Notícias de uma Guera Particular

O documentário brasileiro “Notícias de uma Guerra Particular” foi produzido em 1999, pelo cineasta João Moreira Salles e pela produtora Kátia Lund. A expressão que deu título ao filme é o retrato da vida nas favelas do Rio de Janeiro a partir de três eixos: polícia, tráfico e moradores.

Sem vitimizar ou criminalizar nenhum desses atores, o documentário dá voz à traficantes, crianças exploradas pelo tráfico, moradores das favelas, policiais, capitão do BOPE, delegados, com o intuito de mostrar uma guerra civil na visão daqueles que dela participam cotidianamente, direta ou indiretamente.

Acredito que o filme possa ser trabalhado nas aulas de sociologia tendo como pano de fundo a discussão sobre as violências direta e simbólica, já que somente a presença constante da polícia e do tráfico, ainda que os moradores não envolvidos com nenhuma das partes, não seja vítimas de violências que gera danos físicos, são coagidas e sentem medo o tempo todo.

Além disso, em uma favela os direitos sociais são fragilizados, mais uma das violências que o professor pode tratar em sala mediante o documentário, ou seja, na falta de saúde, educação, moradia e lazer, resultado e causa de uma profunda desigualdade social, o crime, como aponta o documentário passa a ser visto pelos jovens pauperizados, como uma forma de inserção social, sendo que, com o dinheiro que ganham podem comprar roupas e tênis “de marca”. A discussão em sala pode tocar, ainda que de forma periférica, essa noção tão enraizada na sociedade capitalista de que o consumo é capaz de inserir um indivíduo na sociedade e de torná-lo cidadão.

Diante do cenário levantado pelo documentário, podemos ainda refletir com os alunos, sobre o papel da polícia que atua nas ruas e das instituições de medidas sócio-educativas, que dão foco ao controle da criminalidade pela privação de liberdade proclamada pela justiça penal, sem que haja uma política de redução das desigualdades e garantia de direitos à população mais pauperizada. Esse debate é possível a partir da fala do, na época, chefe da Polícia Civil do Rio de Janeiro, Hélio Luz que afirma que a polícia foi construída para proteger a elite da multidão de excluídos que vive nos morros, e que é corrupta justamente porque essa elite assim deseja, ao exigir da polícia que seja dura com moradores de favela, e que ao mesmo tempo faça “vistas grossas” às infrações que comete.

O documentário, apesar de ser relativamente antigo, ainda traz questões muito atuais com relação ao trato da polícia e da sociedade com o crime, que sempre clama por medidas mais radicais para com os indivíduos que os cometem.

Documentário:

Parte 1

http://www.youtube.com/watch?v=sq6fHw3rlsQ&feature=related

Parte 2

http://www.youtube.com/watch?v=Tvtj8TOS0_0&feature=related

Parte 3

http://www.youtube.com/watch?v=apDVTW4v–M&feature=related

Parte 4

http://www.youtube.com/watch?v=5wOHJGRqaH8&feature=related

Parte 5

http://www.youtube.com/watch?v=sXuzV1CHlEw&feature=related

Parte 6

http://www.youtube.com/watch?v=YKQHrprALcA&feature=related

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  1. Ferreira

    No trecho citado abaixo, é possível entender que a “desigualdade social” e a “existência das instituições policiais […] são muitas vezes as causas do envolvimento com o tráfico por parte de crianças, adolescentes e jovens.” Isso foi sua intenção?: “Acredito que o filme possa ser trabalhado nas aulas de sociologia tendo como pano de fundo a discussão sobre a violência, mas estender-se à desigualdade social, a existência das instituições policiais, que são muitas vezes as causas do envolvimento com o tráfico por parte de crianças, adolescentes e jovens.”

    O seguinte trecho permite concluir que a “injustiça social”, mesmo sendo a “causa de inúmeras mortes todos os dias”, tem a vantagem de permitir questionar as “reais motivações” e as “causas” da “permanência” do tráfico. Essa foi sua intenção?: “A injustiça social coloca-se como uma forma, não de justificar a existência e a força do tráfico, mas de questionar quais são as reais motivações para o envolvimento com ele, e as causas de sua permanência apesar de ser a causa de inúmeras mortes todos os dias.”

    Acredito que sua proposta de “estimular a produção de um documentário por parte dos alunos sobre a violência no bairro ou na escola se for algo que aparece muito fortemente nesses espaços” merece ser melhor desdobrada. Não seria essa uma atividade meio arriscada demais para “lição de casa”? Pode ser uma boa idéia para alguém que trabalha na área, mas não necessariamente para um aluno do ensino médio. Sugiro que essa proposta seja melhor ponderada.




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