Sugestão de aula: “Os Estabelecidos e os Outsiders”

Este post pretende sugerir um material didático que utilizei em uma das minhas aulas dadas no estágio e expor as minhas experiências com o seu uso.  A escolha pelo livro “Os Estabelecidos e os Outsiders” de Norbert Elias e John L. Scotson veio em decorrência da temática que uma das salas do segundo ano do Ensino Médio estava trabalhando ao longo do semestre. O tema principal era sobre desigualdade e o professor, para aprofundar a discussão separou a sala em grupos para que escolhessem alguma desigualdade ou diferença, como de gênero, de trabalho, racial, social ou econômica. Todos os grupos da sala desenvolveram um trabalho sobre as desigualdades sociais que apareciam em seu bairro, Campo Belo. Eles contavam que o bairro sofria com problemas de infra-estrutura urbana como falta asfalto, luz elétrica e água encanada, e também com problemas de violência e de moradia.

Para pensar sociologicamente sobre algumas dessas questões, fiz a escolha de trabalhar com esse livro por ter uma linguagem de fácil acesso e por conta da temática do livro se aproximar dos questionamentos feitos pelos alunos. Poderia ter usado outros autores ou correntes sociológicas, porém quis tentar experimentar esse livro em sala de aula e ver a recepcidade dos alunos quanto aos conceitos trabalhados e o uso destes nas discussões.

Adentrando no livro, N. Elias começa contando que ao chegar na cidade de Winston Parva(nome fictício dada a cidade inglesa, onde fizeram a pesquisa) encontrou índices altos de delinqüência entre os jovens de um determinado bairro. Com os avanços das pesquisas os índices de delinqüência diminuíram, mas este bairro ainda era estigmatizado como violento pelos outros bairros da cidade. Para entender o que estava ocorrendo no local, Norbert Elias começou a estudar como era organizada Winston Parva.

A cidade era divida em três Zonas, Zona 1 e Zona 2 onde moravam as famílias mais antigas e tinham suas tradições já constituídas. Os indivíduos que habitavam essas duas Zonas eram denominados pelo autor de estabelecidos. A Zona 3 era caracteriza por loteamentos, onde moravam aqueles que tinham vindo recentemente à Winston Parva, nomeados de outsiders.  Os indivíduos tanto da Zona 2 quanto da Zona 3 trabalhavam nas mesmas fábricas e tinham semelhante concentração de renda. Apesar de terem a mesma situação financeira e as mesmas tradições culturais, os membros da Zona 3 eram excluídos das atividades e reuniões dos outros grupos. Por exemplo, a Zona 1 e Zona 2 possuíam organizações, como Associação de Idosos, Clubes, grupos teatrais, grupos religiosos que os indivíduos da Zona 3 não participavam ou só alguns tinham acesso.

A exclusão dos habitantes da Zona 3 também era feita por meio da fofoca. N. Elias conta que a fofoca era usada como instrumento de coerção e estigmatização dentro da cidade. As famílias mais antigas usavam da fofoca como meio de garantir o seu poder e excluir aqueles que não estavam seguindo as boas maneiras, como se embriagar, não cuidar dos filhos ou agir de forma violenta. Essas fofocas agiam de forma tão coercitivas que eram internalizadas pelos habitantes da Zona 3, os quais, realmente, achavam que o lugar onde moravam era ruim, cercado de violência e de jovens indisciplinados, como aponta o autor nesse trecho: “Pelo simples fato de morarem em determinado bairro[na Zona 3], os indivíduos eram julgados e tratados – e, até certo ponto, julgavam a si mesmos – de acordo com a imagem que os outros faziam de sua vizinhança” (ELIAS, 2002: p. 131).

Os habitantes da Zona 3 além de serem caracterizados por outros moradores, reproduziam entre si essas marcas. A estigmatização é a marca deixada pelos estabelecidos nos membros da Zona 3. Esse processo não é somente imposto, mas acaba se tornando internalizado por aqueles que são marcados. Os indivíduos acabam se estigmatizando e achando que não podem pertencer ao grupo dos estabelecidos. Os habitantes do loteamento não conseguiam mudar esse estigma, porque não tinham poder nem coesão. A dificuldade de organização entre eles vinha do fato de que eram pessoas vindas de diversas partes da Inglaterra e o grau de coesão entre familiares era baixo, pois a maioria dos indivíduos tinha famílias em outras regiões. A família era outro ponto de destaque na obra, pois na Zona 1 e 2 a configuração do parentesco é que determinava a organização espacial de onde podiam morar e que relações poderiam estabelecer.

Assim, para garantir o circulo de relações e manter as tradições e o poder local, os aldeões, membros da Zona 1 e 2, coagiam os grupos recentes. Para Elias: “Os ‘aldeões’ não conseguiam distanciar-se o bastante de seu próprio sistema de valores e de crenças e ver que os recém-chegados não poderiam, automaticamente, sentir o mesmo apego por Winston Parva e por tudo o que ela representava aos olhos dos moradores mais antigos que haviam crescido ali.” (ELIAS, 2002, p.102).

Depois desta contextualização do livro e o aprofundamento em três conceitos, quais sejam, estabelecidos, outsiders e estigma procurei problematizar com os alunos algumas das questões levantadas no texto e usá-las para pensar as desigualdades que apareciam no seu bairro. Perguntei como poderíamos pensar o Campo Belo: estabelecido ou outsider? O bairro é estigmatizado, se sim por quem? Partindo dos problemas apontados no bairro como violência, vocês acham que todas as pessoas que moram no Campo Belo são violentas, ou é uma minoria? Se é uma minoria, porque todo o bairro é estigmatizado por esse problema?

Através dessas questões começamos a pensar sobre alguns problemas locais, apontados pelos alunos, e com ajuda dos conceitos de N. Elias fizemos seu aprofundamento, sem perder o viés sociológico. Assim, este post não tem a pretensão de construir uma intensa análise crítica da obra do autor, mas sim, por identificar a proximidade e relevância dos conceitos tratados, sugerir o seu uso dentro das aulas de Sociologia. O livro pode ser utilizado para pensar outras situações, por exemplo, a desigualdade racial. Na introdução da obra apresentada N. Elias mostra que a diferenciação entre os grupos sociais não é feita somente por características étnicas ou raciais, mas por divergências de poder e coesão entre eles. Fica de sugestão ao educador tentar elaborar uma aula problematizando a visão do autor sobre a temática racial.

 

Referência bibliografica:

ELIAS, Norbert e SCOTSON, John L. Os Estabelecidos e os Outsiders. Rio de Janeiro: Zahar, 2000.

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