Hollywood ou cinecult? O dilema do cinema em sala de aula

Desde a popularização dos aparelhos de VHS, o uso do cinema em sala de aula tem se tornado um elemento didático cada vez mais importante e valorizado pelos professores. Isto ocorre porque o filme, enquanto elemento comumente associado ao lazer e à diversão, tem o potencial de gerar uma postura diferente, por parte dos alunos, em relação ao trabalho em sala.

Entretanto, a despeito das vantagens que oferece, esse recurso exige um uso responsável, que leve em conta a própria natureza construída da linguagem cinematográfica. Um filme, quando assistido, nos dá não apenas um assunto ou conteúdo, mas também uma versão, abordagem ou recorte deste conteúdo, dado pelo discurso que é retratado e pela própria linguagem de construção visual da obra (montagem, iluminação, cortes, enquadramento, etc). Segundo Ana Lúcia Lucas Martins,

A imagem não ilustra nem reproduz a realidade, mas ela a reconstrói a partir de uma linguagem própria que é produzida num dado contexto histórico. O filme é um modo de compreender comportamentos, visões de mundo, valores, identidades e ideologias de uma sociedade. (MARTINS, 2007, p.3)

Nesse sentido, para se trabalhar com o cinema dentro da aula é necessário fazer, antes de tudo, o exercício da desnaturalização, um dos pilares curriculares do ensino de Sociologia. Quando se trabalha com um filme durante a aula de Sociologia, deve-se objetivar, antes de tudo, que os alunos desenvolvam a capacidade de fazer uma leitura crítica do conteúdo e da forma apresentados: a contextualização histórica da obra, a interpretação da linguagem técnica, o discurso implícito no enredo, etc. Esta abordagem de leitura audiovisual, já em 1961 tratada no livro L’Education Cinematografique (A Educação Cinematográfica), publicado pela UNESCO, tem como idéia central que

a melhor forma de defender o público, e em particular a juventude, de excessos e erros das mensagens audiovisuais é a formação e a criação de hábitos pelos espectadores, de forma a garantir a possibilidade de escolha e a melhor compreensão da mensagem audiovisual. (LOPES, 2010, p.287).

Quando se tem por meta o exercício dessa educação cinematográfica ou, ainda, alfabetização cinematográfica, uma questão que se coloca em cheque é a seleção dos filmes a serem trabalhados. De um lado, há aqueles pertencentes ao circuito comercial, partes de um cinema hegemônico voltado para o consumo e, normalmente, dotados dos padrões estéticos hollywoodianos. Dentre os filmes desta categoria, imperam as produções norte-americanas. Do outro lado, há os filmes independentes ou alternativos – popularmente conhecidos como cinema cult – que possuem propostas temáticas e estéticas diferenciadas, o que, a princípio, abriria margens para a discussão de visões de mundo também diferenciadas das visões hegemônicas[1].

Embora o segundo tipo de cinema seja, em tese, mais proveitoso para o desenrolar de discussões aprofundadas, é necessário reconhecer que é geralmente  um elemento distante da realidade cultural da juventude brasileira. O professor, que muitas vezes teve acesso ao cinema cult, com freqüência se sente tentado a trabalhar filmes considerados complexos em sala de aula, sem que seus alunos tenham se “alfabetizado” cinematograficamente e estejam preparados para lidar com uma linguagem que lhes é estranha e pouco atrativa. Neste sentido, não seria melhor que o professor partisse do conhecimento que os alunos já possuem – no caso, a familiaridade com a estética hollywoodiana – para trabalhar a educação cinematográfica?

Náufrago (2000): trabalho, o homem como ser social

Evidentemente, essa opção metodológica deve ser tomada com cuidado. O uso do cinema hollywoodiano deve ser acompanhado de sua leitura crítica, na intenção de que ele, como exercício, abra portas para a leitura de outras linguagens audiovisuais. Segundo LOPES, “filmes que em aparência confirmam o sistema devem ser desmistificados no processo educacional, no processo escolar” (2010, p. 290).

Avatar (2009): alteridade, etnocentrismo, mito do bom selvagem

É necessário aproximar o conteúdo programático dos saberes e disposições prévias dos estudantes, e neste processo o professor cumpre o papel importante daquele que media as imagens e os espectadores: tece comentários, levanta questionamentos, suscita perguntas e oferece visões alternativas. É neste sentido que a educação cinematográfica é, embora interdisciplinar, uma educação sociológica, pois estimula a leitura crítica da realidade e desnaturaliza as informações recebidas, “realizando esse rito de passagem do espectador passivo para o espectador crítico” (idem, p. 290).

Bibliografia

LOPES, José de Sousa Miguel. Cinema e educação: aprimorando o diálogo. In: FRADE et al (Orgs.). Convergências e tensões no campo da formação e do trabalho docente. Belo Horizonte: Autêntica, 2010.

MARTINS, Ana Lucia Lucas. Cinema e ensino de Sociologia: usos de filmes em sala de aula. XIII Congresso Brasileiro de Sociologia, 2007.


[1] Nem sempre há uma separação clara entre as duas categorias de filmes. Cabe lembrar que parte do cinema brasileiro, nos últimos 20 anos, tem adotado uma estética mais semelhante à hollywoodiana sem, contudo, abdicar de suas propostas temáticas acerca dos problemas sociais do país.
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