Bourdieu: Educação e mobilidade social

Analisando o modelo vigente de currículo por competências da escola neoliberal discutido no post anterior, surge uma questão enraizada no senso comum que coloca uma “maior escolaridade” como “solução para todos os problemas” no que se refere à redução das desigualdades sociais e maior desenvolvimento de um país, entretanto, nessas análises quase sempre é desconsiderado qual modelo de educação a ser seguido. Para o questionamento desse pensamento, neste primeiro momento, utilizarei como base teórica alguns estudos sobre educação de Bourdieu.

Bourdieu tece uma crítica à visão de que a escola e a educação são libertadoras e possuem equidade no que tange a mobilidade social na sociedade moderna. Para ele, além de o sistema escolar não ser um fator de mobilidade social, ele se constitui em um dos fatores mais eficazes de conservação social. Há diferenças na educação que são decorrentes das desigualdades de renda, porém, essas diferenças vão além do fator econômico. Para melhor compreender esse processo é necessário discutir rapidamente alguns conceitos elaborados pelo autor.

Bourdieu, influenciado pela corrente estruturalista, a qual determina que as estruturas sociais condicionam as ações dos agentes sociais, insere no debate sociológico alguns conceitos importantes para o entendimento das desigualdades sociais que vão além do campo econômico. De acordo com ele, há três tipos de capitais que determinam a reprodução da vida social na sociedade moderna, o capital econômico, o capital social e o capital cultural.

O capital econômico advém do poder aquisitivo e econômico, é através desse capital que muitos sociólogos trabalham o conceito de classe social. O capital social seria o conjunto de relações sociais mantidas pelo indivíduo que lhe proporcionará eventualmente algum benefício em relação às estruturas sociais vigentes. Por último, o capital cultural é determinado pela aquisição e hierarquização do que a sociedade denomina como cultura.

Há na sociedade moderna ocidental um conjunto de disposições socialmente constituídas conceituado por Bourdieu como habitus, onde as estruturas estruturadas e estruturantes determinam o modo de ser, agir, pensar e até sentir de cada indivíduo. Desse modo, é constituído um arbitrário cultural, no qual a concepção de mundo do grupo dominante é imposta para o restante da sociedade em um processo que os indivíduos naturalizam estes valores, tornando assim, muito difícil algum agente modificar a estrutura social vigente.

Bourdieu, por fim, utiliza o conceito de campo social, que seriam campos dentro da sociedade onde há diferenciações em relação ao capital econômico, social e cultural. Os campos sociais são tão diversos quanto os diferentes níveis e vertentes de capitais econômicos, sociais e culturais existirem.

Para o autor, o capital cultural é um fator essencial para a análise do desenvolvimento escolar. Os níveis de êxito escolar entre os alunos que possuem pais com um diploma universitário é superior aos alunos que não possuem pais com diplomas universitários. Mais do que ter um pai ou uma mãe que chegou a níveis mais elevados de educação formal, a descendência dos pais se torna relevante também, concebendo-se assim, a existência de uma “nobreza cultural”, que por consequência, está associada a melhores condições de renda.

Portanto, apesar de a renda ser um fator importante, o que está posto nos estudos de Bourdieu vai além da simples desigualdade social comumente associada à educação. Ele insere a noção de aquisição de capital cultural através das relações familiares, e esse capital cultural está associado a um melhor ou pior desempenho escolar. (A relação de altos níveis de capital cultural em relação aos demais se dá em um processo de distinção que as classes mais elevadas promovem para se diferenciarem enquanto classe, estudo feito por Bourdieu e publicado no livro intitulado “A Distinção”.) Mesmo com a mesma renda, e estudando na mesma escola, dois alunos podem apresentar diferentes desempenhos escolares e diferentes escolhas profissionais e de vida por conta da diferença cultural adquirida em sua formação fora da escola.

A cultura na qual a criança está inserida se torna um fator essencial para a análise de sua formação no que se refere ao seu desempenho escolar ou escolha dos caminhos de vida. A linguagem desejada e exigida pelos meios escolares possui referência nas classes mais cultas, (o que Gramsci chama de “linguagem formal”) sendo assim, um jovem de uma classe menos favorecida não se identifica de prontidão com a linguagem escolar utilizada tanto quanto um jovem de uma classe mais favorecida, possuindo mais dificuldade em seu aprendizado.

As diferenças mais profundas se dão em um plano de um processo de interiorização das relações de oportunidades que se pode adquirir na vida e que se transformam em “esperanças ou desesperanças subjetivas” (BOURDIEU, 2001, p. 49) no que se refere a valores que são intrínsecos à cultura. Há, de fato, um encorajamento maior aos estudos nas famílias tidas como mais cultas. Na classe média há também um encorajamento por conta da percepção de ascensão social. Entretanto, nas classes mais baixas essa percepção já vem deturpada por conta do desempenho escolar abaixo da média de quem vem de classes mais cultas por conta do que já foi citado, então o que se configura de escolha “livre” da família se vai mandar o filho para escola, para qual escola vai manda-lo e quanto tempo ele continuará estudando, na realidade é uma escolha induzida socialmente, construída desde o nascimento da criança. Assim, até mesmo a própria criança adquire a percepção que não quer estudar, pois foi induzida socialmente e culturalmente a isso. Ou seja, além da origem social, o êxito escolar se torna um fator determinante logo nos primeiros anos de estudo, “significa que os obstáculos são cumulativos, pois as crianças das classes populares e médias que obtém globalmente uma taxa de êxito mais fraca precisam ter um êxito mais forte para sua família e seus professores pensem em fazê-las prosseguir seus estudos” (BOURDIEU, 2001, p.50). As crianças de classes populares necessitam, portanto, de um êxito excepcional para continuarem seus estudos, enquanto que, se as crianças das classes mais favorecidas não apresentarem um êxito satisfatório em seus primeiros anos de estudo, vão prosseguir os estudos mesmo assim.

Bourdieu ressalta o papel de manutenção das desigualdades e conservação social da escola ao analisar a visão formal de igualdade que o sistema escolar se pauta, convergindo com Paulo Freire e Gramsci, na qual a igualdade é tida como ponto de partida e não ponto de chegada. “A igualdade formal que pauta a prática pedagógica serve como máscara e justificação para a indiferença no que diz respeito às desigualdades reais diante do ensino e da cultura transmitida, ou, melhor dizendo, exigida.” (BOURDIEU, 2001, p. 53). A escola, portanto, ao partir de uma igualdade formal entre os alunos, perpetua, sanciona, consagra e legitima as desigualdades, ao mesmo passo em que o sucesso de alguns poucos excepcionais oriundos das classes populares contribui para a legitimação desse processo, levando a uma percepção social de que o fator determinante na realidade são dons e trabalho duro, sendo semelhante à maneira que o próprio sistema capitalista se consolida e se desenvolve.

Portanto, em uma atitude mais propositiva, Bourdieu coloca que um dos papéis que caberia à escola seria a redução e eliminação das desigualdades de capitais culturais para a partir daí sim contribuir para a igualdade de condições, entretanto, ela não consegue ou se nega a cumprir. Segundo o autor, a redução e eliminação das desigualdades de capitais culturais se dariam através da inserção escolar nos aspectos de formação e aquisição de capital cultural que transcendem os limites comuns à escola, como por exemplo, visitas a museus e ensino artístico ou linguístico melhor articulados com a realidade cultural não propiciada pelos ambientes familiares, o que vai de encontro com a proposta de escola unitária de Gramsci.

 

Considerações sobre o caso brasileiro

 

Apesar de os escritos sobre educação de Bourdieu possuir uma base de apoio no sistema educacional francês, ele é altamente cabível ao modelo brasileiro, entretanto há de ser feitas algumas considerações. No Brasil, a inserção do aluno na escola e a escolha familiar para qual escola seus filhos irão se dá desde a primeira série senão desde o maternal, e não na quinta série como no caso francês, e essa “escolha” é muito mais condicionada a fatores econômicos do que na França (fatores econômicos são importantes na França também, mas no Brasil se manifesta mais fortemente pela qualidade da escola pública de ensino básico). Ou seja, no Brasil, uma criança que pertença à classe popular (termo utilizado por Bourdieu), possui uma dificuldade maior de chegar à universidade que alguém de uma classe mais favorecida, pois provavelmente nunca terá uma educação equiparável à oferecida pelas escolas particulares, o esforço que essa criança terá que fazer será muito maior, pois a qualidade de seu ensino (desde o jardim de infância) será inferior a de uma criança de classe média alta que estuda em escola particular. Portanto, a questão cultural tratada por Bourdieu, que advém de um processo cumulativo de origem social e desempenho escolar, adaptada ao Brasil, se dá de maneira em que o desempenho escolar e a aquisição de capital cultural se somam às dificuldades enfrentadas por um aluno de periferia no que se refere à sua origem social e qual escola ele estudará, marcando de maneira mais incisiva ainda o destino da criança desde o momento de seu nascimento.

Bibliografia

BOURDIEU, Pierre – Campo de poder, campo intelectual e habitus de classe in BOURDIEU, Pierre – A Economia das Trocas – 1992.

BOURDIEU, Pierre – A escola conservadora: as desigualdades frente à escola e à cultura in BOURDIEU, Pierre – Escritos de Educação. – 2001.

BOURDIEU, Pierre – A distinção – 2011.

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