O papel do professor?

    Este pequeno texto tem o propósito de contribuir com um debate que já travamos mais de uma vez em sala de aula e que, ao meu ver, constitui um dos pilares mestres de toda a reflexão que temos que fazer em uma disciplina voltada para o ensino das ciências sociais no ensino médio. Se, por um lado, a questão orientadora deste debate – qual é o papel do professor e, mais especificamente, do professor de sociologia – é uma questão óbvia, fácil de emergir, dificilmente poderíamos dizer o mesmo acerca de sua solução. Aqui, não tenho nenhuma pretensão de resolvê-la, muito menos de simplesmente emitir um artigo de opinião. O intuito desta reflexão é o de contribuir para ampliarmos o debate, trazendo para a problemática inicial outras questões correlatas, sem as quais seria impossível solucionarmos a primeira.

     A referida discussão teve início quando, ao lermos o texto de um colega, questionou-se o uso da noção de “facilitador” para designar a tarefa do docente em sala de aula. Inicialmente, foi necessário contextualizar o uso da palavra em um sistema de significação pedagógica mais amplo. Em seguida, várias críticas foram apresentadas para aplicação destas noções no contexto de uma educação massiva – como é no Brasil. Rapidamente, portanto, o debate evoluiu em complexidade, lançando à reflexão sobre o papel do professor no quadro atual da escola brasileira e, apesar disso, permaneceu atado a uma oposição entre horizontalidade e autoridade. De um lado, argumenta-se que, na educação, tanto educadores quanto educandos são sujeitos do processo pedagógico, construindo assim uma relação de horizontalidade na síntese criativa do conhecimento. Por outro, atribuir-lhe meramente uma função de facilitador descaracterizaria o trabalho do profissional docente, que evidentemente possui uma carga de conhecimento acumulado muito maior do que a sua contrapartida; portanto, seria tarefa sua repassar este conhecimento aos discentes, ensinando-lhes aquilo que a sociedade possui em termos de formulação científica e humana acumuladas.

     Esta discussão não é nova no campo da pedagogia. De fato, constitui apenas um dos elementos dentro do embate mais amplo entre teorias pedagógicas distintas. No entanto, é necessário deslocarmos o eixo do debate afim de resolvermos a problemática apresentada. Isto é, não é possível discutirmos o papel do professor na educação se não discutirmos antes o papel da educação na sociedade. Invertermos esta ordem seria como discutirmos a metodologia sem o objetivo. Considerado neste ângulo, o problema original apresenta, grosso modo, três dimensões distintas (mas não isoladas): trata-se de um problema filosófico, pois diz respeito ao padrão de desenvolvimento humano – poderíamos dizer também civilizatório, nas dimensões econômica, social, cultural e política – que se pretende defender ou aprofundar com a educação; também é um problema político, pois considera concretamente a situação do sistema educativo hoje, suas potencialidades e limitações, bem como o jogo de forças envolvido por detrás das definições correntes sobre política educacional; e, por fim, é um problema pedagógico, que se refere à teorias de ensino-aprendizagem (transmissão versus construção; indutiva versus dedutiva, etc.) adequadas a um certo padrão de desenvolvimento da consciência, constatado ou induzido.

     Se tomarmos como referência um pedagogo brasileiro de nome Paulo Freire, por exemplo, veremos que sua teoria se preocupa em explicitar os fatores supra pedagógicos mencionados acima. Não à toa, inicia seu famoso livro Pedagogia do Oprimido com um capítulo sobre a “justificativa da pedagogia do oprimido”, onde constrói as bases filosóficas de seu pensamento em termos da oposição entre o ser e o ser mais1. Partindo desta concepção, torna-se coerente sua proposta educativa, fundamentada no diálogo e no estímulo aos educandos para que desenvolvam concepções próprias de mundo. Na mesma linha, para tomarmos um exemplo ainda mais contemporâneo, Luís Carlos de Freitas – ex-diretor e atualmente professor da Faculdade de Educação da Unicamp –, ao discorrer sobre a questão da avaliação na escola, inicia sua intervenção com duas questões suplementares ao entendimento da primeira: do ponto de vista político, que se deve compreender os movimentos de mudança na educação hoje como parte integrada de um processo global de reestruturação produtiva; do ponto de vista conceitual, levanta justamente a necessidade de um projeto humano.

     “O que nós queremos hoje da nossa juventude? Queremos formar para que? O que nós estamos pensando nesse país como projeto para a nossa juventude? Se não temos um projeto, se não temos uma proposta educativa que diga respeito aos fins da educação, a questão de ser ciclo ou série vai ser um mero jogo burocrático”2.

    Em suma, existe um amplo conjunto de questões que precisam ser corretamente ordenadas e encaminhadas para que o papel do professor em sala de aula possa ser esclarecido. Muitas delas ainda não resolvidas, justamente porque a disputa de interesses e de concepção permeando toda sociedade moderna também se faz presente no campo da educação. Isto significa que, embora as concepções de educação devam ser rigorosamente construídas de modo a formarem um todo coerente (do projeto civilizatório ao papel do professor, currículo, avaliação, etc.), a solução efetiva da problemática apresentada não é puramente uma questão teórica, mas principalmente uma questão de prática política.

    Decorrem desta constatação que: a) a o problema não pode ser enfrentado apenas pelo professor ou professora individual em sua sala de aula e, mesmo que seja, permanecerá sempre restrita a esta relação pessoal, sofrendo inúmeros contratempos colocados pelo sistema vigente de ensino3; b) a solução entre as disputas de interesses e de concepção na educação depende do grau de força política relativa entre os grupos sociais que se organizam – dentro e fora da escola – na defesa de um projeto político-pedagógico coerente; c) é razoável supor que, em um contexto onde os atuais professores e professoras possuem uma organização débil, as mudanças ocorridas no padrão educativo vigente não sejam acompanhadas por boa parte dos mesmos, provocando uma sensação de descaracterização de seu papel4.

1Cf. FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2010.

2FREITAS, Luiz Carlos. Educação hoje: questões em debate – Que escola desejamos?. Estudos Avançados, São Paulo, v. 15, n. 42, p. 48-53, 2001.

3Não quero, com isso, negar a importância do professor ou professora, tendo claro sua concepção de mundo, de educação e, consequentemente, de seu papel, estabelecer novas relações e práticas pedagógicas em suas aulas. No entanto, apenas este movimento individualizado tende a permanecer individualizado, causando, na maior parte das vezes, a frustração do protagonista.

4Esta passagem encontra-se mais desenvolvida em BOURDIEU, P. Escritos de Educação. Petrópolis: Vozes, 2008.

Anúncios



    Deixe um comentário

    Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

    Logotipo do WordPress.com

    Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

    Imagem do Twitter

    Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

    Foto do Facebook

    Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

    Foto do Google+

    Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

    Conectando a %s



%d blogueiros gostam disto: