Plano de Atividades/aula – Cultura: O que nos diferencia como humanos

Esse tema “Cultura: o que nos diferencia como humanos” foi escolhido não por acaso, e sim por aparecer na proposta curricular do Estado de São Paulo, como indicação temática a ser trabalhada no 3 º bimestre do 1ºano do E.M.

            Apresento opções de atividades que tratam de diferentes manifestações artísticas e literárias, compreendendo também manifestações mais presentes no universo dos alunos em que sejam possível trabalhar o tema “Cultura: o que nos diferencia como humanos”. Pensei inicialmente em trabalhar com filmes. Sendo assim, a primeira possibilidade de atividade está relacionada ao filme “A.I. Inteligência Artificial”. Pretende-se com este filme, explorar a característica da cultura de ser aprendida, a partir das reflexões a respeito das atitudes do “menino-meca” como dormir, comer ou, neste caso, fingir que realiza tais práticas, o que demonstra que, apesar de serem práticas biologicamente necessárias, trazem toda uma carga cultural muito relevante para a dinâmica social, tornando-as necessárias para a sociabilidade.

            Pensei também no filme “Crepúsculo”, que é mais popular entre os jovens dentro da faixa etária com a qual estou trabalhando. Podemos utilizar o confronto entre humanos e vampiros abordado no filme e, mais do que o confronto, a interação e adaptação que os “Cullen” se propõem para conviver “em harmonia” com os humanos.

            Além de filmes, que são longos e exigem alguma forma de exibição, pensei em outras opões de atividade mais rápidas. Uma delas diz respeito à música “Cultura” de Arnaldo Antunes. Apesar do que o título sugere, não trata especificamente do tema cultura, mas traz “exercícios” interessantes de relatividade, “brincando” com pontos de vista de diferentes sujeitos e com a ressignificação de palavras a partir desses diferentes pontos de vista. Nesse sentido, a música pode levantar uma discussão interessante a respeito do caráter relativo da cultura, mostrando como as interpretações mesmo de uma palavra são relativas e dependem de um ponto de vista ou de um referencial cultural.

            Outra música que sugerimos é “Pra você guardei o amor”, de Nando Reis. Como é uma música longam destaquei  a estrofe que diz:

“ Pra você guardei o amor

Que aprendi vendo os meus pais

O amor que tive e recebi

E hoje posso dar livre e feliz

Céu cheiro e o ar na cor que arco-íris

Risca ao levitar”

            A partir desses versos, pretende-se discutir a questão de o amor ser ou não ser um sentimento intrínseco ao ser humano, pensando se não seria uma prática culturalmente aprendida com concepção variável de sociedade para sociedade. Sendo assim, podemos relativizar a naturalidade de práticas culturais, como o casamento, pois nossa visão de amor e daquilo que está associado a ele, como diria Benedict  (importante antropóloga), se dá através de nossa lente. Para outra cultura, a prática do amor pode apresentar-se de maneira muito diferente. Nesse sentido, levantar as possibilidades de relacionamentos, por exemplo, em sociedades não monogâmicas, será valioso nessa discussão.

            Também pensei em possibilidade de trabalhos com contos. O primeiro que pensamos é o conto “A galinha”, de Clarice Lispector. Esse conto trata de outra característica da cultura, de superar a dimensão puramente biológica da existência humana, inclusive ressignificando esta dimensão. O texto trata da quase humanização de uma galinha que, de fonte de alimentação, passa a ser encarada como um ser, cuja existência não pode ser preterida em prol de uma refeição (que, aliás, pode ser garantida de outras formas). Isso demonstra como os hábitos alimentares são também culturais.

            O outro conto proposto foi “A menina” de Ângelo. Nele são abordadas características tidas como naturais, mas que são na verdade culturalmente aprendidas. O trabalho com contos traz a vantagem de não prescindirem de recursos áudio-visuais, mas devem ser escolhidos levando em conta as possibilidades e limitações do público ao qual estamos dirigindo as aulas. É preferível que sejam curtos e de linguagem acessível.

            Por fim, trago dois quadros, o que nos possibilita uma abordagem diferente, que trabalhe a linguagem visual. O primeiro deles é Gaugin, “Mulheres do Taiti na praia”. Nele podemos observar diversos valores simbólicos que caracterizam a cultura a que pertencem as mulheres presentes na tela. Esse quadro nos possibilita pensar de que forma os símbolos falam por uma cultura e como, em alguns casos, são facilmente reconhecíveis, apesar de outras ricas relações que pode-se trabalhar nesse quadro, uma observação primária poderia identificar símbolos de uma cultura específica, pensando sempre como isso é representado e porque o é dessa forma.

            Como última opção de atividade, apresento o quadro “O mestiço” de Portinari. Pretende-se que a partir da análise dessa obra, se associe cultura, história e política, práticas sociais que, como veremos ao longo da disciplina de Sociologia, caminham juntas. Sugere-se como ponto de discussão: de que forma a questão dos mestiços e seus antepassados foram incorporadas na sociedade brasileira e o que vem a ser o mestiço em nossa cultura.

Esses são exemplos de atividades propostas utilizando os mais diversos recursos pensando apenas em um tema, de forma a demonstrar como é rica de possibilidades o trabalho dentro de sala de aula, lembro que é de opção do professor trabalhar ou não com tais mídias e isso requer uma reflexão que extrapole as poucas linhas que utilizei para ligar tantos recursos com um único tema. A proposta desse post não é fornecer um plano de aula em toda a sua complexidade, mas sim indicar de que forma ele pode extrapolar a tradicional forma de aula expositiva. Quanto às questões de direitos autorais que poderia ser levantada é importante lembrar que a autoria jamais pode ser ignorada, no entanto exibição de trechos de filmes em classe, ou indicação dos mesmos para que os alunos assistam em casa não creio ferir tais direitos.

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  1. Ferreira

    Considerando a função e escopo deste blog, seria interessante explicitar de onde o tema “Cultura: o que nos diferencia como humanos” foi retirado. Pelos mesmos motivos, seria importante explicitar quem é “Benedict” e porque ela aparece no post.
    É importante também que, no caso de uso intensivo de produtos comerciais como blockbusters e músicas pop em sala de aula, se explicite os critérios da escolha e alguma posição clara perante questões de direitos autorais.
    Na passagem “pretende-se discutir a questão de o amor não ser apenas um sentimento intrínseco ao ser humano, como muitas vezes somos levados a pensar, mas sim uma prática culturalmente aprendida”, evidenciou-se uma ambiguidade com relação aos pressupostos sobre o ser humano que orientam implicitamente a discussão proposta sobre o que é ser humano. Seria importante fazer um esforço maior de relativização, ou pelo menos ter uma clareza maior sobre os pressupostos da própria relativização (por exemplo, o pressuposto de que haveria algo de intrinsecamente humano na cultura ou de intrinsecamente cultural no ser humano, ou mesmo o pressuposto de que haja de fato uma oposição entre natureza e cultura, como quando você menciona “características tidas como naturais, mas que são na verdade culturalmente aprendidas”).
    Por fim, sobre o quadro de Gauguin, seria bom que as contribuições dele para o tema fossem melhor explicitadas, pois a principio ele me parece igualmente propício para discussões sobre como as relações de poder colonialistas se relacionam com as utopias modernistas.

  2. thaysezambon

    Posta já atualizado seguindo os comentários.

  3. Ferreira

    É impressionante, mas as leis de propriedade intelectual e direitos autorais criminalizam muitas das práticas aparentemente inocentes sugeridas no post. De qualquer forma, o interessante é debater o assunto em lugar de simplesmente se conformar ou se opor a alguma lei.




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