Arquivo para setembro 8th, 2011

A LDB (Lei de Diretrizes e Bases) instituiu, em 1996, que a escola deve ser um espaço de educação que, dentre outras coisas, vise o exercício da cidadania. A escola é um lugar muito importante para que os jovens possam conhecer formas diversas de se colocar no mundo e desenvolver sua cidadania.

Nesse sentido a organização dos estudantes em grêmios estudantis tem sido incentivada por leis de âmbito federal, estadual e municipal desde o início do processo de redemocratização do Brasil, por ser compreendida a atuação dos estudantes nas decisões e ações da escola, de extrema importância na constituição da consciência cidadã por parte destes. O Grêmio Estudantil é a organização que representa os interesses dos alunos na escola, possibilitando que discutam e criem formas de ação tanto na escola como na própria comunidade em que vivem.

É ele a representação da problematização coletiva e a produção de práticas que questionem as hierarquias e a burocracia no interior da escola, e além disso é uma maneira de fazer presente o sentimento de pertencimento à comunidade escolar por parte dos estudantes, com estes participando dos espaços de decisão.

De acordo com Francisco André Silva Martins “o convívio com opiniões diferentes, a discussão em público nas reuniões, a resolução de problemas e proposição de soluções e até mesmo o exercício do pensar e discutir questões concernentes à escola e aos estudantes, podem aparecer como um terreno potencialmente fértil.” (p.11)

Além disso, há quem defenda que a formação de grêmios estudantis apontam para uma melhora na relação entre os alunos e deles com a escola como um todo, reduzindo práticas como a violência, já que introduz uma outra maneira de resolver conflitos. Pensando nisso, o Instituto Sou da Paz criou a Projeto Grêmio em Forma, que visa a formação de grêmios estudantis no interior das escolas com o intuito de reduzir a violência neste espaço, bem como a consolidação da consciência cidadã por parte dos alunos.

O projeto encontra-se disponível em: http://www.soudapaz.org/Portals/0/Downloads/GUIA.PDF

É possível que retiremos muitas contribuições do projeto, principalmente na formação dos alunos para a construção do grêmio, conscientizando-os de que é direito garantido dos estudantes organizarem-se livremente, o que possibilita que deixem de ficar “a mercê” das decisões da diretoria e do corpo docente acerca das regras da escola, e das atividades que realiza.

De acordo com os cadernos de Sociologia do Ensino Médio do Estado de São Paulo, a disciplina de sociologia deve estimular o estranhamento e a desnaturalização por parte dos alunos, e facilitar a criação da consciência crítica e cidadã. O grêmio, acredito, pode ajudar nesse processo com uma participação mais ativa dos alunos na construção democrática no interior da escola, e portanto no contato com a prática cidadã.

Referência bibliográfica:

MARTINS, Francisco André Silva. Juventude, Grêmio Estudantil e Ação Coletiva: considerações em torno dos movimentos sociais na contemporaneidade. Trabalho apresentado no I Encontro dos Pesquisadores em Educação dos Programas de Pós Graduação em Belo Horizonte – UFMG – PUC-MG – CEFET – UEMG – MESA: Educação e Movimentos Sociais. Disponível em: http://www.fae.ufmg.br/objuventude/upload/acervo/6d6dc46f168d5070792be1cafec96a45.Juventude,%20gremio%20estudantil%20e%20acao%20coletiva%20-%20consideracoes%20em%20torno%20dos%20movimentos%20sociais%20na%20contemporaneid.pdf

Considerando a importância do tema da cidadania nas sociedades atuais enquanto um processo construído historica e socialmente, abranger a temática de maneira a levar os alunos a refletirem acerca das realidades que os cercam e que estão dotadas de exemplos concretos sobre o tema, contribui para pensarem seu papel individual e coletivo acerca do ser cidadão.

Através de uma sensibilização, abordar o tema da cidadania, trazendo-o de maneira ampla, a fim de construir o conceito conjuntamente com os alunos. Para tanto, a música de Zé Ramalho – Cidadão, pode ser pensada enquanto um recurso didático amplo e totalmente cabível à discussão do tema. Segue a letra:

 

Cidadão
Tá vendo aquele edifício moço
Ajudei a levantar
Foi um tempo de aflição, era quatro condução
Duas pra ir, duas pra voltar
Hoje depois dele pronto
Olho pra cima e fico tonto
Mas me vem um cidadão
E me diz desconfiado
“Tu tá aí admirado ou tá querendo roubar”
Meu domingo tá perdido, vou pra casa entristecido
Dá vontade de beber
E pra aumentar meu tédio
Eu nem posso olhar pro prédio que eu ajudei a fazer
Tá vendo aquele colégio moço
Eu também trabalhei lá
Lá eu quase me arrebento
Fiz a massa, pus cimento, ajudei a rebocar
Minha filha inocente veio pra mim toda contente
“Pai vou me matricular”
Mas me diz um cidadão:
“Criança de pé no chão aqui não pode estudar”
Essa dor doeu mais forte
Porque que é qu’eu deixei o norte
Eu me pus a me dizer
Lá a seca castigava, mas o pouco que eu plantava
Tinha direito a colher
Tá vendo aquela igreja moço, onde o padre diz amém
Pus o sino e o badalo, enchi minha mão de calo
Lá eu trabalhei também
Lá foi que valeu a pena, tem quermesse, tem novena
E o padre me deixa entrar
Foi lá que Cristo me disse:
“Rapaz deixe de tolice, não se deixe amedrontar
Fui eu quem criou a terra
Enchi o rio, fiz a serra, não deixei nada faltar
Hoje o homem criou asas e na maioria das casas
Eu também não posso entrar”

O vídeo com imagens do cantor pode ser acessado em: http://www.youtube.com/watch?v=4cWVKP_I0JE

Após ouvirmos a música com os alunos, algumas questões e reflexões podem ser levantadas, através da discussão gerada a partir do tema, também.  Tais como:

 – Identificar problemáticas sociais na letra da música;

 – Partindo do título da canção “Cidadão”, apontar os cidadãos brasileiros que aparecem na música e como estão representados;

 – Considerando o trecho que se refere à filha da personagem que trabalhou na construção da escola, que é proibida de estudar neste local, o argumento utilizado é de que “crianças de pé no chão não podem entrar naquele lugar”. O “pé no chão” é uma alusão à condição econômica da menina e, por conseqüência, de seu pai. A partir desta afirmação é possível sugerir que as personagens sofram com a não realização de alguns direitos que deveriam ser garantidos a qualquer cidadão?

 – Partindo da ideia de cidadão trabalhada em aula, refletir sobre os direitos e deveres que são exercidos – ou não -, na música “Cidadão”.

A questão da violência nas escolas é temática recorrente na França, sendo colocada através da mídia ou mesmo dentro do próprio ambiente escolar.

Esta questão pode parecer nova, tendo surgido nos anos 80 e se desenvolvido nos anos 90, porém essa temática surge no século XIX quando

“houve, em certas escolas do 2o grau algumas explosões violentas, sancionadas com prisão. Da mesma forma, as relações entre alunos eram frequentemente bastante grosseiras nos estabelecimentos de ensino profissional nos anos 50 e 60.” (CHARLOT, Bernard. A violência na escola: como os sociólogos franceses abordam essa questão, Sociologias, Porto Alegre, no 8, 2o semestre 2002, p. 1).

Entretanto, nos dias atuais a violência nas escolas assume novas formas.

As novas formas de violência, dentre as quais encaixam-se homicídios, agressões com armar, passam a impressão de que não existem mais limites e que tudo poderá acontecer no ambiente escolar – “o que contribui para produzir o que se poderia chamar de angústia social face à violência na escola.”(idem, p. 2)

Há outro fato novo: os jovens envolvidos são cada vez mais novos. Alunos que apresentam comportamentos agressivos estão presentes desde pré-escola até o ensino médio.

Outro componente da violência escolar é o aumento de “fatores externo” que influênciam em tais casos como, por exemplo, grupos de jovens que resolvem suas desavenças dentro das escolas, familiares que buscam “justiça” para “injustiça” cometida no ambiente escolar contra seus parentes, ou seja, “a escola não se apresenta mais como um lugar protegido, até mesmo sagrado, mas como um espaço aberto às agressões vindas de fora.”(idem, p. 2)

Já atos repetitivos que podem não ser considerados atos de violência geram certa tensão no ambiente escolar, o que aumenta a angústia social, tanto mais do que atos realmente violentos.

Enfim, a violência escolar parece aumentar apesar das diversas tentativas de combatê-la:

 “tudo se passa como se a violência na escola tivesse convertendo-se em um fenômeno estrutural e não mais, acidental e como se, depois de instalada nas escolas de bairros problemáticos, ela se estendesse hoje a outros estabelecimentos.”(idem, p.3)

A situação de angústia social gera discursos sociomidiáticos (idem, p.3) que tendem agrupar fenômenos de natureza diferentes.

Entretanto, quando se analisam os locais onde corre a violência escolar é possível afirma que, em tais locais, encontra-se uma forte situação de tensão. Já em ambientes em que este tipo de violência vem diminuindo encontra-se uma equipe escolar que soube como diminuir a situação de tensão. Assim, é possível dizer que

“os incidentes violentos se produzem sobre um fundo de tensão social e escolar forte; em tal situação, uma simples faísca que sobrevenha (um conflito, às vezes menor) provoca a explosão (o ato violento). É preciso, portanto, dedicar-se às fontes dessa tensão” (idem, p.8)

Algumas origens de tal tensão podem ser encontradas no próprio bairro em que a escola está inserida como, por exemplo, um bairro considerado violento há grande possibilidade da escola deste bairro ter um índice alto de violência escolar. Porém, há bairros considerados violentos onde suas escolas apresentam um índice baixo de violência escolar.

Outras origens de tensão são o depósito, ou não, de expectativa colocada na escola em relação ao futuro profissional, a lógica e finalidade da instituição escolar, a relação da escola com o saber.

Assim, o estudo sobre a violência escolar deve se fundar na relação da escola com o saber, já que essa questão pode estar diretamente liga ao estado da sociedade, as desigualdades e formas de dominação que estão relacionadas às instituições escolares. Como também, deve estar ligada as práticas de ensino do dia-a-dia, que deveria ter como fim gerar prazer de freqüentar a escola.

Referência: CHARLOT, Bernard. A violência na escola: como os sociólogos franceses abordam essa questão, Sociologias, Porto Alegre, no 8, 2o semestre 2002.