Identidade Humana

“Instinto designa em psicologia, etologia, biologia e outras ciências afins predisposições inatas para a realização de determinadas sequências de ações (comportamentos) caracterizadas sobretudo por uma realização estereotipada, padronizada, pré-definida. Devido a essas características supõe-se uma forte base genética para os instintos, idéia defendida já por Darwin[1]. Os mecanismos que determinam a influência genética sobre os instintos não são completamente compreendidos, uma vez que se desconhecem as estruturas genéticas que determinam sua hereditabilidade[carece de fontes].” (http://pt.wikipedia.org/wiki/Instinto)

“O que distingue o homem dos outros animais é o fato de que ele é o único ser que tem e produz cultura. Neste Volume, vamos discutir as seguintes questões: O que nos une como seres humanos? e O que nos diferencia? O que nos diferencia dos outros animais é o fato de que o homem é o único capaz de adquirir cultura. Mas o que é cultura? Quais são suas características? Qual é o papel do instinto na vida do homem? E o do meio geográfico? O homem é totalmente influenciado pelos seus genes? Enfim, essas são algumas das questões cujas respostas podem esclarecer o que nos une e o que nos diferencia como seres humanos.” (Caderno de Sociologia do aluno, 1ª série do ensino médio, volume 3, página 3)

Por vezes muitas sociedades humanas se preocuparam em descobrir o que diferenciava a espécie humana das outras espécies. Muitas teorias foram levantadas, usando argumentações das instituições com o poder explicativo mais legítimo de cada época. Assim, no começo, o humano se diferenciava dos outros animais por ser a criatura mais perfeita de Deus, feita à própria imagem do criador. Quando a religião começou a perder parte da sua legitimidade de explicar as coisas, então deslocou-se esta questão para a ciência contemporânea.

Os achados de uma biologia ainda “verde”  do século XVIII influenciaram várias outras áreas das sociedades humanas, entre elas a política, a antropologia e até mesmo algumas religiões. Surge então o “darwinismo social”, que prega não uma diferença entre humanos e animais mas sim uma diferença entre humanos e … humanos. O eugenismo é inventado, assim como o nazismo, o fascismo e outras teorias raciais.

Após a Segunda Guerra Mundial o Itália fascista e a Alemanha nazista são derrotadas, as práticas eugênicas são abandonadas e as teorias evolucionistas, dentro das ciências sociais, sofrem constantes críticas e vão sendo abandonadas ao longo dos anos.  A partir do perspectivismo de Eduardo Viveiros de Castro as teorias “homocêntricas” (aquelas que pregam ou buscam caracteres que diferenciam os humanos dos animais, geralmente provando que os humanos são criaturas superiores) sofrem uma crítica dentro das ciências sociais ao relativizar o conceito de humanidade-animalidade, natureza-cultura.

Ao afirmarem que o humano é o único ser capaz de ter e produzir cultura, os autores da apostila de sociologia do ensino médio ignoram e negam, ao mesmo tempo, todas as teorias contrárias ao homocentrismo, como as teorias de Eduardo V. de Castro por exemplo. Ignoram, pois sequer citam as opiniões contrárias, e negam, pois não esclarecem quais foram as fontes que fundamentam as afirmações presentes na apostila, fazendo com que estas pareçam uma verdade consensualmente aceita. Mas esta afirmação não só contradiz algumas teorias recentes da antropologia, como também contradiz os próprios achados mais atuais das ciências exatas.

Algumas pesquisas realizadas em São Paulo mostram, segundo artigo na internet¹, que uma espécie de macaco usa pedras como ferramenta para abrir cocos. Essa técnica é transmitida entre gerações através da observação, não sendo assim considerado um “ato instintivo”, fazendo com que os biólogos considerem que aqueles macacos possuem um tipo de cultura. Outro argumento a favor da cultura dos animais é de que entre os chimpanzés não é a força física que favorece um indivíduo a assumir a liderança do grupo, mas sim a capacidade deste de forjar alianças com outros indivíduos, conquistadas geralmente através de uma “propina” com alimentos, que apoiam o aspirante a líder ao cargo desejado.

Fica cada vez mais difícil de admitir que os animais agem apenas por instinto. A própria definição de instinto admiti que esse conceito não pode ser aplicado com segurança, já que determinar o que é instinto ou não depende de outras variáveis, ainda impossíveis de serem determinadas.

Mas se não é a cultura, ou o instinto, que distingue o humano dos outros animais, o que seria então? Alguns podem apontar a capacidade de se reconhecer, criar uma identidade, porém alguns animais aparentemente conseguem se reconhecer em espelhos.

Responder a essas perguntas não me parece tão simples. É como patinar sobre uma fina superfície de gelo. Buscar estas respostas vai além do conhecer as outras espécies, é conhecer a nós mesmos. Porque, afinal, é no outro que nos definimos. É um longo caminho ainda a ser percorrido, tanto pelas ciências sociais quanto pelas outras ciências, cujo lugar que ele vai nos levar ainda me parece incerto para podermos dar uma afirmação tão direta como a da apostila de sociologia do ensino médio.

Fontes:

¹http://www.ip.usp.br/imprensa/midia/2002/fsp20_01_2002.html

CASTRO, Eduardo Viveiros de (autor). A inconstância da alma selvagem: e outros ensaios de antropologia. São Paulo, SP: Cosac Naify, 2002.

http://www.youtube.com/watch?v=hynMXCqtHfs&feature=related (documentário que mostra uma instabilidade na relação “presa-predador” entre búfalos e leões)

http://www.youtube.com/watch?v=nRow1PoYA9s (este documentário acompanha a rotina de um dia de sete espécies de animais na África do Sul. É interessante notar o elefante que foi excluído do grupo por “não se comportar”)

http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2011/09/110915_papagaios_ensinam_fala_cc.shtml (papagaios domésticos ensinam aves selvagens a falar, na Austrália)

http://www.bbc.co.uk/portuguese/ciencia/story/2006/10/061031_elefanteimagemir.shtml (artigo sobre os animais que se reconhecem nos espelhos)

http://pt.wikipedia.org/wiki/Instinto

Caderno do aluno: sociologia, ensino médio – 1a série, volume 3. São Paulo: SEE, 2009.

Autor: Aram S. Menocci

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  1. Ferreira

    Considero pertinente seu questionamento dos pressupostos do material didático mobilizado, mas sugiro mais cuidado com afirmações como: “Após a Segunda Guerra Mundial o fascismo e o nazismo são derrotados, as práticas eugênicas são abandonadas e as teorias evolucionistas, dentro das ciências sociais, sofrem constantes críticas e vão sendo abandonadas ao longo dos anos.” Não creio que a derrota dos regimes políticos nazistas e fascistas na Europa pós-II GM seja o mesmo que a derrota “do fascismo e do nazismo”, pois como posicionamento político estes continuam existindo hoje. Quanto a práticas eugênicas, elas vêm sendo revividas agora com a engenharia genética. E quanto ao evolucionismo, para além das modas acadêmicas, continua sendo um paradigma forte e consolidado não só nas ciências sociais como nas naturais. Por fim, apesar da importância inegável do trabalho de Viveiros de Castro, existem trabalhos anteriores que já antecipavam (e que ajudaram a construir) o tipo de questionamento dos grandes divisores que ele avança. O post precisa ser revisado, tem muitos problemas de escrita.

    • Aram

      Olá P. Ferreira. Quando eu disse que o nazismo e o fascismo foram derrotados não quis dizer que eles foram extintos, talvez eu devesse ter explicitado isso melhor no texto. Sei que ainda há grupos neo-nazistas e pessoas que são nazistas mas não sabem, ou não se declaram (também, não podem se declarar), mas em todo o caso o nazismo explicito se tornou ilegal em muitos países. Não sou ingênuo de achar que isso represente o fim das práticas nazistas, mas apenas um movimento opressor que não existiria se não fosse a derrota dos países do Eixo na II GM. Em todo caso mudei para “Itália fascista e Alemanha nazista”; acho que fica melhor escrito dessa forma. Sobre as práticas eugênicas: não sei se posso concordar com você. Não conheço muito de Eng. Genética, mas não sei se posso comparar essa ciência com as práticas eugênicas do começo e meio do século XX. Essa questão cai no conceito que cada um faz de “prática eugênica”. Em todo caso eu me referi às práticas eugênicas dessa época que tinham o intuito de fazer uma limpeza racial, isolando e exterminando os indivíduos considerados de outras raças. Espero que esse não seja o foco da Eng. Genética ou que ela não chegue a esse ponto radical.




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