Arquivo para setembro 29th, 2011

No contexto em que a ciência moderna se presta à constituição de saberes sobre a escola, é bastante importante considerar que, como afirma Maurice Merleau-Ponty, “A ciência manipula as coisas e se recusa a habitá-las”. O fenomenólogo francês compreende que a tradição herdeira de Descartes procede segundo a separação entre res extensa e res cogitans e, por consequência disso, resulta numa maneira de pensar transcendental. Alienado de seu corpo e de sua existência fenomenológica, o sujeito do conhecimento se encontra abstraído de sua concretude e constitui saberes racionalmente aplicáveis à consciência.

Como o próprio filósofo disse em seus textos, sua proposta não é invalidar as contribuições da ciência e nem mesmo sustentar a impossibilidade do conhecimento humano, mas sim identificar as limitações às quais se submete a tradição do pensamento ocidental. O que pretendo enfatizar aqui é exatamente a permanência de uma ontologia moderna no tratamento da educação, e, mais especificamente, na maneira de lidar com o fenômeno escolar. Como veremos a seguir, Merleau-Ponty pode ter sinalizado aquilo que tomei a liberdade de identificar como “a escola ontologicamente impossível”.

Na medida em que a própria pedagogia estuda o homem na sua relação com o fenômeno educacional, elabora um conhecimento pautado nos mais diversos aspectos institucionais e na sua dinâmica viabilizada pelas ações dos sujeitos das relações sociais. Entretanto, a maneira de proceder cientificamente, ou a própria metodologia de estudo, se refere ao modo pelo qual a realidade observada pode ser inteligível à razão e razoavelmente observada pelos demais sujeitos se se detiverem ao método. Como sabemos, é também devido a essa maneira de organizar o conhecimento que dividimos as disciplinas escolares e institucionalizamos a escola em fundamentos que possam garantir o acesso democrático aos saberes “universais”. O que pretendemos dizer é que democracia e universalidade do saber equivalem ao modo transcendental de pensar o fenômeno educacional escolar.

Alguns teóricos da democracia insistiram e insistirão em afirmar que a desigualdade inicialmente instituída e historicamente conformada deve nos levar a considerar a igualdade como ponto de chegada. Em outros termos, sem que entremos no mérito da legitimidade do argumento, essa assertiva pressupõe um modo de conceber a educação para a consciência. A implicação disso é a abordagem flutuante dos saberes escolares e sua maneira inconciliável de lidar com os saberes incorporados dos sujeitos socioculturais, alienados de seus corpos que enraízam a experiência do pensamento.

A escola como espaço sociocultural é ontologicamente impossível na medida em que a tradição cartesiana marca o campo científico pelo qual perpassam tanto as discussões científicas como as políticas públicas, em detrimento da organização escolar que, por mais que se esforce, está condenada institucionalmente a conduzir a escola à ineficácia educacional por que aliada à determinação da consciência – transcendentalismo, metafísica do dever moral e revolucionário, humanismo retrógrado, entre outras coisas. Nesse sentido, e longe de todo discurso sobre a eficiência da educação, a sociologia deverá se prestar à eficácia simbólica se quiser margear o homem inteiro, na sua sensciência sociológica.

Bibliografia:

DAYRELL, Juarez. “A escola como espaço sócio-cultural”. In: Múltiplos olhares sobre educação e cultura. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 1999.

MERLEAU-PONTY, Maurice. “O olho e o espírito”. In: Textos selecionados; seleção de textos Marilena de Souza Chauí; tradução e notas Marilena de Souza Chauí e Pedro de Souza Moraes. (Coleção Os Pensadores). São Paulo, Nova Cultural, 1989.

Em estágio acadêmico realizado no primeiro semestre de 2011, na Escola Estadual Jornalista Roberto Marinho – Campinas, SP, um tema trabalhado com freqüência, com alunos da segunda série do Ensino Médio, foi o da violência.

 Está temática foi trabalhada em todas suas formas de expressão como, por exemplo, violência doméstica, violência contra mulher, violência presente nas ruas, etc.

Como atividade complementar foram trabalhadas algumas músicas do cantor Gabriel “O Pensador”, dentre elas “Retrato de um playboy”, “Lavagem cerebral”, “Estudo errado”, “O resto do mundo” e “Até quando”.

A sala foi dividida em cinco grupos, para cada qual foi distribuída a letra de uma das músicas (citadas acima).  As músicas foram tocadas para que todos estudantes escutassem e, em seguida, esses foram orientados a fazer uma análise da letra que se encontrava com eles.

 O objetivo da análise (e da atividade) era que os alunos identificassem na letra qual “tipo” de violência estava sendo tratada. A partir de trechos das músicas, que serviriam de base para reflexão, os alunos deveriam elaborar uma discussão sobre a forma de expressão da violência que a letra tratava.

Ao final abriu-se um debate para que os grupos expusessem suas reflexões e, em contrapartida, os alunos expressassem suas opiniões.

 

Para melhor ilustrar está atividade apresento abaixo uma reflexão de um dos grupos, o qual estava com a música “O Resto do Mundo”:  “Foi identificado que a falta de oportunidade pode gerar violência como, por exemplo, acabar com a vida de terceiros, pois não se tem nada a perder; a questão do racismo, sendo racismo igual a burrice (“burro quem acha que racismo não existe”). Identificamos também que a  questão de falta de oportunidades, de acordo com a música, pode estar ligada as pessoas ricas, o que gera grande revolta, podendo desencadear vários tipos de violências (roubos, assassinatos, etc.)” (comentários dos estudando da Segunda Série do Ensino Médio, da Escola Estadual Jornalista Roberto Marinho, a respeito da música “O Resto do Mundo” ‘Gabriel “O Pensador”).