Sociologia, esclarecimento e autonomia

Gostaria de discorrer a respeito da proposta de desenvolvimento da autonomia mediante o esclarecimento tal qual defendido por Theodor W. Adorno. Neste sentido, buscarei evidenciar a maneira pela qual este esclarecimento que se propõe difundir aos indivíduos se aproxima de questões sociológicas e do ensino da sociologia. Se a proposta de Adorno segundo a qual devemos constantemente combater barbárie ainda pode fazer eco em nossa “sociedade administrada”, será possível que reinterpretemos a inserção da sociologia no Ensino Médio em seu aspecto ético e políticamente necessário. Como dirá o autor:

“Finalmente, o centro de toda educação política deveria ser que Auschwitz não se repita. Isto só será possível na medida em que ela se ocupe da mais importante das questões sem receio de contrariar quaisquer potências. Para isto teria de se transformar em sociologia, informando acerca do jogo de forças localizado por trás da superfície das formas políticas.” (137)

Trata-se, neste sentido, de impedir que os indivíduos reproduzam de maneira indiscriminada e irrefletida os valores e os padrões de conhecimento dominantes, e busquem o caminho do esclarecimento e da racionalidade crítica. O que se busca, portanto, mediante a educação, seria  a conscientização acerca dos mecanismos sociais e subjetivos que permitem a manifestação da barbárie. Essa conscientização teria o papel de impedir que estes mecanismos se reproduzam de forma inconsciente, ou seja, de maneira perigosamente irrefreável. Aqui podemos perceber a influência dos escritos de Freud nos autores da chamada Escola de Frankfurt, na medida em que Adorno defende que tornar consciente mecanismos inconscientes teria um papel fundamental no combate a estes próprios mecanismos, num sentido análogo à da cura psicanalítica.

Não nos enganemos, porém, quanto ao papel dado por Adorno ao psicológico frente às questões de ordem social. Como dirá o próprio autor, sua ênfase em questões psicológicas se refere unicamente ao fato de que seria mediante o combate ao caráter manipulador e autoritário que poderíamos impedir que Auschwitz se repetisse. No entanto, os genocídios e os campos de concentração, e em última instância toda a frieza e insensibilidade que possibilitaram que ocorressem, são problemas de ordem sociológica. Isto se dá na medida em que refletem condições sociais objetivas, que estão integradas ao curso da hisória mundial e que, justamente por essa sua fatalidade seriam de dificílima transformação. Neste sentido, a mundança via educação deveria se focalizar não nestas condições objetivas (entre elas o surgimento de movimentos nacionalistas, a explosão populacional e o desenvolvimento de armas nucleares) mas nos indivíduos por elas produzidos, e sem os quais elas não poderiam ter sido efetivadas.

“A pressão do geral dominante sobre tudo que é particular, os homens individualmente e as instituições singulares, tem uma tendência a destroçar o particular e individual juntamente com seu potencial de resistência. Junto com sua identidade e seu potencial de resistência, as pessoas também perdem suas qualidades, graças a qual têm a capacidade de se contrapor ao que em qualquer tempo novamente seduz ao crime.”(122)

Em outras palavras, trata-se de restaurar o indivíduo em sua condição de contestador da ordem dominante, enquanto locus do particular em todo seu potencial de resistência às tendências gerais totalizantes e massificadoras. Trata-se, assim, de educar o indivíduo para que este se torne uma pessoa esclarecida, e que possa refletir sobre o mundo segundo pressupostos racionais e independentes de qualquer proposta hegemônica de saber. Desta maneira, será possível a reabilitação do campo da experiência, e entre o indivíduo e o mundo não existirá mais o bloqueio das opiniões coletivas vigentes.

Esta qualidade de experienciador do mundo, segundo Adorno, não se resume a uma simples vivência imediata entre sujeito e realidade externa, mas necessita da orientação de princípios éticos e racionais que possibilitem o direcionamento do sujeito para objetivos verdadeiramente humanos. Esta finalidade só poderia ser atingida mediante a orientação de uma autoridade esclarecida representada na figura do mestre.

É neste compromisso ético e politicamente necessário assumido pela educação contra a barbárie que Adorno parece situar a necessidade da reflexão sociológica. O papel deste ramo do saber seria o de esclarecer os estudantes a respeito das reais consequências de seus atos, na medida em que estes devem estar alinhados a um objetivo humano que se contrapõe aos valores e aos modelos ideais amplamente divulgados pela tendência social dominante, característica mesmo de nossa cultura moderna.

A inserção da Sociologia nos currículos do Ensino Médio poderia contribuir, neste sentido, para que pudéssemos restaurar o indivíduo em seu potencial autônomo de contestação e de não-alinhamento às tendências coletivas. As consequências desta transformação podem ser politicamente mais importantes e essenciais do que nos parece à primeira vista, e a proposta argumentativa de Adorno nos leva a crer que possam vir a contribuir com a edificação de um mundo mais humano, mesmo que em seus próprios termos.

Bibliografia:

ADORNO, Theodor W. Educação após Auschwitz. In: Educação e Emancipação. São Paulo: Paz e Terra, 1995.

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