Sociologia como exopráxis escolar

Dentro de uma tradição de pensamento social sobre  o fenômeno escolar, é muito comum ouvirmos falar a respeito de escola e poder. Porém, essa maneira de pensar geralmente procede a partir de um entendimento bastante específico sobre o poder. Na medida em que a instituição escolar representa o Estado, a associação entre escola e poder estatal resulta na personificação do poder na escola, em outras palavras, tratando-se de entender que a escola possua o poder.

Deste modo, algumas implicações nos enunciados sobre a escola são quase inevitáveis, tais como “A escola reprime”, “A escola reproduz” e “A escola domina”. Entretanto, o modo pelo qual se enuncia o poder e sua relação com a escola pode ser bastante diferente se compreendermos o poder numa conceituação foucaultiana ou deleuziana, ou seja, a vinculação entre poder e produção.

Ao invés de propiciar um entendimento negativo do poder, esse modo de compreender o poder exercido nas relações nega também sua acepção ontológica. O fenômeno escolar, se submetido a essa atualização sobre a maneira de enunciar sua vinculação ao conceito de poder, suscita a pergunta: o que a escola produz?

Se a escola deixa de ser compreendida enquanto possuidora do poder estatal, por outro lado não há uma desvinculação ao Estado. O que podemos identificar na mudança de perspectiva é que o exercício do poder estatal não anula as relações de poder, antes imbricadas do que situadas numa disputa pelo seu exercício. A escola é, então, espaço de conflito.

Sem que pretendamos esgotar os problemas decorrentes dessa reflexão, a pertinência da abordagem será reduzida à relação entre sociologia e escola para que possamos, se esse esforço nos permitir, estimular a emersão de pensamentos sobre o ensino de sociologia no ensino médio.

A escola, enquanto instituição responsável pela reprodução de saberes acumulados, não produz. Ou melhor dizendo, ela não reserva aos sujeitos da dinâmica sociocultural a sua tomada enquanto máquina ou como produtora de máquinas de desejo. Sua assertividade está, portanto, exatamente na sua não-produção reprodutora. Enquanto reproduz, a escola exerce poder a partir de saberes constituídos e capazes de promover a “medição” da inteligência dos sujeitos. Na medida em que não-produz, reproduzindo determinada tradição, produz desigualdade de inteligências medidas, classificadas e hierarquizadas com relação a determinados saberes instituídos.

A escola produtora de desigualdade apresenta, então, uma característica endoprática conforme a existência de um vetor centralizador. Isso não significa, nesse sentido, o monopólio do poder, mas a tentativa de assegurar o exercício de determinada produção de desigualdade (a das inteligências) e situar os sujeitos em certas posições nas relações sociais.

Mas a escola endoprática, como dito anteriormente a respeito do poder, não anula uma escola exoprática. Não que as relações de poder sejam bilaterais simplesmente, mas no que se refere à posição centralizadora sobre a produção de desigualdade de inteligência há uma oposição a isso passível de exercício justamente numa exopráxis contrária à autonomização da escola frente aos sujeitos socioculturais.

A sociologia, na medida em que se preocupa em garantir a constituição do indivíduo como sujeito da história, coloca-se nas relações de poder enquanto produtora. Sua relação produtora cria como que uma aderência entre a escola e os sujeitos e força o contato contrário à separação ontológica da instituição e da concretude da vida social. Entretanto, à sociologia não cabe a pergunta “o que produz?”, mas promover agenciamentos maquínicos produtores ao nível das relações dos sujeitos socioculturais dinamizadores da instituição escolar.

Bibliografia:

DELEUZE, G. “Deleuze e Guattari explicam-se”. In: A ilha deserta e outros textos. São Paulo: Iluminuras, 2006.

FOUCAULT, M. Vigiar e punir. Petrópolis: Vozes, 1999.

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  1. Ferreira

    Acredito que o argumento seria melhor apresentado se as idéias de “endo” e “exopráxis” fossem claramente definidas, entendendo que elas têm um sentido preciso.

    No último parágrafo do post você afirma que a sociologia “se preocupa em garantir a constituição do indivíduo como sujeito da história, coloca-se nas relações de poder enquanto produtora”, “cria como que uma aderência entre a escola e os sujeitos”, “força o contato contrário à separação ontológica da instituição e da concretude da vida social” e que cabe a ela “promover agenciamentos maquínicos produtores ao nível das relações dos sujeitos socioculturais dinamizadores da instituição escolar”. Eu me pergunto se faz sentido esperar tudo isso da sociologia e, se sim, em quais disciplinas ou universidades um sociólogo aprende essas coisas.

  2. paulovallis

    Olá. As noções de “endo” e “exopráxis” estão assentadas na leitura de Pierre Clastres sobre o modo pelo qual as sociedades indígenas lidam contra o poder, ou seja, mediante a relação de “equilíbrio” exercida pelo chefe e pelo profeta. Basicamente tomei como referência uma certa teoria política clastreana para pensar as relações sociais como política contra-Estado. Trata-se de uma defesa da autonomia da escola frente às determinações do poder estatal e suas representações institucionais na própria escola.
    Entendo os questionamentos finais. Mas me pergunto então o que se pode esperar da sociologia. Penso particularmente que, assim como aprendi com a antropologia que a disciplina não se define por um objeto mas por um modo de pensar, poderíamos questionar se não podemos fazer um exercício semelhante no que se refere à sociologia e pensar a educação e a escola. Espero mais uma vez ter colaborado com a discussão. Outro abraço.




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