Arquivo para outubro 6th, 2011

No dia 28 de Setembro, acompanhei uma professora da escola E. E. Dora Maria Maciel de Castro Kanso em suas três aulas de Sociologia com turmas do Ensino Médio. A escola é relativamente pequena, possui turmas de ensino Fundamental, Médio e EJA (Educação de Jovens e Adultos) fica localizada no bairro Village Campinas. Um bairro distante do centro de Barão Geraldo, para chegar lá tivemos de seguir pela Estrada da Rodhia e pegar outra estrada, segundo a professora, construída no governo de Oreste Quércia que passa por um terreno/chácara pertencente a ele, mas que possivelmente já foi vendido.

No final da estrada, inicia-se o bairro Village Campinas, falta asfaltamento no bairro. Contudo, pelo que soube, houve uma pesquisa promovida pela Unicamp constatando a impossibilidade de asfaltar a região devido aos cursos de água ali presentes, o ideal seria uma pavimentação com pedras. O Village é uma espécie de periferia rural, cercado por grandes extensões de terras e condomínios, existe a mais ou menos 30 anos.

Na E. E. Dora Maria Maciel de Castro Kanso, as paredes das salas de aula eram azuis e verdes, em todas encontrei um cartaz com Regras de Sala de Aula com as seguintes instruções: respeitar todos, usar linguagem adequada, cuidar do ambiente escolar, comer somente no intervalo. Havia um ventilador em cada sala e alguns armários azul-claros com fechadura, na primeira sala que entrei junto a outros quatro estagiários da PUC, os alunos dispuseram-se nas extremidades da sala, junto às paredes.

Esta turma era de Terceiro Ano, havia treze alunos na sala e só quatro eram meninas, pelo que pude saber através da professora mais dois alunos freqüentam regularmente a turma. Na reordenação do espaço efetuada pelos alunos, duas meninas encostaram a carteira uma do lado da outra junto a parede com janela, elas estavam rodeadas de meninos a sua volta, dois na frente, um atrás e outro do lado.

Outros quatro garotos sentaram no outro extremo da sala, na parede da porta de entrada e um grupo de duas meninas e um menino juntaram suas carteiras no meio da sala, bem próximo a mesa da professora. A aula foi sobre sistema de governo (monarquismo, presidencialismo e parlamentarismo), uma das perguntas da professora foi: quais são os países que possuem monarquia hoje?

Os alunos manifestaram-se de forma eufórica, ora respondendo com afirmativas corretas como Inglaterra, ora com algumas absurdas como Minas Gerais. A professora procurou dar algumas dicas, como no caso da Holanda, pensando na cor da camiseta da seleção holandesa (laranja), representante da cor da família real. No fim, ela passou as respostas corretas, de forma, a conter os alunos, interessante que as meninas pouco se movimentaram para responder, somente as do canto cercadas de garotos e, ainda assim, de maneira tímida.

Houve um momento no qual as meninas do canto trocaram de lugar entre si e o menino que estava do lado se dirigiu a professora e perguntou:

– Professora, a senhora acha normal uma pessoa vestir duas cuecas? Ao que ela respondeu: – Não! E você acha normal alguém fazer este tipo de pergunta? Pouco interessa o que a pessoa está a vestir.

Isto gerou uma risada generalizada por toda a sala.

A aula acabou, não houve nenhum sinal a tocar. Dirigimo-nos, então, a outra sala, a turma agora era de Primeiro Ano, havia quarenta e quatro alunos na sala, estavam todos dispostos de forma bem simétrica, cinco fileiras de carteiras na vertical e seis na horizontal. Dois alunos estavam um pouco deslocados, não pertenciam à fila alguma, a divisão entre meninos e meninas nesta turma era mais equitativa. A sensação era de aperto, senti dificuldade de encontrar um lugar para sentar, felizmente na primeira fileira junto à parede com janela havia duas carteiras espremidas, retirei uma e a coloquei no corredor e me sentei na outra.

A aula foi sobre desigualdade de classe, a professora utilizou o típico exemplo do operário e do dono da fábrica para pensar na exploração do trabalho do primeiro pelo segundo e em suas características enquanto classe. Uns como detentores dos meios de produção e pertencentes à classe A e outros como detentores somente de sua força de trabalho, de forma, a pertencerem a uma classe C ou D. Questionamentos sobre a diferença entre o operário e o dono da fábrica de sapatos foram feitos pela professora, apesar do burburinho na sala, um aluno se manifestou sugerindo que a diferença entre os dois era de estudo.

Ao que ela colocou não ser esta a diferença, tomando a si mesmo como exemplo, possui graduação, mestrado e doutorado em Ciências Sociais só que não é proprietária dos meios de produção. Procurar não falar mais que vinte minutos faz parte do plano de atividades das aulas, segundo a professora falar durante muito tempo não adianta porque os alunos não absorvem muito, deixo-os, então, escrever o que estava na lousa. Passados uns dez minutos, os alunos começaram a retirar-se da sala, a professora perguntou se o sinal havia tocado, ao que alguns responderam que sim. Poucos minutos depois houve realmente o toque de um sinal, iniciava-se o intervalo.

Outro sinal denunciou o fim do intervalo, agora a terceira e última turma era de Segundo Ano. Havia vinte alunos presentes sendo sete meninas e treze meninos, apesar de o número de matriculados ser de trinta e três. Entre o Primeiro e Segundo Ano é possível perceber uma evasão dos alunos da escola pela diminuição no número de matriculados de uma série para outra, no Terceiro Ano isto fica bem visível.

Série Número de Matriculados

Primeiro Ano

44

Segundo Ano

33

Terceiro Ano

13

Para esta aula os alunos chegaram pouco depois do sinal, eles foram se situando na sala de forma diluída, mas em pequenos grupos de seis ou cinco pessoas. Um aluno saiu da sala para fazer uma prova de Geografia, houve chamada e professora começou a introduzir o conteúdo, só que dali dez minutos, o garoto voltou, a professora se dirigiu para ele: – Mas você já terminou a prova? Ao que ele levantou os braços em sinal de vitória.

Isto provocou uma agitação e riso de todos, alguns exclamaram é um gênio, ih… não sabia nada. Apesar disso, a professora procurou retomar o conteúdo, a proposta dela era ler um texto da apostila do Estado, alguns alunos, aliás, estavam sem o caderno da apostila. Após ler uns quatro parágrafos do texto sem concluí-lo, a moça vigilante da escola bateu na porta avisando o término da aula, a professora pediu para ela falar para o outro professor aguardar um minutinho enquanto ela terminava a leitura. Nisto, a moça avisou que a próxima aula seria aula vaga, gerando uma euforia de contentamento nos alunos de ir mais cedo para casa. Eles levantaram-se, alguns gritaram por silêncio (deixa ela falar! Xiuu!) e de pé aguardaram a leitura dos últimos parágrafos.

É incrível como os alunos estão constantemente a reordenar as lógicas escolares, seja na ordenação do espaço, nos comentários ‘fora de hora’, aproveitamento do tempo e certos avais garantidos a alguns professores de deixar falar mesmo quando o tempo delimitado da aula tiver acabado, é necessário para o professor dar uma boa aula ganhar o carisma deles. Os inscritos no ambiente escolar reescrevem suas normas, mas muitos abandonam a escola, o Ensino Médio não é obrigatório como o Ensino Fundamental nem atrativo como o mercado de trabalho no qual muitos se inserem em funções junto a comércios locais como a Frutaria Rio das Pedras. Contudo, muitos do que permanecem estudando concomitantemente trabalham, encontrei dois trabalhando na UNICAMP no programa Patrulheiros.

Rap e educação.

 

 

Dentro da aulas de “Escola e Cultura”, disciplina oferecida pela Faculdade de Educação pela UNICAMP tivemos a oportunidade de desenvolver diversos projetos ligados à problematização da escola pública hoje. A princípio tinhamos que formular uma problematização e irmos ao campo dar cabo das nossas indagações. Na apresentação da problematização do projeto um, em especial, me chamou a atenção. Em suma, o coléga que a apresentará tinha o seguinte questionamento: “Qual o lugar do prazer na educação?”

Tornei o questionamento meu, assim como acho que todos deveriam fazer. Uma das minhas respostas talvez se encontre neste video, justamente por que ele oferece não somente entetrenimento, mas uma possibilidade dos alunos se verem naquele que por muito tempo pode ter sido seu camarada e vigia* um alguém de referências próximas. Os instrumentos que são de facil domínio por estudantes deveria ser objeto de conhecimento e compartilhamento de professores. Dividir experiências e descer do pedestal do conhecimento é fundamental para que se possa construir novas relações de poder e conhecimento.

* Alusão ao texto “O olho do poder in; Microfísica do poder”

    Este pequeno texto tem o propósito de contribuir com um debate que já travamos mais de uma vez em sala de aula e que, ao meu ver, constitui um dos pilares mestres de toda a reflexão que temos que fazer em uma disciplina voltada para o ensino das ciências sociais no ensino médio. Se, por um lado, a questão orientadora deste debate – qual é o papel do professor e, mais especificamente, do professor de sociologia – é uma questão óbvia, fácil de emergir, dificilmente poderíamos dizer o mesmo acerca de sua solução. Aqui, não tenho nenhuma pretensão de resolvê-la, muito menos de simplesmente emitir um artigo de opinião. O intuito desta reflexão é o de contribuir para ampliarmos o debate, trazendo para a problemática inicial outras questões correlatas, sem as quais seria impossível solucionarmos a primeira.

     A referida discussão teve início quando, ao lermos o texto de um colega, questionou-se o uso da noção de “facilitador” para designar a tarefa do docente em sala de aula. Inicialmente, foi necessário contextualizar o uso da palavra em um sistema de significação pedagógica mais amplo. Em seguida, várias críticas foram apresentadas para aplicação destas noções no contexto de uma educação massiva – como é no Brasil. Rapidamente, portanto, o debate evoluiu em complexidade, lançando à reflexão sobre o papel do professor no quadro atual da escola brasileira e, apesar disso, permaneceu atado a uma oposição entre horizontalidade e autoridade. De um lado, argumenta-se que, na educação, tanto educadores quanto educandos são sujeitos do processo pedagógico, construindo assim uma relação de horizontalidade na síntese criativa do conhecimento. Por outro, atribuir-lhe meramente uma função de facilitador descaracterizaria o trabalho do profissional docente, que evidentemente possui uma carga de conhecimento acumulado muito maior do que a sua contrapartida; portanto, seria tarefa sua repassar este conhecimento aos discentes, ensinando-lhes aquilo que a sociedade possui em termos de formulação científica e humana acumuladas.

     Esta discussão não é nova no campo da pedagogia. De fato, constitui apenas um dos elementos dentro do embate mais amplo entre teorias pedagógicas distintas. No entanto, é necessário deslocarmos o eixo do debate afim de resolvermos a problemática apresentada. Isto é, não é possível discutirmos o papel do professor na educação se não discutirmos antes o papel da educação na sociedade. Invertermos esta ordem seria como discutirmos a metodologia sem o objetivo. Considerado neste ângulo, o problema original apresenta, grosso modo, três dimensões distintas (mas não isoladas): trata-se de um problema filosófico, pois diz respeito ao padrão de desenvolvimento humano – poderíamos dizer também civilizatório, nas dimensões econômica, social, cultural e política – que se pretende defender ou aprofundar com a educação; também é um problema político, pois considera concretamente a situação do sistema educativo hoje, suas potencialidades e limitações, bem como o jogo de forças envolvido por detrás das definições correntes sobre política educacional; e, por fim, é um problema pedagógico, que se refere à teorias de ensino-aprendizagem (transmissão versus construção; indutiva versus dedutiva, etc.) adequadas a um certo padrão de desenvolvimento da consciência, constatado ou induzido.

     Se tomarmos como referência um pedagogo brasileiro de nome Paulo Freire, por exemplo, veremos que sua teoria se preocupa em explicitar os fatores supra pedagógicos mencionados acima. Não à toa, inicia seu famoso livro Pedagogia do Oprimido com um capítulo sobre a “justificativa da pedagogia do oprimido”, onde constrói as bases filosóficas de seu pensamento em termos da oposição entre o ser e o ser mais1. Partindo desta concepção, torna-se coerente sua proposta educativa, fundamentada no diálogo e no estímulo aos educandos para que desenvolvam concepções próprias de mundo. Na mesma linha, para tomarmos um exemplo ainda mais contemporâneo, Luís Carlos de Freitas – ex-diretor e atualmente professor da Faculdade de Educação da Unicamp –, ao discorrer sobre a questão da avaliação na escola, inicia sua intervenção com duas questões suplementares ao entendimento da primeira: do ponto de vista político, que se deve compreender os movimentos de mudança na educação hoje como parte integrada de um processo global de reestruturação produtiva; do ponto de vista conceitual, levanta justamente a necessidade de um projeto humano.

     “O que nós queremos hoje da nossa juventude? Queremos formar para que? O que nós estamos pensando nesse país como projeto para a nossa juventude? Se não temos um projeto, se não temos uma proposta educativa que diga respeito aos fins da educação, a questão de ser ciclo ou série vai ser um mero jogo burocrático”2.

    Em suma, existe um amplo conjunto de questões que precisam ser corretamente ordenadas e encaminhadas para que o papel do professor em sala de aula possa ser esclarecido. Muitas delas ainda não resolvidas, justamente porque a disputa de interesses e de concepção permeando toda sociedade moderna também se faz presente no campo da educação. Isto significa que, embora as concepções de educação devam ser rigorosamente construídas de modo a formarem um todo coerente (do projeto civilizatório ao papel do professor, currículo, avaliação, etc.), a solução efetiva da problemática apresentada não é puramente uma questão teórica, mas principalmente uma questão de prática política.

    Decorrem desta constatação que: a) a o problema não pode ser enfrentado apenas pelo professor ou professora individual em sua sala de aula e, mesmo que seja, permanecerá sempre restrita a esta relação pessoal, sofrendo inúmeros contratempos colocados pelo sistema vigente de ensino3; b) a solução entre as disputas de interesses e de concepção na educação depende do grau de força política relativa entre os grupos sociais que se organizam – dentro e fora da escola – na defesa de um projeto político-pedagógico coerente; c) é razoável supor que, em um contexto onde os atuais professores e professoras possuem uma organização débil, as mudanças ocorridas no padrão educativo vigente não sejam acompanhadas por boa parte dos mesmos, provocando uma sensação de descaracterização de seu papel4.

1Cf. FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2010.

2FREITAS, Luiz Carlos. Educação hoje: questões em debate – Que escola desejamos?. Estudos Avançados, São Paulo, v. 15, n. 42, p. 48-53, 2001.

3Não quero, com isso, negar a importância do professor ou professora, tendo claro sua concepção de mundo, de educação e, consequentemente, de seu papel, estabelecer novas relações e práticas pedagógicas em suas aulas. No entanto, apenas este movimento individualizado tende a permanecer individualizado, causando, na maior parte das vezes, a frustração do protagonista.

4Esta passagem encontra-se mais desenvolvida em BOURDIEU, P. Escritos de Educação. Petrópolis: Vozes, 2008.

 

Imagem em  http://racismoambiental.net.br/2010/04/

 Em 01 de junho de 2008, o líder do MST João Pedro Stédile foi entrevistado no programa de televisão Canal Livre, da TV Bandeirantes. Pelo formato do programa, são apresentadas perguntas diretas, provocativas, dando oportunidade de resposta ao entrevistado. Sédile agradece a cada ocasião, por mais dura que seja a questão colocada, pois explica qu está tendo oportunidade de ser ouvido.

 Ao longo dos 60 minutos de entrevista, vários temas são propostos por Stédile para terem ampla discussão na sociedade, mas que são ocultados pelo casamento quase indissolúvel da grande mídia internacional com os interesses do neocapitalismo globalizado. Neste sentido, a reforma agrária no Brasil não avança com foco em distribuição de renda e justiça social, e o MST vai sendo “criminalizado” perante a opinião pública.

 Como um projeto para ensino médio, os trechos abaixo da entrevista do Stédile (disponíveis no YouTube) poderiam ser utilizados para discussão de diversos conceitos do programa de Sociologia: classe social, capitalismo, reforma agrária, poder da mídia, conscientização, movimento social, neoliberalismo etc.

 Trecho 1:  http://www.youtube.com/watch?v=AsCxkvnax4w

Trecho 2: http://www.youtube.com/watch?v=yVQ_3FFhN2s

Trecho 3: http://www.youtube.com/watch?v=xnfchaMcls8

Trecho 4: http://www.youtube.com/watch?v=DcJutA76G2g&feature=related

Trecho 5: http://www.youtube.com/watch?v=-kAhe5PCzlA

Trecho 6: http://www.youtube.com/watch?v=KFzuheNm2Q0