Arquivo para setembro 26th, 2011

Introdução

Os Cursinhos Populares atualmente fazem parte de um contexto social amplo que envolve lutas sociais, históricas, raciais e demandas por políticas públicas, onde talvez o único norte que atravesse todas elas sem ser um determinante fixo seria as contingências da prática educacional, isto é, uma reparação do que foi a educação oficial no Brasil até o presente momento. E em relação a esta afirmativa, cabe perguntar o que é este movimento de cursinhos populares no seu interior? Sem pressupor obviamente uma dicotomia entre incluídos e excluídos, ou uma grade fixa de análise. A ideia básica é mostrar as fissuras entre uma educação popular, a partir de um estudo de caso e sua anatomopolítica, e suas contribuições para a educação em geral. Esta apresentação refere-se a uma prática discursiva (Foucault, 1999) e às possíveis representações do espaço físico em um cursinho pré-vestibular.
Durante dois anos e meio apreciei, senti, vivi e incorporei (BOURDIEU, 2003) o espaço o espaço físico do Projeto Herbert de Souza, na Vila União, cidade de Campinas na condição de professor. Portanto, ao passo que uma contribuição de uma análise de alguém dentro do grupo para alguém do lado de fora como sujeito distinto e completamente separado é falsa. Em verdade, temos uma mudança de perspectiva, uma inclinação para um outro olhar, um olhar distinto, mas não um olhar falso, nem verdadeiro. Na medida em que detalharei a organização espacial, escreve a vocês o professor e estudante de ciências sociais que estranha, tanto o professor quanto o estudante.

O espaço físico e suas possíveis representações


Este espaço a qual me refiro, a princípio, é basicamente um pré-vestibular comum, como qualquer outro, tende a seguir a linha dos cursinhos tradicionais voltados para população de alta renda, obviamente sem todo o conforto e disponibilidade tecnológica que estes cursinhos mais tradicionais exigem. Contudo, ele pode contar com o básico e suas disposições estratégicas, isto é, salas fechadas, disposição das carteiras, carteiras menores para um maior número de pessoas, relação de confronto direto entre professor/aluno, aluno/lousa, um aluno atrás do outro em fileira, um projetor móvel direcionado à parede branca, uma biblioteca e videoteca que divide seu espaço com a secretaria, dois banheiros (um masculino e outro feminino), um quadro de informações, secretários disponíveis no período em que o cursinho se encontra em funcionamento, apostila de apoio e etc. As disposições que o cursinho não pode contar por seus limites financeiros seriam salas com tablado, carteiras mais confortáveis, projetores com tela especifica, ventilação adequada ou ar condicionado, conjunto de lousa verde para giz e lousa branca para caneta piloto entre outros.
Assim como há um limite financeiro para o cursinho, pressuponhamos que há um limite tecnológico de acomodação, e mesmo assim o cursinho se mantém. Então podemos nos perguntar se o cursinho se mantém somente por que seu acesso é possível financeiramente para as classes baixas da sociedade? A resposta que consideramos é que sim, no entanto, ela não seria suficiente para explicar uma relação maior existente para a preservação e reprodução de determinados quadros no cursinho. Isto é, é importante salientar que o Projeto Herbert de Souza existe há doze anos e nestes doze anos, mesmo sob inúmeros percalços, o cursinho se manteve e mantém seus quadros de organização renovados por um certo período de tempo. Digo isto, por que antes de explicar a (in)suficiência tecnológica do cursinho temos que olhar para uma pergunta e uma constatação. a) Será que os organizadores do Herbert de Souza não sabem desta limitação financeira e tecnológica? Sim, sabem. b) Ciente desta condição, a constatação é que se deve fazer o melhor com o que se tem, desde a estrutura de pessoas – que atravessa inevitavelmente uma estrutura ideológica e burocrática – até a estrutura do material disponível. A estrutura de pessoas e formação de quadros estão completamente ligadas, pois é a formação de novos quadros feita por ex-alunos que passaram pelo Projeto e acessaram a universidade que preenchem os novos quadros. Segundo o estatuto, são feitas eleições são a cada três anos e 75% do quadro de coordenadores devem ser ocupados por ex-alunos do projeto. Temos, sobretudo, uma burocracia que arregimenta e assegura a reprodução de uma ideologia de classe, lembrando que o cursinho tem como objetivo fundamental alunos de camadas financeiras mais baixas, A questão anterior não se exerce somente pelas baixas taxas que alcança no máximo 10% de cursinhos com tendências elitizadas até a isenção total da taxa, mas também pela ausência/improvisação de disposição tecnológica. Obviamente se o cursinho pudesse ter a presença destes materiais mais sofisticados eles seriam bem-vindos, sem sombra de dúvida, no entanto, a ausência destes materiais não é a presença do lamento, mas estratégia para outros fins como assegurar a luta por outra forma educacional ou a mesma educação, entretanto, com mais qualidade.
As estratégias de manutenção de um espaço como o Herbert de Souza faz-se por meios quase invisíveis aos olhos do púbico em geral, visível somente a quem o organiza. Digamos que a reorganização constante do espaço e daquilo que é móvel no espaço, na medida do que é possível, acompanha a exigência de um modelo de cursinho que aparentemente tem objetivo imediato os cursinhos com mais disponibilidade financeira. Reformas e construções foram feitas ao longo dos anos, necessidades básicas como banheiros bem higienizados, uma secretária para atendimento do aluno, rampa de acesso para deficientes, ventiladores de teto, ou seja, todo um aparato de serviços foram questões que entraram em pauta em um determinado momento e se cumpriram. Isto ainda quer dizer que o fim último do cursinho é deixar de ser popular para se tornar um cursinho elitizado? Ao passo em que estas demandas – melhoria da infraestrutura – estão inseridas dentro dos nossos modelos de organização social (modo de produção), é impossível não dar uma resposta positiva a elas – tendo em mente que se paga pela educação oferecida naquele espaço, mesmo que um baixo valor. No entanto, existe um nível de organização mais baixo e microfísico que nos mostra uma diferenciação no modo de se organizar e que não recorre a altos recursos financeiros.
Como sabemos, cursinhos em geral perdem sua clientela ao longo do ano e isso não é exceção em cursinhos populares, no decorrer do ano um cursinho chega a perder 80% dos alunos. Conforme diminui o número de alunos, o espaço vai ficando cada vez mais vago e percebeu-se que conforme a sala de aula vai ficando cada vez mais vazia, outros alunos tendem a desistir das aulas, esta é uma tendência geral e motivo de certos investimentos de reformulação do espaço. Uma das estratégias que se lançam mão é o de acomodar os alunos e espaços menores, pois em salas menores a impressão que se tem é de que a sala continua cheia, embora a quantidade de alunos seja menor. Este é um modelo de luta local? Não. É um uma fórmula utilizada em diversos cursinhos e possivelmente nem seja estratégia originada em cursinho, mas neste caso tem suas significações próprias, pensada para uma sala de aula e para um objetivo especifico. Em suma, mesclaram-se conhecimentos arquitetônicos e psicológicos voltados para uma política de acomodação do corpo dentro do espaço, foi pensado as disposições gerais do sujeito em uma determinada situação e para esta, as ferramentas adequadas para um fim último: uma educação que obedece aos ditames da estabilidade.
Por outro lado, há formas de mobilização e organização que passam pelo significado do que são estes espaços. Por exemplo, no dia 20 e 21 de agosto houve o Fórum dos Cursinhos Populares 2011 na região de Campinas. Uma organização que promoveu o encontro de cursinhos populares de todas as regiões do Estado de São Paulo e alguns Estados próximos. O debate versou sobre o acesso e a permanência de estudantes oriundo das escolas públicas e periferias na universidade pública. O evento contou com a presença do coordenador da Comissão Permanente para o Vestibular da Unicamp (Comvest), Mauricio Kleinke no segundo dia de debate. O Fórum, organizado por uma rede de cursinhos presentes em Campinas, mas que teve suas edições anteriores feitas em outros municípios do interior paulista. Nesta edição de 2011 foi debatido justamente as estratégias pedagógicas e tecnologias para se (re)pensar a educação sobre as seguintes propostas: “Vantagens e desvantagens da Institucionalização dos Cursinhos Populares; Ferramentas Pedagógicas e Recursos Educacionais Abertos; Estratégias Pedagógicas Diferenciadas e Projeto Político Pedagógico”. Mais uma vez vimos que a carência financeira e tecnológica não é tomado como um lugar de lamento, mas um ponto de estratégia e luta, e então revertida em criatividade. Certamente são nesses locais que nascem estratégias locais para (re)pensar o que esta dado devido as amarras do poder. Podemos dizer que o pensamento sobre as aspirações humanas neste caso foi performatizada no ordinário de forma silenciosa sob as vestes da prescrição, e que em um dado momento pode-se prescrever sua própria performance.

Bibliografia:

BOURDIEU, P. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003.
FOUCAULT, M. A ordem do discurso. São Paulo: Edições Loyola, 2009.
FUNARI P. P.; ZARANKIN Cultura material escolar: o papel da arquitetura. Pro-Posições. v. 16. n. 1(46) – jan./abr. 2005.
RAMANELLI, O. de O. A história da educação no Brasil. Petrópolis: Ed. Vozes, 1986.
ZAGO, N. Do acesso à permanência no ensino superior: percursos de estudantes universitários de camadas populares. Revista Brasileira de Educação v. 11 n. 32 pag. 226-237, 2006.
______. Pré-vestibular popular e trabalho docente: caracterização social e mobilização. Revista Contemporânea. UFRJ. Rio de Janeiro, v. 4, n. 8, agosto/dezembro de 2009.

Sites: retirados 26 de set de 2011

http://www.forumdospopulares2011.blogspot.com/

http://cursinhopopularherbertdesouza.blogspot.com/

 

Sociologia para quê?!

    Exposição de ideias próprias (sem referencial teórico) a cerca da importância da sociologia no Ensino Médio. Conclusão de reflexões iniciadas em aula da disciplina Estágio Supervisionado em Ciências Sociais.

   Essa é uma questão que nós como professores, pais e simplesmente brasileiros nos colocamos quando a sociologia foi colocada como disciplina obrigatória do Ensino Médio. Muitas são as opiniões, contra e a favor da medida, porém há um senso comum que parece flutuar entre todos os argumentos. Na revista Veja dessa semana em um artigo sobre leis inúteis o colunista mostra-se claramente contra a obrigatoriedade da sociologia e filosofia no Ensino Médio, abaixo trecho do artigo em que trata dessa lei:

ENSINO DE FILOSOFIA E SOCIOLOGIA NAS ESCOLAS
LEI FEDERAL N° 11684, DE 2008
Situação: em vigor.
O que determina: torna obrigatórias as disciplinas de filosofia e sociologia nas três séries do ensino médio em todas as escolas do Brasil.
O absurdo: os brasileiros figuram nas piores colocações em disciplinas como ciência, matemática e leitura, no ranking do Programa Internacional de Avaliação de Alunos. Em vez de empreender um esforço para melhorar o quadro lastimável da educação brasileira, o governo se empenha em tornar obrigatórias disciplinas que, na prática, só vão servir de vetor para aumentar a pregação ideológica de esquerda, que já beira a calamidade nas escolas. Uma das metas do currículo de sociologia no Acre é ensinar os alunos a produzir regimentos internos para sindicatos.

(Tirado daqui em 26 de setembro de 2011)

   Não quero aqui tratar do absurdo dessa reportagem veiculada de forma impressa e pela internet em uma das revistas mais lidas e “conceituadas” do país, mas sim ressaltar uma ideia que está nela presente, referente à disciplina de sociologia como vetor ideológico (no caso de esquerda). No caso acima mostrado é evidente que tal argumento é colocado de forma negativa, porém está de certa forma presente nos discursos dos defensores da sociologia no Ensino Médio ideia semelhante que trata a sociologia como disciplina privilegiada e necessária (veja exemplo aqui), já que o professor de sociologia teria oportunidade de politizar, democratizar e conscientizar seus alunos, construindo neles uma visão crítica. Nesse sentido devo concordar que há certa carga “ideológica” inerente então à sociologia (não julgando isso necessariamente como negativo), e é desse ponto que partem questões centrais: esse é o objetivo da sociologia? Esse é um privilégio da sociologia?

     Respondendo a primeira questão: Sim e não, acredito que politizar e tornar o aluno crítico é um objetivo da sociologia assim como de todas as disciplinas, sendo um compromisso que deve partir da escola como um todo, não apresentando sequer as matérias das chamadas ciências duras como verdades absolutas. Pode a princípio parecer mais fácil à sociologia fazer isso, pois é uma disciplina nova no currículo sem verdades cunhadas (especialmente pelo vestibular), onde os conhecimentos aprendidos na universidade pelos professores podem ser trabalhados de forma mais flexível, o que em outras disciplinas mais tradicionais, apesar dos professores saberem que não se tratam de verdades absolutas a tratam como tal, pois é uma cobrança já institucionalizada e assim mais difícil de ser rompida.

    Dessa forma, quanto à questão do privilégio, a sociologia teria como privilégio ser uma disciplina ainda não totalmente institucionalizada e presa em paradigmas escolares. Contudo, poderia-se então pensar porque ensinar/aprender sociologia, se não para suprir esses fatores já citados que as demais disciplinas não dão conta. A respostas para isso, creio estar mais uma vez em um dos privilégios da sociologia. Espera-se que os alunos tenham uma formação crítica e politizada, porém muitas vezes o que falta para essa politização, por exemplo, é conhecimento. Como poderiam as pessoas olharem criticamente as promessas de um político se ao menos sabem quais as reais funções e possibilidades desse político?! Ainda que os professores de ciências, matemática, português tenham ensinado que não há verdades absolutas e que podemos (devemos) ter um olhar crítico e questionador, sem o conhecimento conceitual das formas de governo e funções dos cargos públicos a visão crítica nesse assunto estaria prejudicada. Sendo assim, fica claro que os conceitos ensinados pela sociologia (mesmo quando “livres de ideologia”) tornam-se um privilégio na busca por cidadãos conscientes, críticos e politizados, ou seja, a sociologia é importante primeiramente por si mesma e necessária na escola pelos conceitos próprios que abrange e que não são, nem poderiam ser, contemplados por outras disciplinas.