Os diferentes olhares da sociologia sobre a educação

Para quem não leu, no meu último post eu estava procurando por artigos  que tratassem de como a educação já havia sido tratada pelas diferentes abordagens sociológicas. Até aquela altura, como muitos colegas já haviam publicado posts de autores mais contemporâneos, acabei postando um antigo fichamento de um texto pouco conhecido de Durkheim que tratava especificamente do tema da educação. Quem quiser pode conferir o post clicando aqui. Desta vez, eu achei um material bastante interessante que desse conta da visão sociológica da educação como um todo. Trata-se de um texto produzido pela socióloga Graziella Morais Dias da Silva, pesquisadora do Núcleo de Sociologia da Cultura da UFRJ, onde ela trata das diferentes perspectivas sociológicas da educação, passando desde os autores clássicos até os mais contemporâneos, inclusive autores brasileiros que trataram do tema.

Para acessar o texto on-line, clique no link abaixo:

http://www.rolim.com.br/2002/_pdfs/sociologia2.pdf

No começo do texto, a autora apresenta a as discussões acerca da educação no âmbito da sociologia no último século, especialmente pela sociologia clássica citando o trabalho da socióloga britânica Margaret Archer. Segundo Archer, a sociologia clássica (Marx, Weber, Durkheim e Parsons) tratou a educação “como uma instituição social macroscópica”, que se inter-relacionava com as outras instituições sociais na conformação da sociedade. A autora deixa claro a visão macrossociológica para estes autores no trato da educação como um sistema conformador e reprodutor da realidade social. Dando ênfase às abordagens durkheimiana e parsoniana, a autora mostra a proeminência na visão destes autores da educação  no processo de modernização.

Ao passar a autores mais contemporâneos, como Habermas, Giddens e Bourdieu, a autora mostra como que a sociologia foi aos poucos se distanciando de uma visão macrossociológica e empírica  para uma abordagem mais própria e teórica ao tratar da educação. Nas suas palavras,

“Com isso pretendo mostrar como a abordagem macrossociológica se distanciou ao longo do tempo da perspectiva da educação como instituição social qu se constrói na relação histórica com outras instituições, para tratá-la como uma instituição abstrata com efeitos abstratos. Ao mesmo tempo, a educação deixou de ser pensada com o otimismo instrumental parsoniano, substituído pelo pessimismo althusseriano. A educação passa a ser definida como reprodutora das desigualdades sociais mais gerais da sociedade – sejareproduzindo as desigualdades entre as classes, seja reforçando o predomínio da racionalidade instrumental sobre a razão comunicativa.”

Com excessão de Bourdieu, a autora nos diz que nenhum dos autores contemporâneos tratou diretamente da educação, somente de forma tangencial. Segundo ela, Boudieu tratou da educação como um “misto de disputa de poderes, mas com posições já delimitadas pelo capital econômico e simbólico herdados, e tendendo sempre à estabilidade“. Mesmo não desenvolvendo um trabalho específico sobre a educação, Boudieu teria sido o único entre os contemporâneos, segundo ela, a atribuir um papel à educação na conformação da sociedade, mesmo que de forma funcionalista. Já os outros dois autores (Habermas e Giddens) teriam tratado a educação como “instituição vinculada ao desenvlvimento da modernidade, ou ainda numa discussão pontual, sem que exista uma definição precisa do que seja o sistema escolar, tratando suas partes como instituições quase independentes“. Um ponto em comum, no entanto, é percebido pela autora nos três contemporâneos por ela escolhidos, o fato de que a educação seria um processo de reprodução social e cultural, e não mais algo transformador da realidade  em mutação como havia sido percebida pelos clássicos.

Ao contrário dos autores anteriormente trabalhados, que segundo a autora teriam uma visão da educação como sendo reprodutora e constrangedora, ou ainda como um “sistema abstrato de reprodução de uma cultura supostamente predefinida e coerente“, no fim do texto ela recorre a autores que trabalham com uma visão diferente dessa anteriormente trabalhada. A autora trabalha, por fim, com uma perspectiva histórica no trato da educação pela sociologia, perspectiva que parece ser a sua favorita nas suas conclusões; para tanto, ela retorna à Margaret Acher, ao mesmo tempo que recorre à Norbert Elias. Segundo ela, enquanto Margaret Acher inaugura uma nova abordagem histórica para tratar da educação em diferentes países por ela analisados em sua tese de doutorado, Norbert Elias reafirma a importância da abordagem histórica na sociologia, mas sem a distinção entre indivíduo e sociedade como coisas distintas, como o faz Acher. Por fim, a autora propõe uma abordagem socio-histórica no estudo sociológica da educação brasileira, com o argumento de que com essa abordagem seria possível compreender a relação entre macro e micro nos sistemas educacionais brasileiros, além de compreender o funcionamento desses sistemas com outros sistemas sociais brasileiros. A autora baseia seu argumento no trabalho de Acher e de outros autores brasileiros, que defendem uma visão mais historicizada da educação nas análises sociológicas.

Bibliografia:

SILVA, G. M. D. . Sociologia e Educação: um debate teórico e empírico sobre modernidade. Revista Enfoques (Santiago), v. 1, p. 66-117, 2002.

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