Uma observação na E. E. Dora Maria Maciel de Castro Kanso

No dia 28 de Setembro, acompanhei uma professora da escola E. E. Dora Maria Maciel de Castro Kanso em suas três aulas de Sociologia com turmas do Ensino Médio. A escola é relativamente pequena, possui turmas de ensino Fundamental, Médio e EJA (Educação de Jovens e Adultos) fica localizada no bairro Village Campinas. Um bairro distante do centro de Barão Geraldo, para chegar lá tivemos de seguir pela Estrada da Rodhia e pegar outra estrada, segundo a professora, construída no governo de Oreste Quércia que passa por um terreno/chácara pertencente a ele, mas que possivelmente já foi vendido.

No final da estrada, inicia-se o bairro Village Campinas, falta asfaltamento no bairro. Contudo, pelo que soube, houve uma pesquisa promovida pela Unicamp constatando a impossibilidade de asfaltar a região devido aos cursos de água ali presentes, o ideal seria uma pavimentação com pedras. O Village é uma espécie de periferia rural, cercado por grandes extensões de terras e condomínios, existe a mais ou menos 30 anos.

Na E. E. Dora Maria Maciel de Castro Kanso, as paredes das salas de aula eram azuis e verdes, em todas encontrei um cartaz com Regras de Sala de Aula com as seguintes instruções: respeitar todos, usar linguagem adequada, cuidar do ambiente escolar, comer somente no intervalo. Havia um ventilador em cada sala e alguns armários azul-claros com fechadura, na primeira sala que entrei junto a outros quatro estagiários da PUC, os alunos dispuseram-se nas extremidades da sala, junto às paredes.

Esta turma era de Terceiro Ano, havia treze alunos na sala e só quatro eram meninas, pelo que pude saber através da professora mais dois alunos freqüentam regularmente a turma. Na reordenação do espaço efetuada pelos alunos, duas meninas encostaram a carteira uma do lado da outra junto a parede com janela, elas estavam rodeadas de meninos a sua volta, dois na frente, um atrás e outro do lado.

Outros quatro garotos sentaram no outro extremo da sala, na parede da porta de entrada e um grupo de duas meninas e um menino juntaram suas carteiras no meio da sala, bem próximo a mesa da professora. A aula foi sobre sistema de governo (monarquismo, presidencialismo e parlamentarismo), uma das perguntas da professora foi: quais são os países que possuem monarquia hoje?

Os alunos manifestaram-se de forma eufórica, ora respondendo com afirmativas corretas como Inglaterra, ora com algumas absurdas como Minas Gerais. A professora procurou dar algumas dicas, como no caso da Holanda, pensando na cor da camiseta da seleção holandesa (laranja), representante da cor da família real. No fim, ela passou as respostas corretas, de forma, a conter os alunos, interessante que as meninas pouco se movimentaram para responder, somente as do canto cercadas de garotos e, ainda assim, de maneira tímida.

Houve um momento no qual as meninas do canto trocaram de lugar entre si e o menino que estava do lado se dirigiu a professora e perguntou:

– Professora, a senhora acha normal uma pessoa vestir duas cuecas? Ao que ela respondeu: – Não! E você acha normal alguém fazer este tipo de pergunta? Pouco interessa o que a pessoa está a vestir.

Isto gerou uma risada generalizada por toda a sala.

A aula acabou, não houve nenhum sinal a tocar. Dirigimo-nos, então, a outra sala, a turma agora era de Primeiro Ano, havia quarenta e quatro alunos na sala, estavam todos dispostos de forma bem simétrica, cinco fileiras de carteiras na vertical e seis na horizontal. Dois alunos estavam um pouco deslocados, não pertenciam à fila alguma, a divisão entre meninos e meninas nesta turma era mais equitativa. A sensação era de aperto, senti dificuldade de encontrar um lugar para sentar, felizmente na primeira fileira junto à parede com janela havia duas carteiras espremidas, retirei uma e a coloquei no corredor e me sentei na outra.

A aula foi sobre desigualdade de classe, a professora utilizou o típico exemplo do operário e do dono da fábrica para pensar na exploração do trabalho do primeiro pelo segundo e em suas características enquanto classe. Uns como detentores dos meios de produção e pertencentes à classe A e outros como detentores somente de sua força de trabalho, de forma, a pertencerem a uma classe C ou D. Questionamentos sobre a diferença entre o operário e o dono da fábrica de sapatos foram feitos pela professora, apesar do burburinho na sala, um aluno se manifestou sugerindo que a diferença entre os dois era de estudo.

Ao que ela colocou não ser esta a diferença, tomando a si mesmo como exemplo, possui graduação, mestrado e doutorado em Ciências Sociais só que não é proprietária dos meios de produção. Procurar não falar mais que vinte minutos faz parte do plano de atividades das aulas, segundo a professora falar durante muito tempo não adianta porque os alunos não absorvem muito, deixo-os, então, escrever o que estava na lousa. Passados uns dez minutos, os alunos começaram a retirar-se da sala, a professora perguntou se o sinal havia tocado, ao que alguns responderam que sim. Poucos minutos depois houve realmente o toque de um sinal, iniciava-se o intervalo.

Outro sinal denunciou o fim do intervalo, agora a terceira e última turma era de Segundo Ano. Havia vinte alunos presentes sendo sete meninas e treze meninos, apesar de o número de matriculados ser de trinta e três. Entre o Primeiro e Segundo Ano é possível perceber uma evasão dos alunos da escola pela diminuição no número de matriculados de uma série para outra, no Terceiro Ano isto fica bem visível.

Série Número de Matriculados

Primeiro Ano

44

Segundo Ano

33

Terceiro Ano

13

Para esta aula os alunos chegaram pouco depois do sinal, eles foram se situando na sala de forma diluída, mas em pequenos grupos de seis ou cinco pessoas. Um aluno saiu da sala para fazer uma prova de Geografia, houve chamada e professora começou a introduzir o conteúdo, só que dali dez minutos, o garoto voltou, a professora se dirigiu para ele: – Mas você já terminou a prova? Ao que ele levantou os braços em sinal de vitória.

Isto provocou uma agitação e riso de todos, alguns exclamaram é um gênio, ih… não sabia nada. Apesar disso, a professora procurou retomar o conteúdo, a proposta dela era ler um texto da apostila do Estado, alguns alunos, aliás, estavam sem o caderno da apostila. Após ler uns quatro parágrafos do texto sem concluí-lo, a moça vigilante da escola bateu na porta avisando o término da aula, a professora pediu para ela falar para o outro professor aguardar um minutinho enquanto ela terminava a leitura. Nisto, a moça avisou que a próxima aula seria aula vaga, gerando uma euforia de contentamento nos alunos de ir mais cedo para casa. Eles levantaram-se, alguns gritaram por silêncio (deixa ela falar! Xiuu!) e de pé aguardaram a leitura dos últimos parágrafos.

É incrível como os alunos estão constantemente a reordenar as lógicas escolares, seja na ordenação do espaço, nos comentários ‘fora de hora’, aproveitamento do tempo e certos avais garantidos a alguns professores de deixar falar mesmo quando o tempo delimitado da aula tiver acabado, é necessário para o professor dar uma boa aula ganhar o carisma deles. Os inscritos no ambiente escolar reescrevem suas normas, mas muitos abandonam a escola, o Ensino Médio não é obrigatório como o Ensino Fundamental nem atrativo como o mercado de trabalho no qual muitos se inserem em funções junto a comércios locais como a Frutaria Rio das Pedras. Contudo, muitos do que permanecem estudando concomitantemente trabalham, encontrei dois trabalhando na UNICAMP no programa Patrulheiros.

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