Sociologia para quê?!

    Exposição de ideias próprias (sem referencial teórico) a cerca da importância da sociologia no Ensino Médio. Conclusão de reflexões iniciadas em aula da disciplina Estágio Supervisionado em Ciências Sociais.

   Essa é uma questão que nós como professores, pais e simplesmente brasileiros nos colocamos quando a sociologia foi colocada como disciplina obrigatória do Ensino Médio. Muitas são as opiniões, contra e a favor da medida, porém há um senso comum que parece flutuar entre todos os argumentos. Na revista Veja dessa semana em um artigo sobre leis inúteis o colunista mostra-se claramente contra a obrigatoriedade da sociologia e filosofia no Ensino Médio, abaixo trecho do artigo em que trata dessa lei:

ENSINO DE FILOSOFIA E SOCIOLOGIA NAS ESCOLAS
LEI FEDERAL N° 11684, DE 2008
Situação: em vigor.
O que determina: torna obrigatórias as disciplinas de filosofia e sociologia nas três séries do ensino médio em todas as escolas do Brasil.
O absurdo: os brasileiros figuram nas piores colocações em disciplinas como ciência, matemática e leitura, no ranking do Programa Internacional de Avaliação de Alunos. Em vez de empreender um esforço para melhorar o quadro lastimável da educação brasileira, o governo se empenha em tornar obrigatórias disciplinas que, na prática, só vão servir de vetor para aumentar a pregação ideológica de esquerda, que já beira a calamidade nas escolas. Uma das metas do currículo de sociologia no Acre é ensinar os alunos a produzir regimentos internos para sindicatos.

(Tirado daqui em 26 de setembro de 2011)

   Não quero aqui tratar do absurdo dessa reportagem veiculada de forma impressa e pela internet em uma das revistas mais lidas e “conceituadas” do país, mas sim ressaltar uma ideia que está nela presente, referente à disciplina de sociologia como vetor ideológico (no caso de esquerda). No caso acima mostrado é evidente que tal argumento é colocado de forma negativa, porém está de certa forma presente nos discursos dos defensores da sociologia no Ensino Médio ideia semelhante que trata a sociologia como disciplina privilegiada e necessária (veja exemplo aqui), já que o professor de sociologia teria oportunidade de politizar, democratizar e conscientizar seus alunos, construindo neles uma visão crítica. Nesse sentido devo concordar que há certa carga “ideológica” inerente então à sociologia (não julgando isso necessariamente como negativo), e é desse ponto que partem questões centrais: esse é o objetivo da sociologia? Esse é um privilégio da sociologia?

     Respondendo a primeira questão: Sim e não, acredito que politizar e tornar o aluno crítico é um objetivo da sociologia assim como de todas as disciplinas, sendo um compromisso que deve partir da escola como um todo, não apresentando sequer as matérias das chamadas ciências duras como verdades absolutas. Pode a princípio parecer mais fácil à sociologia fazer isso, pois é uma disciplina nova no currículo sem verdades cunhadas (especialmente pelo vestibular), onde os conhecimentos aprendidos na universidade pelos professores podem ser trabalhados de forma mais flexível, o que em outras disciplinas mais tradicionais, apesar dos professores saberem que não se tratam de verdades absolutas a tratam como tal, pois é uma cobrança já institucionalizada e assim mais difícil de ser rompida.

    Dessa forma, quanto à questão do privilégio, a sociologia teria como privilégio ser uma disciplina ainda não totalmente institucionalizada e presa em paradigmas escolares. Contudo, poderia-se então pensar porque ensinar/aprender sociologia, se não para suprir esses fatores já citados que as demais disciplinas não dão conta. A respostas para isso, creio estar mais uma vez em um dos privilégios da sociologia. Espera-se que os alunos tenham uma formação crítica e politizada, porém muitas vezes o que falta para essa politização, por exemplo, é conhecimento. Como poderiam as pessoas olharem criticamente as promessas de um político se ao menos sabem quais as reais funções e possibilidades desse político?! Ainda que os professores de ciências, matemática, português tenham ensinado que não há verdades absolutas e que podemos (devemos) ter um olhar crítico e questionador, sem o conhecimento conceitual das formas de governo e funções dos cargos públicos a visão crítica nesse assunto estaria prejudicada. Sendo assim, fica claro que os conceitos ensinados pela sociologia (mesmo quando “livres de ideologia”) tornam-se um privilégio na busca por cidadãos conscientes, críticos e politizados, ou seja, a sociologia é importante primeiramente por si mesma e necessária na escola pelos conceitos próprios que abrange e que não são, nem poderiam ser, contemplados por outras disciplinas.

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  1. Me parece que com este post fica clara a importância da sociologia enquanto disciplina formadora de pessoas críticas e capazes de compreender o mundo que as cerca, independente de orientação política e preferência partidária (digo isso em alusão ao que chamaria de um senso comum, claramente propagado pelo colunista da Veja citado no post). É claro que essa não deve ser a competência exclusiva do professor de sociologia (se não me engano, já havia dito em sala de aula que devo muita da minha formação a um professor de história), mas com certeza podemos a ele atribuir a competência de subsidiar o aluno com os conhecimentos e debates acumulados pela sociologia para o desenvolvimento de tal capacidade.

    Em resumo, acredito que a contribuição da sociologia para o ensino médio e a educação como um todo seja o de formar pessoas capazes de entender a realidade social que as cercam. No entanto, acredito que a imposição de ideologias e visões de mundo não contribuem em nada para o desenvolvimento desta capacidade, muito pelo contrário, é através do debate e da troca de ideias que o professor pode suscitar no aluno a curiosidade e a capacidade de pensar criticamente o mundo.

  2. De acordo com Currículo do Estado de São Paulo para a disciplina de Sociologia – que foi elaborado por um grupo de
    professores doutores, como: Heloisa Helena T. de Souza Martins (USP-coordenadora), Amaury César Moraes (USP), Aparecida Néri de Souza (UNICAMP), Fernando Lourenço (UNICAMP), Fraya Frehse (USP), e Tom Dwyer (UNICAMP) – a volta da disciplina no Ensino Médio “trouxe como tarefa para todos nós mostrar aos gestores da educação, aos professores das outras disciplinas e, principalmente, aos alunos, a contribuição competente que a Sociologia pode dar à formação das novas gerações. Podemos demonstrar com o nosso trabalho que o ensino da Sociologia pode contribuir para o aprimoramento do aluno como pessoa humana, para a sua formação ética e para o desenvolvimento da autonomia intelectual e do pensamento crítico, preparando esse aluno para o exercício da cidadania.”

    O que se espera é que o aluno, com a mediação do professor, desenvolva um olhar sociológico acerca do mundo, a partir do estranhamento e desnaturalização das relações sociais estabelecidas. Nesse sentido, visa-se “superar as explicações do senso comum, os preconceitos e as ideologizações”.

    Estranhamento – que é afastamento daquele que olha para com o objeto com o intuito de melhor compreendê-lo – e desnaturalização – que é retirar o status de natureza das relações sociais que conhecemos – não são, senão, dois pressupostos da sociologia enquanto uma tentativa de fazer ciência.
    Acredito, nesse sentido, que o caráter “emancipador” e “conscientizador” da sociologia no ensino médio nada mais é, defendo, do que consequência do estranhamento e da desnaturalização que permeiam a ciência.
    Entretanto, é preciso fugir de todas as formas de senso comum seja de direita ou de esquerda, e garantir um mínimo de distanciamento do objeto que se analisa em sala de aula.

    ——————————————————————————-

    Os grifos acima foram retirados do documento “Plano Geral da disciplina – Sociologia” disponibilizado no Curso de Formação Específica do Concurso Público para Professor de Educação Básica II – 2011

    Posso disponibilizar o documento completo para quem quiser, já que a página do curso não é aberta.




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