Que Sociologia ensinaremos ?

Ordem e Progresso?

É provável que poucos autores clássicos das ciências sociais tenham dado tanta importância à necessidade de se difundir o conhecimento sociológico quanto Auguste Comte. Isto se deve, evidentemente, à maneira pela qual este autor pensou o devenir histórico das sociedades humanas, cuja plena realização se daria com a sociedade científica e industrial que emergia no início do século XIX. Para Comte, a história desta progressão seria a história das etapas pela qual havia passado o espírito humano, resumida em três estágios que dariam suporte a diferentes tipos de sociedade. O pensamento metafísico, que havia atingido seu auge com os embates teóricos dos escolásticos da Idade Média, havia sucedido a explicação teológica da natureza física e humana, e precederia o surgimento da ciência positiva enquanto modo de reflexão do humano. Assim, longe de se restringir a uma reduzida elite de acadêmicos, a ciência positiva viria a se tornar, nas previsões de Comte, o modo de reflexão da sociedade humana enquanto um todo.

No entanto, Comte inferiu estas previsões a partir do contexto em que vivia, que seria o de uma profunda crise do antigo sistema epistemológico e social, sem que pudesse ter em vistas nada mais que prospecções de futuro. A difusão do conhecimento sociológico ou, melhor dizendo, da expansão da ciência positiva aos estudos sobre sociedade e política, deveria ser incentivada enquanto suporte ao reordenamento desta sociedade. Os antagonismos internos que abatiam a sociedade francesa, que se encontrava então na passagem entre duas etapas distintas do progresso humano, só se resolveriam mediante a realização total desta passagem. O progresso intelectual alcançado mediante o ordenamento do saber representaria, então, as bases do progresso social. Segundo Raymond Aron,

“Comte conclui, a partir da análise da sociedade em que vive, que a reforma social tem como condição fundamental a reforma intelectual. Os imponderáveis de uma revolução ou a violência não permitem reorganizar a sociedade em crise. Para isso é preciso uma síntese das ciências e a criação de uma política positiva.” (ARON, p.86)

Segundo Comte, caberia à Sociologia a realização máxima desta transformação, na medida em que esta seria a ciência mais complexa, e justamente por isso a última a se ordenar segundo os preceitos do conhecimento positivo. Incentivar a expansão do modo sociológico de reflexão seria uma maneira de acelerar a resolução da crise social em questão, na medida em que a compreensão do devenir histórico seria fundamental para auxiliar na sua realização.

De que maneira este capítulo das reflexões sociológicas deve ser renegado a aventuras de exotismo histórico, sendo tomado como uma página definitivamente virada daquilo que ainda somos? Acredito que, quase dois séculos depois de Comte, devemos voltar algumas destas páginas na busca deste espírito politécnico que, talvez, ainda ronde nossas principais conquistas.

Sociologia para todos?

Segundo Raymond Aron, a obra de Auguste Comte se concentra em torno de uma problemática fundamental: a unidade humana, a despeito de toda sua variedade. Somente ao aceitar este pressuposto foi possível ao autor discorrer a respeito do determinismo histórico e do devenir necessário da espécie humana enquanto um todo. A Sociologia, neste sentido, viria a coroar os esforços pela unidade do pensamento. Seria possível pensarmos, ainda hoje, no que se refere à inserção da Sociologia no Ensino Médio, que esta disciplina carrega uma dificuldade intrínseca para lidar com a diversidade dos sujeitos que se encontram na sala de aula? Temo que sim.

Ainda neste sentido, não estaríamos buscando, à maneira de Comte, pôr fim aos antagonismos de nossa sociedade mediante o esclarecimento de espíritos considerados incapazes de refletir de maneira correta por estarem privados de um método positivo de compreensão da realidade? Formar cidadãos conscientes para gerir uma nova ordem social, mais promissora porque pautada em um progressismo não constitui ainda uma proposta anacrônica, referente a um projeto escolar que se mostra cada dia mais insuficiente e artificial? De que maneira pensarmos uma Sociologia para todos não se alinha às propostas reformistas tais quais expressas por Auguste Comte no início do século XIX?

Bibliografia:

ARON, Raymond. Auguste Comte. In: As Etapas do Pensamento Sociológico. São Paulo: Martins Fontes, 2008.

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