Arquivo para setembro 6th, 2011

A intenção desta seção é propor questões baseadas em gêneros discursivos diferenciados – tais como músicas e história em quadrinhos, por exemplo – que funcionem: (1) como mote de discussão de determinada aula da disciplina de Sociologia do Ensino Médio e/ou (2) pontos de reflexão aos professores, alunos e pessoas que se interessam pelo estudo sociológico. As questões serão postadas semanalmente. Respostas a estas questões serão sempre bem-vindas; para tal, não se esqueça de citar o número do “post”.

TELEVISÃO (Titãs)
Composição: Marcelo Frommer, Tony Belotto e Arnaldo Antunes

A televisão me deixou burro, muito burro demais
Agora todas coisas que eu penso me parecem iguais
O sorvete me deixou gripado pelo resto da vida
E agora toda noite quando deito é boa noite, querida.
Ô cride, fala pra mãe
Que eu nunca li num livro que um espirro fosse um virus sem cura
Vê se me entende pelo menos uma vez, criatura!
Ô cride, fala pra mãe!
A mãe diz pra eu fazer alguma coisa mas eu nao faço nada
A luz do sol me incomoda, entao deixa a cortina fechada
É que a televisão me deixou burro, muito burro demais
E agora eu vivo dentro dessa jaula junto dos animais
Ô cride, fala pra mãe
Que tudo que a antena captar meu coração captura
Vê se me entende pelo menos uma vez, criatura!
Ô cride, fala pra mãe!
A mãe diz pra eu fazer alguma coisa mas eu nao faço nada
A luz do sol me incomoda, entao deixa a cortina fechada
É que a televisão me deixou burro, muito burro demais
E agora eu vivo dentro dessa jaula junto dos animais
Ô cride, fala pra mãe!
Que tudo que a antena captar meu coração captura
Vê se me entende pelo menos uma vez, criatura!

Os primeiros pensadores a criticarem o que ficou conhecido como “indústria cultural” foram Theodor Adorno (1903-1969) e Max Horkheimer (1895-1973). Atualmente, alguns pesquisadores defendem a substituição dos termos “meios de comunicação” por “meios de alienação”. Para estes, a comunicação de massa nos submete a padrões culturais ou ideológicos pré-estabelecidos e nos condiciona aos interesses capitalistas, influenciando o comportamento de milhões de indivíduos ao redor do mundo. Para tal, instiga jovens ao exercício pleno do “viver intensamente cada segundo”, rebelando-se contra o passado (ou as tradições que ele representa) e adotando uma posição de indiferença quanto ao porvir.

Agora responda às seguintes questões:

1. Adorno e Horkheimer são representantes da Escola de Frankfurt. Faça uma breve pesquisa sobre as principais críticas desta Escola ao que se chamou de “indústria cultural”.

2. Qual o sentido do verso “(…) tudo que a antena captar meu coração captura”? Como o verso em questão se associa ao processo de alienação dos indivíduos?

3. No início da música, o verso “Agora todas coisas que eu penso me parecem iguais” deixa transparecer uma ideia de que, nos tempos atuais, está em curso um processo que a tudo homogeiniza. Na sua opinião, isto está ocorrendo apenas com os bens produzidos pelo capital ou também com as pessoas?

Dirigido por Alfredo Alves e lançado em 1990, o curta-metragem  “Acorda, Raimundo… Acorda!”  é, até hoje, utilizado em debates sobre a questão de gênero.

Na intenção de trabalhar com os alunos a desigualdade entre o homem e a mulher, a partir dos estereótipos do que é feminino e do que é masculino, o filme aparece como um interessante recurso didático, pois aborda a questão a partir da inversão de papéis que representam o homem e a mulher em nossa sociedade: na vida de um casal, o homem assume as tarefas e comportamentos que supostamente são da mulher e vice-versa.

O curta é de fácil acesso e possui aproximadamente 15 minutos, o que torna possível reproduzi-lo em sala e posteriormente debatê-lo no período de uma aula. Como meio de aproximação dos alunos aos debates sobre gênero, auxilia na quebra de paradigmas que permeiam a questão, pois ilustra bem as desigualdades existentes entre os “papéis” de cada sexo e, a partir disso, pode instigar uma conexão com o contexto visto e vivido cotidianamente pelos jovens.

Apesar de desatualizado, no sentido de que não expõe uma relação majoritária do contexto atual,  o filme se torna interessante, pois abre espaço para uma perspectiva histórica do tema, podendo ser levantado em sala de aula questões sobre as mudanças que se deram tanto nas relações sociais (homens – mulheres), quanto na constituição das famílias.

Além de levantar inúmeras questões que podem ser debatidas com os alunos, o filme tem como enfoque mostrar que não é simplesmente a inversão dos papéis do homem e da mulher que resolveria o problema da desigualdade. Uma possível interpretação e que pode ser desenvolvida em sala é que, diante do filme, podemos colocar as desigualdades como sendo construídas em cima da diferença biológica do sexo.

O filme pode ser assistido aqui: http://vimeo.com/5859490

Esse tema “Cultura: o que nos diferencia como humanos” foi escolhido não por acaso, e sim por aparecer na proposta curricular do Estado de São Paulo, como indicação temática a ser trabalhada no 3 º bimestre do 1ºano do E.M.

            Apresento opções de atividades que tratam de diferentes manifestações artísticas e literárias, compreendendo também manifestações mais presentes no universo dos alunos em que sejam possível trabalhar o tema “Cultura: o que nos diferencia como humanos”. Pensei inicialmente em trabalhar com filmes. Sendo assim, a primeira possibilidade de atividade está relacionada ao filme “A.I. Inteligência Artificial”. Pretende-se com este filme, explorar a característica da cultura de ser aprendida, a partir das reflexões a respeito das atitudes do “menino-meca” como dormir, comer ou, neste caso, fingir que realiza tais práticas, o que demonstra que, apesar de serem práticas biologicamente necessárias, trazem toda uma carga cultural muito relevante para a dinâmica social, tornando-as necessárias para a sociabilidade.

            Pensei também no filme “Crepúsculo”, que é mais popular entre os jovens dentro da faixa etária com a qual estou trabalhando. Podemos utilizar o confronto entre humanos e vampiros abordado no filme e, mais do que o confronto, a interação e adaptação que os “Cullen” se propõem para conviver “em harmonia” com os humanos.

            Além de filmes, que são longos e exigem alguma forma de exibição, pensei em outras opões de atividade mais rápidas. Uma delas diz respeito à música “Cultura” de Arnaldo Antunes. Apesar do que o título sugere, não trata especificamente do tema cultura, mas traz “exercícios” interessantes de relatividade, “brincando” com pontos de vista de diferentes sujeitos e com a ressignificação de palavras a partir desses diferentes pontos de vista. Nesse sentido, a música pode levantar uma discussão interessante a respeito do caráter relativo da cultura, mostrando como as interpretações mesmo de uma palavra são relativas e dependem de um ponto de vista ou de um referencial cultural.

            Outra música que sugerimos é “Pra você guardei o amor”, de Nando Reis. Como é uma música longam destaquei  a estrofe que diz:

“ Pra você guardei o amor

Que aprendi vendo os meus pais

O amor que tive e recebi

E hoje posso dar livre e feliz

Céu cheiro e o ar na cor que arco-íris

Risca ao levitar”

            A partir desses versos, pretende-se discutir a questão de o amor ser ou não ser um sentimento intrínseco ao ser humano, pensando se não seria uma prática culturalmente aprendida com concepção variável de sociedade para sociedade. Sendo assim, podemos relativizar a naturalidade de práticas culturais, como o casamento, pois nossa visão de amor e daquilo que está associado a ele, como diria Benedict  (importante antropóloga), se dá através de nossa lente. Para outra cultura, a prática do amor pode apresentar-se de maneira muito diferente. Nesse sentido, levantar as possibilidades de relacionamentos, por exemplo, em sociedades não monogâmicas, será valioso nessa discussão.

            Também pensei em possibilidade de trabalhos com contos. O primeiro que pensamos é o conto “A galinha”, de Clarice Lispector. Esse conto trata de outra característica da cultura, de superar a dimensão puramente biológica da existência humana, inclusive ressignificando esta dimensão. O texto trata da quase humanização de uma galinha que, de fonte de alimentação, passa a ser encarada como um ser, cuja existência não pode ser preterida em prol de uma refeição (que, aliás, pode ser garantida de outras formas). Isso demonstra como os hábitos alimentares são também culturais.

            O outro conto proposto foi “A menina” de Ângelo. Nele são abordadas características tidas como naturais, mas que são na verdade culturalmente aprendidas. O trabalho com contos traz a vantagem de não prescindirem de recursos áudio-visuais, mas devem ser escolhidos levando em conta as possibilidades e limitações do público ao qual estamos dirigindo as aulas. É preferível que sejam curtos e de linguagem acessível.

            Por fim, trago dois quadros, o que nos possibilita uma abordagem diferente, que trabalhe a linguagem visual. O primeiro deles é Gaugin, “Mulheres do Taiti na praia”. Nele podemos observar diversos valores simbólicos que caracterizam a cultura a que pertencem as mulheres presentes na tela. Esse quadro nos possibilita pensar de que forma os símbolos falam por uma cultura e como, em alguns casos, são facilmente reconhecíveis, apesar de outras ricas relações que pode-se trabalhar nesse quadro, uma observação primária poderia identificar símbolos de uma cultura específica, pensando sempre como isso é representado e porque o é dessa forma.

            Como última opção de atividade, apresento o quadro “O mestiço” de Portinari. Pretende-se que a partir da análise dessa obra, se associe cultura, história e política, práticas sociais que, como veremos ao longo da disciplina de Sociologia, caminham juntas. Sugere-se como ponto de discussão: de que forma a questão dos mestiços e seus antepassados foram incorporadas na sociedade brasileira e o que vem a ser o mestiço em nossa cultura.

Esses são exemplos de atividades propostas utilizando os mais diversos recursos pensando apenas em um tema, de forma a demonstrar como é rica de possibilidades o trabalho dentro de sala de aula, lembro que é de opção do professor trabalhar ou não com tais mídias e isso requer uma reflexão que extrapole as poucas linhas que utilizei para ligar tantos recursos com um único tema. A proposta desse post não é fornecer um plano de aula em toda a sua complexidade, mas sim indicar de que forma ele pode extrapolar a tradicional forma de aula expositiva. Quanto às questões de direitos autorais que poderia ser levantada é importante lembrar que a autoria jamais pode ser ignorada, no entanto exibição de trechos de filmes em classe, ou indicação dos mesmos para que os alunos assistam em casa não creio ferir tais direitos.