através das quais se pode apreender e compreender o real e escolhe por simplesmente fazer ensino.

A atribuição de uma desigualdade cultural vivenciada nas experiências dos diferentes indivíduos considera a possibilidade da coexistência de outros saberes de maneira não excludente. É reconhecendo que os professores e os alunos são portadores de diferentes histórias de vida que a conciliação com a comparação constitui recurso para construção e acesso ao saber. A compreensão do mundo no qual vivem os sujeitos da educação deve passar não somente pelo saber legitimado, mas também pelo saber que emerge da experiência de vida, ou seja, a partir da reflexão sobre a própria trajetória e, conseqüentemente, tornando-se transgressoras e criativas em relação com o saber legitimado.

Deste modo, o processo educativo possibilita, ao se contrapor ao modelo ocidental de convergência centrada no signo escrito, uma Pedagogia da Divergência e o movimento educativo de uma Pedagogia da Conflitualidade. Trata-se da complexidade humana considerada junto à sua realidade, una e múltipla.

 

Referência bibliográfica:

GUSMÃO, Neusa. “Antropologia, processo educativo e oralidade: um ensaio reflexivo”. In: Pro-Posições – vol. 14, N. 1 (40) – jan/abr. 2003

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  1. Ferreira

    Seria muito interessante considerar o grau em que tal “Pedagogia da Divergência” ou “da Conflitualidade” pode coexistir ou não com o contexto educacional brasileiro atual (e se não pode coexistir, como pode existir)?

  2. paulovallis

    Olá. Imagino que essa pedagogia resultaria num modo diferente de pensar o “mestre explicador” e, nesse sentido, resultaria em algo que eu pessoalmente encontro formulado no “mestre ignorante” de Rancière. Ao que me parece, e me autorizando a fazer determinado uso particular da compreensão de Merleau-Ponty sobre o pensamento abstrato, existe uma escola abstrata que se recusa a habitar o mundo sociocultural, e que, portanto, não se permite perguntar ao estudante “o que quer saber?”. Enfim, são algumas ideias que me vieram durante a leitura do comentário, mas me esforçarei em reconsiderá-las num próximo post.
    um abraço




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