Sobre o trabalho alienado (estranhado) em Marx

Cristhiane Falchetti (RA:100956)

Marx trata do trabalho estranhado em um dos seus primeiros estudos sobre economia política: os manuscritos econômico-filosóficos, escritos em abril de 1844. Nesse momento, o autor já havia rompido com o idealismo hegeliano e estava definindo seu materialismo histórico, pelo qual a compreensão do Estado, da religião e do direito deveria partir da análise da sociedade civil, cuja anatomia estaria na economia política.  

Marx utiliza os próprios conceitos e categorias da economia política para entender as relações sociais de produção e empreender sua crítica à Economia Política e à explicação desta sobre o movimento da economia. A definição de cada mecanismo econômico seria fundamental para entender a economia, mas, ao analisá-las separadamente, sem suas devidas conexões, a Economia Política naturaliza a origem das coisas, supondo como fato dado aquilo que deveria ser explicado. Ela “Supõe na forma do fato (tatsache), do acontecimento, aquilo que deve deduzir, notadamente a relação necessária entre duas coisas, por exemplo, entre divisão do trabalho e troca.” (p.80).

Marx analisa as categorias da economia política com base na realidade do século XIX, propondo uma explicação que estabeleça a relação entre o sistema econômico como um todo. Assim, parte da situação concreta dos trabalhadores e mostra a gênese histórica da alienação das relações sociais de produção:

“Agora temos, portanto, de conceber a interconexão essencial entre a propriedade privada, a ganância, a separação de trabalho, capital e propriedade da terra, de troca e concorrência, de valor e desvalorização do homem, de monopólio e concorrência, etc. de todo este estranhamento (Entfremdung) com o sistema do dinheiro.” (MARX, 2009, p.80).

Segundo Marx, as leis do trabalho enunciadas pela economia política são as leis do trabalho estranhado, ela “oculta o estranhamento na essência do trabalho porque não considera a relação imediata entre trabalhador (o trabalho) e a produção” (p.82). Diferentemente da Economia Política, que só considera o trabalhador quando ele está produzindo mercadorias e o trabalho como mera produção de mercadorias, Marx considera que o trabalho social é condição absoluta da sociedade e elemento fundante do ser humano, pelo qual o homem interage com o mundo exterior sensível. Portanto, na relação estranhada entre o trabalhador e o seu trabalho, estariam todas as conseqüências do conjunto das alienações (exteriorizações).

Para mostrar o trabalho estranhado, Marx faz a constatação de que quanto mais o trabalhador produz riqueza mais pobre ele fica, sendo que o produto do seu trabalho e o próprio trabalho tornam-se mercadorias. A objetivação do trabalho aparece no sistema econômico como “perda do objeto e servidão ao objeto, a apropriação como estranhamento (Entfremdung), como alienação (Entäusserung)” (p.80)[1]. Essa situação é característica do modo de produção capitalista, em que a objetivação do trabalho resulta em propriedade privada do não-trabalhador e esta torna-se determinante da apropriação do trabalho. Na sociedade capitalista a relação essencial do trabalho, a relação do trabalhador com a produção, está separada, estranhada.

O trabalho estranhado manifesta-se na relação entre o trabalhador e o produto do seu trabalho (resultado), e na relação entre o trabalhador e a atividade produtiva (processo). Ou seja, o homem não se apropria do resultado (produto) do seu próprio trabalho e não o vê como parte de si, mas como algo externo a si; nem tem consciência de sua participação no ato produtivo, sua atividade não lhe pertence, é estranha à ele. Esses dois aspectos do estranhamento, fundamentais na sociedade capitalista, se desdobram em outras determinações do trabalho estranhado: a) estranhamento do homem em relação à natureza; b) estranhamento do homem em relação a si mesmo; c) estranhamento do homem em relação ao seu ser genérico; d) estranhamento do homem pelo próprio homem. Ou seja, o estranhamento na atividade produtiva, influencia o conteúdo das demais exteriorizações humanas.

O estranhamento do homem em relação ao produto de seu trabalho é também o seu estranhamento em relação ao mundo exterior sensível (objetos da natureza). Porém, o homem é parte da natureza, está interconectado à ela, de modo que o estranhamento da natureza se traduz no estranhamento de si mesmo, de sua função ativa. A natureza é o único meio pelo qual o ser humano obtém seus “meios de vida”, seja para produzir os objetos de que precisa (constituir-se como trabalhador), seja para manter a própria existência (sujeito físico). Assim, ao perder sua identificação com o produto de seu trabalho, o homem perde essa dimensão de seu intercâmbio com a natureza, com seu “corpo inorgânico”.

Na sociedade capitalista, ocorre uma contradição, pois quanto mais o trabalhador se apropria da natureza sensível, por meio do seu trabalho, menos domínio ele tem sobre os objetos do seu trabalho e mais precária é sua existência física. Isso porque, nessa sociedade, o trabalho objetivado é apropriado por outro, fazendo com que o trabalho seja sua negação, em vez de ser sua afirmação enquanto ser livre e consciente.

Para Marx, a atividade livre e consciente (atividade produtiva) é o caráter genérico do homem. É a sua elaboração do mundo que faz dele um ser genérico. Quando o homem reconhece o mundo externo como sua criação, ele contempla a si mesmo como parte de uma generalidade (humano). Diferente dos animais, “O homem faz da sua atividade vital mesma um objeto da sua vontade e da sua consciência” (p.84). Mas o trabalho estranhado inverte essa relação: o homem, por ser consciente, transforma sua atividade vital (o trabalho) em um meio para sua existência física. Ao arrancar-lhe o objeto de sua produção, que é a objetivação da sua vida genérica, o homem se estranha do seu ser genérico, da essência humana. Ele fica livre e ativo apenas nas suas funções animais. Como conseqüência disso, o homem estranha o próprio homem, pois a relação dele consigo mesmo se expressa na relação com o outro, e, se o homem está estranhado de si, também terá com o outro uma relação de estranhamento. Se a atividade produtiva é penosa e desefetivadora do trabalhador e, se o produto do seu trabalho lhe é estranho, hostil, e poderoso sobre ele, a relação do trabalhador com o dono desse objeto que lhe causa martírio será de oposição.

Assim, na sociedade capitalista, o conjunto das exteriorizações humanas (alienações) é determinado pelo trabalho estranhado. Este, por sua vez, consiste na desvinculação entre o trabalhador e o seu trabalho, fazendo da objetivação do trabalho (exteriorização) uma mercadoria à disposição da apropriação privada. Em tais condições de objetivação da atividade humana, o trabalhador não vê o produto de seu trabalho como a exteriorização de sua atividade, ele não se reconhece no objeto de seu trabalho, este lhe aparece como estranho e exterior a ele, bem como todas as demais relações que se ligam à atividade produtiva.

Seguindo a explicação de Marx, a emancipação humana estaria condicionada à superação do trabalho estranhado e esta à supressão da propriedade privada. Mas, apesar de ser condição, o fim da propriedade privada não é, por si só, garantia da emancipação.


[1] Nesse ponto, vale destacar a diferença entre os termos “Entfremdung” (estranhamento) e “Entäusserung” (alienação). Seguindo a indicação da tradução utilizada, a alienação, vista como exteriorização humana, não necessariamente tem um sentido negativo. Ela resulta do processo de criação produtiva e não pode ser eliminada. Já o estranhamento é sempre negativo, pois significa um bloqueio à realização humana, desvinculando o trabalhador de seu trabalho, como se fossem coisas estranhas, sem nenhuma relação.

Referências Bibliográficas

MARX, Karl. Manuscritos econômico-filosóficos. São Paulo: Boitempo editorial, 2009.

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  1. cristhianef

    O objetivo desse post é contribuir com a discussão e compreensão sobre a questão da alienação na concepção marxiana. Esse é um conteúdo proposto no ensino da Sociologia, porém, os professores enfrentam bastante dificuldade para tratar dele, seja na compreensão, seja por questões didáticas. Nesse sentido, o texto aqui postado visa auxiliar o professor na compreensão do tema.




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