Sociologia, Física e Dança: uma crônica sobre as dificuldades da interdisciplinaridade

Posto como se encontra no título, o problema da interdisciplinaridade pode soar um pouco banal: pega-se alguns elementos da física, um ou dois conceitos, mistura-se com uma análise sociológica mais ou menos óbvia  e, como grand finale, monta-se um espetáculo com os alunos sobre o assunto tratado (ou então discute-se brevemente o que a dança tem diabos com tudo isso) – e, voi lá, tem-se um projeto interdisciplinar bem sucedido! Muitos podem ser os temas abordados com estas disciplinas, como, por exemplo, A influência da tecnologia na arte, ou ainda O problema da densidade dos corpos na história da dança, ou qualquer coisa similar. Em todos eles, a tentação da fórmula acima anunciada se repete: primeiro se explica o conceito físico, depois se discute a história da dança, ou sociologia da arte, e por fim todos os termos estão mais ou menos ligados e os professores podem se contentar com o trabalho feito – tanto quanto os alunos, que tiveram pequenos cursos sobre física, sociologia e dança.

De imediato, é preciso que se diga que não tenho nada contra o método esboçado. Entende-se que o problema é profundo e de difícil resolução, ainda mais quando os docentes dispõem de tão pouco tempo para refletirem sobre suas atividades em sala – uma conseqüência inevitável e bastante perversa da estrutura educacional, que deixa raros momentos para a auto-reflexão e muitos para a mera sobrevivência nesta profissão tão mal remunerada. Em minha condição de estagiário de um curso de licenciatura, entretanto, me proponho, neste breve texto, a socializar algumas reflexões tecidas a partir de uma experiência empreendida de interdisciplinaridade – reflexões estas que podem apontar para uma via mais tortuosa, mais difícil, mas também mais rica – em minha opinião – para o trabalho neste campo.

Desde que me envolvi, em princípios de 2011, em um projeto de uma disciplina de estágio cuja proposta era justamente a articulação entre áreas do conhecimento distintas, notei a tentação comentada acima. Eu, estudante de sociologia, mais R., físico formado, mais A. e D., estudantes de dança, nos deparamos com a dificuldade em se avançar na integração de áreas para além da fórmula pré-concebida (e bastante funcional, diga-se de passagem). Esta facilitadora acabava por explicitar a dificuldade que tínhamos em elaborar uma proposta, bem como em pô-la em prática, de aulas que ministraríamos, capazes de ligar umbilicalmente nossas especializações – e não estabelecer um elo débil, que partisse apenas de um tema em comum, desenvolvido pelas distintas frentes de formas as mais variadas. A questão de fundo tornou-se: como fazer participar verdadeiramente a arte das ciências humanas e, mais difícil ainda!, estas duas das ciências exatas? A solução mais clara, conforme comentado, passava por elencar um assunto passível de compreender todos os temas, e cada um tratava do que lhe cabia. Mas isso, novamente, não deixava de configurar três cursos em suma distintos, com apenas algumas aspirações em comum – o que, uma vez mais, não resolvia o nosso problema.

Em um primeiro momento, esta dificuldade ainda não era clara. Elencamos o tema Simetria e padrões de beleza, mais por urgência das metas de estágio do que por uma decisão convicta e extremamente refletida de nossa parte. Começaríamos por uma exposição do conceito de simetria, uma historização da construção cultural que associava simetria e harmonia dos corpos ao belo, problematizaríamos esse padrão associando-o à questão do bullying e, por fim, faríamos os alunos experimentarem em seus próprios corpos a simetria (a partir de jogos de dança). Muito bem: todos felizes e satisfeitos com a decisão. Mas não seria esta a escolha mais óbvia, ao mesmo tempo em que a que mais poderia trazer confusões? O conceito de simetria em física era exatamente o mesmo que o conceito de simetria aplicado historicamente aos corpos? E a harmonia, aonde entrava no conceito de física? E o bullying, que assim que problematizado, poderia ser reforçado pelos exercícios físicos feitos posteriormente, dando margem para que emergisse novamente a vergonha do próprio corpo? E a tentativa de desconstrução da equação simetria + harmonia = beleza, seria bem sucedida, dado os inúmeros exemplos que “desmentem” este pressuposto, presentes em cada capa de revista de moda? O problema de fundo começava a emergir na medida em que percebíamos o quão aleatórias poderiam ser certas ligações entre os temas, e o quão mecânicas e inadequadas poderiam ser certas conclusões, ao tentarmos colocar na mesma caixa as três áreas. Seguramente, a interdisciplinaridade aplicada a outras áreas que possuam mais pontos de toque (ou então outro tema, de mais fácil aplicação entre estas distintas áreas) poderia não resultar nestes problemas em específico. Escolho, entretanto, chamar a atenção para estas reflexões que se abriram a partir desta difícil experiência, e de como as mesmas questões podem se expressar em outras vivências, sem serem percebidas por seus realizadores.

Pois bem: as crises que se colocavam ao grupo a partir destas constatações abriam um novo leque de oportunidades para o trabalho. Começamos a pensar sobre as possibilidades de qualquer aluno, por exemplo, levantar a seguinte questão: “vocês estão falando de simetria e querem me convencer de que o assimétrico não é necessariamente feio. Ok, posso concordar que um prédio ou uma gravura assimétrica não é necessariamente feia, mas uma pessoa com um olho maior que o outro, ou com o braço deformado sempre será feia.” Existiria, então, um assimétrico “aceitável” e um “inaceitável”? Como responder a estas legítimas colocações, que se desdobravam em outras, tais quais : “as pessoas podem ser assimétricas até certo ponto (ter uma espinha na bochecha direita, por exemplo), mas não podem ser muito mais do que isso porque aí ficam feias”? E etc. O que ficava a nós destes exercícios mentais de encontrar falhas no nosso projeto interdisciplinar era de que era necessário explicar detalhadamente o conceito em física, para posteriormente traduzi-lo em conceito antropológico que, ainda que contivesse idéias semelhantes, era seguramente distinto e mais complexo. Tradução, eis a palavra mágica encontrada pelo nosso grupo, ao menos teoricamente. A premissa de que agora dispúnhamos implicava no reconhecimento de diferenças entre os conceitos aplicados (logo, não era mais simplesmente cada área dizer como aplicava a “simetria”), sendo fundamental uma resignificação dos mesmos conceitos ao passo em que procurávamos abordar as três disciplinas, construindo uma narrativa que desse conta de mostrar como se relacionavam num todo. Ou seja: era preciso que déssemos conta de mostrar como o mesmo conceito diferia nas distintas disciplinas, mas também como participavam um do outro. Assim, simetria em seu sentido físico era um constructo cultural que remetia a determinada idéia, podendo ser funcional aos objetos ou “meramente” estético. Um carro, por exemplo: tem rodas dispostas de modo simétrico, porque senão não anda; e tem faróis simétricos, mas que poderiam não estar dispostos assim (um farol no centro e outro na diagonal esquerda iluminariam do mesmo jeito, por exemplo, ainda que causassem um efeito de estranhamento). Pronto: o primeiro conceito, estritamente físico, ganhava um corpo histórico, como produto cultural que, de um lado, cumpre uma função operacional, mas também contém arbitrariedades – sendo parte destas arbitrariedades o culto de um determinado padrão estético aplicado aos corpos.

Esta linha de raciocínio é apenas um exemplo dos nossos esforços mobilizados para repensar a questão da interdisciplinaridade. Note-se que nem chego a comentar acerca da área da dança, palco de intensas reflexões pelo grupo, mas que infelizmente não temos espaço neste post para desenvolver. Algumas apresentações já foram realizadas com jovens, bastante ricas e que nos fizeram avançar na discussão – experiências estas que pretendo retomar em um próximo escrito. O que espero ter marcado neste breve comentário é a importância de um giro teórico-prático para se entender a maneira como levar a cabo um projeto interdisciplinar – não como cursos descolados com um tema parecido, mas como um único curso capaz de tornar orgânicas as frentes de ensino a partir da tradução de seus conceitos semelhantes. Qualquer contribuição é mais do que bem-vinda, ainda mais porque as reflexões que socializo são bastante embrionárias – aspecto que pode ter deixado confusa minha tentativa de explicação. De todo modo, o campo de idéias que se coloca parece suficientemente proveitoso para se pensar uma prática de ensino diferenciada e, mais do que isso, uma prática de entendimento das disciplinas e suas aproximações, para além das especializações impostas pelo sistema curricular.

Anúncios



    Deixe um comentário

    Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

    Logotipo do WordPress.com

    Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

    Imagem do Twitter

    Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

    Foto do Facebook

    Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

    Foto do Google+

    Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

    Conectando a %s



%d blogueiros gostam disto: