Ensino de sociologia no Brasil

Neste texto procuro fazer uma reflexão sobre a história do ensino de sociologia no Brasil e seus desafios referentes à sua implementação e desenvolvimento. Para isso, utilizo como base o artigo da professora Ileizi Fiorelli Silva “A sociologia no ensino médio: os desafios institucionais e epistemológicos para a consolidação da disciplina”.

A autora identifica que a importância da sociologia no ensino médio possui diversas vertentes de explicações, porém, todas elas advêm de um modelo proposto de educação e sociedade, e destaca o papel do currículo nestes modelos.

Ao todo, segundo Ileizi F. Silva, a educação de sociologia no Brasil passa por quatro diferentes enfoques e currículos: currículo clássico-científico, currículo tecnicista (regionalizado), currículo das competências (regionalizado) e o currículo científico.

Quadro 1 – Modelos curriculares segundo tipos de escolas, ensino médio e sociologia.

Quadro 2 – Modelos de currículo e ensino de sociologia

Até 1971, no período que determina o currículo clássico-científico, a escola possuía uma formação mais humanista, voltada para as elites, e de preparação de mão-de-obra para os filhos da classe trabalhadora, caracterizando o modelo de escola dual descrito por Gramsci.

Com o governo militar houve um esvaziamento científico nas escolas, e se implementou um estudo por instrução programada, testes e exercícios de completar, caracterizando uma educação tecnicista. Neste modelo, o professor seria um técnico e não um intelectual. A Educação Moral e Cívica substituiu o que poderia ser o ensino de Filosofia e de Sociologia.

Com a redemocratização, novos currículos são elaborados com o intuito de se aproximarem dos currículos científicos, o professor é colocado novamente como intelectual, e o debate sobre a inclusão de sociologia no ensino médio começa a se difundir entre os estados. Porém, a concepção de currículo baseado no desenvolvimento das competências se torna predominante e interrompe-se na maioria dos estados a elaboração de um currículo científico, isso significa uma educação voltada para conhecimentos aplicados na realidade imediata, esse processo foi denominado “pedagogização” dos conhecimentos.

“Rope e Tanguy (1997) também demonstram o quanto essa noção de competências esta ligada a uma reorganização do trabalho no capitalismo contemporâneo e o quanto os currículos se prendem as necessidades imediatas da reestruturação do trabalho, da sociedade de consumo e do cotidiano dos alunos. Isso significa o empobrecimento dos conteúdos, simplificações, modificações essenciais da ciência.” (SILVA, 2007, p. 415)

Com essa nova concepção, houve também uma “psicologização” do processo de ensino-aprendizagem, uma valorização dos procedimentos de motivação em detrimento dos procedimentos de ensino. Assim, além de técnico, o professor vira um “entretenidor”, um apresentador, em que “o professor mais animado, mais alegre e criativo passa a ser o bom professor” (SILVA, 2007, p. 415).

Neste novo currículo das competências, as ciências humanas são desvalorizadas de modo geral, e a sociologia deixa de integrar o núcleo comum das disciplinas, passando a ser “optativa” para as escolas, e praticamente inexistente na educação pública.

Em 2006, a Câmara de Educação Básica alterou as Diretrizes Curriculares Nacionais do Ensino Médio, tornando a sociologia disciplina obrigatória. Porém, se persistir a concepção de currículo por competências, sem a aplicação de um currículo científico, em um ensino médio sem formação integrada, e nem financiamento público garantido, a sociologia corre o risco de seguir instável e fragmentada na educação brasileira.

Bibliografia

GRAMSCI, Antonio – A Organização da Cultura (Cap. 2) in GRAMSCI, Antonio – Os intelectuais e a Organização da Cultura – 1978.

ROPE, F.; TANGUY, L. (Org.). Saberes e competências: o uso de tais noções na escola e na empresa. 3. ed. Campinas, SP: Papirus, 1997.

SILVA, Ileizi Fiorelli – A sociologia no ensino médio: os desafios institucionais e epistemológicos para a consolidação da disciplina. Cronos, Natal-RN, v. 8, n. 2, p. 403-427, jul./dez. 2007.

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