A Sociologia, o Professor e a Escola.

O espaço aberto para o ensino de sociologia no Ensino Médio se tornou um assunto polêmico, as discussões mobilizam não apenas as escolas e os profissionais da área de humanas, sobretudo os cientistas sociais, mas também outros críticos preocupados ou não com a educação no Brasil, como podemos constatar na reportagem de Marcelo Bortoloti para a revista Veja: Educação – Sob o domínio da ideologia, na edição 2158 de 31 de março de 2010 e os comentários feitos a ela (disponível no site: http://origin.veja.abril.com.br/310310/ideologia-cartilha-p-116.shtml). Há uma série de indagações e esforços para o entendimento da finalidade da sociologia como uma matéria regular específica, como por exemplo:

Qual o conteúdo a ser abordado em uma área com múltiplas verdades e diferentes correntes ideológicas?
O professor de sociologia deve ser um agente capaz de iluminar os jovens com a luz da cidadania e politizá-los para uma vida melhor?
Como realizar estas atividades no contexto escolar e no tempo de aula designado para este fim?

A partir do acompanhamento de aulas de sociologia em uma Escola Estadual da Região Metropolitana de Campinas e das discussões realizadas em sala de aula, colocarei minhas impressões sobre este contexto. Certa de que minhas considerações sobre estas indagações estão longe de ser suficiente para neutralizá-las, e que são necessárias muitas pesquisas e conceitos para nos aproximarmos de um ensino melhor, coloco estas questões em discussão para melhor atendermos as necessidades de um estudo sério e comprometido com a melhoria do ensino como um todo, com a ajuda legítima do pensamento sociológico nas salas de aula.
Como foi descrito na revista Veja há uma preocupação com o conteúdo das aulas, as apostilas utilizadas nas escolas estaduais são divididas de forma temática, a abordar a área de antropologia no primeiro ano do ensino médio, sociologia no segundo ano e ciência política no terceiro; esta carrega sim um conteúdo ideológico próprio da escolha de linhas de pensamento dos autores abordados ainda que muito superficiais, porém dizer que estes temas serão abordados como “doutrinas” dentro do pensamento trabalhado na sala não é verdadeiro, já que muitos dos professores que ministram as aulas de sociologia não são formados nesta área e acabam por neutralizar a ideologia dos temas contida nas apostilas, por não conhecerem as discusões teóricas referentes a ele, ou ainda trabalhar os temas segundo sua própria visão do assunto, ou também, tomando como exemplo os temas que utilizam Marx como referência, um professor marxista vai ensinar através desta ideologia. O perigo deste tipo de ensino é fazer com que as discussões trabalhadas não ultrapassem o senso comum, enquanto no outro estremo podemos ter um ensino carregado de interesses ideológicos, se for ministrado por cientistas sociais sem a visão clara da finalidade da sociologia no âmbito escolar.
O conteúdo a ser trabalhado deve estar voltado para uma análise crítica dos problemas sociais cotidianos e a diversidade existente, os alunos devem compreender as aulas de sociologia como um espaço de reflexão sobre o mundo, nos aspectos sociais, econômicos, políticos e culturais, reconhecendo-se como parte da dinâmica que o integra. Os professores devem ser capazes de conduzir as discussões de forma a incentivar o pensamento crítico, a compreensão do diferente e eliminar preconceitos, para que os alunos possam reconhecer e tomar para si a postura que lhe convém, com conhecimento para exercer a liberdade com noções de justiça e cidadania.
O professor com ou sem a intenção de interferir na elaboração das opiniões dos alunos acaba por fazê-lo, mesmo que inconscientemente, através de suas atitudes perante a sala e de seu conhecimento, não importa a matéria que lecione. Contudo o professor de sociologia deve estar sempre consciente desta interação e reunir esforços para contribuir para uma educação que vise à emancipação, levando-os ao esclarecimento quanto às imposições sociais que estão inseridos, para que sejam livres para tomar decisões de forma consciente.
O contexto escolar e o tempo destinado para as aulas são um obstáculo a ser ultrapassado pelo professor, pois o programa escolar condiciona os alunos a avaliações sobre todas as disciplinas e ainda estipula previamente as respostas esperadas, comprometendo, no caso da sociologia, a profundidade analítica do aluno, já que para a avaliação ele submeterá suas próprias convicções sobre os temas ao que já é convencionado no senso comum, ou ainda a mera reprodução do conteúdo apostilado, para não correr o risco de uma “nota” indesejada. O tempo destinado ao curso de sociologia, uma aula por semana durante os três anos do Ensino Médio, restringe as possibilidades de abordagem do professor, o tempo é curto para instigar o pensamento para uma boa discussão dos temas, ou mesmo trabalhar um filme, documentários e outras abordagens que ajudem a reter a atenção e o interesse dos alunos aos temas vigentes, porém considero o tempo total destinado ao curso de sociologia no ensino médio tempo suficiente desde que seja melhor distribuído, como por exemplo duas aulas seguidas semana sim semana não, ou outras combinações que contribuam com o professor no desenvolvimento das aulas.
Desta forma acredito que a sociologia pode ser uma grande aliada na melhoria do ensino, pois seu desenvolvimento prático no âmbito escolar ajudará os alunos na organização do pensamento para formularem suas opiniões sobre os mais diversos assuntos que os cerquem, esta prática o ajudará a compreender melhor não somente os temas relacionados à sociedade, mas também os temas trabalhados em outras matérias, além da melhora na produção de textos que o exercício mental proporciona. Pois vivemos em tempos de que as coisas se apresentam cada vez mais rápidas e prontas, dos alimentos que comemos até a influência da mídia, desafiando nossa capacidade de produção própria e livre pensar, nos limitando cada vez mais. O estímulo ao pensamento que a sociologia proporciona é de fundamental importância, seja dentro ou fora da escola.

Anúncios

  1. Ferreira

    Acho que seria útil repensar a afirmação de que o fato de que “muitos dos professores que ministram as aulas de sociologia não são formados nesta área” faça com que eles acabem “por neutralizar a ideologia dos temas”. O fato de não ter diploma de Sociologia ou C.Sociais impede a pessoa de ser ideológica? Nesse caso, o que é ideologia?

    Você afirma que os professores de Sociologia devem se voltar para “uma análise crítica dos problemas sociais cotidianos e [para] a diversidade existente”, que devem “ser capazes de conduzir as discussões de forma a incentivar o pensamento crítico, a compreensão do diferente e eliminar preconceitos”, que devem “reunir esforços para contribuir para uma educação que vise à emancipação”, levando os alunos “ao esclarecimento quanto às imposições sociais que estão inseridos, para que sejam livres para tomar decisões de forma consciente”, e ajudando-os “na organização do pensamento para formularem suas opiniões sobre os mais diversos assuntos que os cerquem” e a “compreender melhor não somente os temas relacionados à sociedade, mas também os temas trabalhados em outras matérias, além da melhora na produção de textos que o exercício mental proporciona”. Eu pergunto: em que bases é legítimo esperar tudo isso de um professor de Sociologia?; essas coisas são ensinadas numa graduação em Sociologia? A Sociologia não pode assim ser reduzida a um exercício mental de pensamento crítico e civismo? Isso é desejável?




Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s



%d blogueiros gostam disto: