Diálogo com o filme Adeus, meninos

O filme Adeus, meninos (1987) nos expõe o que aconteceu na França – mais precisamente dentro de uma escola católica destinada a meninos representantes da classe burguesa perto de Fontainebleau, França – no período da invasão alemã em busca de judeus (1943). Faziam isso com o intuito de eliminar o foco cultural de submissão e fraqueza encontrada nos judeus. O produtor do filme (Louis Malle), em verdade, é o futuro do personagem Julien Quentin, que no filme tem doze anos de idade. Era considerado um dos alunos mais inteligentes da sala e possuía grande influência dentro do mundo das crianças1. Após seu período de férias, mantém contato com um garoto judeu, Jean Bonét, que está refugiado nessa escola. Este garoto era estudioso e se destacava em matemática, música e redação. No desenvolver do filme, os nazistas descobrem três judeus nessa escola católica através de informantes e, tanto o padre diretor como os judeus encontrados, são levados e mortos. Após aproximadamente quarenta anos desse acontecimento, o produtor faz um filme contando essa parte traumática do seu passado.

A proposta deste texto é a partir do filme Adeus, meninos dialogar com Hannah Arendt no que concerne à sua visão de educação. E esse diálogo pode nos ajudar a pensar a questão sob uma perspectiva sociológica. Eu arriscaria pensar na sociologia com um papel de ensinar o mundo tal qual ele é, pois para Arendt o educador é um representante do mundo, assim a mudança vem do elemento novo, da nova geração. O professor não deve ensinar como mudar o mundo, o elemento novo deve trazer essa possibilidade de transformação. Dessa forma a educação se realiza para a política, o que é diferente de assumir uma educação política.

Segundo Niedson Rodrigues (Rodrigues, 2003), haveria no filme uma situação negativa com um discurso positivo. Pois o ambiente era hostil, representava o horror, mas a mensagem para não nos esquecermos do passado e saber utilizá-lo com a finalidade de suprimir momentos – como aquele – do nosso meio, era positiva. Só gostaria de fazer um breve comentário antes de entrar no que foi minha proposta no parágrafo anterior, o que é visto como positivo aqui também pode ser pensado na chave do livro Educação e Emancipação de Adorno. Nessa obra ele coloca um aprendizado pela experiência por uma conscientização e esclarecimento. Assim a educação tem um papel político de combater a barbárie. Para que Auschwitz não se repita é o princípio primeiro de toda educação.

Hannah Arendt, em A Crise na Educação, escreve sobre uma crise global em que cada espaço poderia ter expressado essa crise de diferentes formas. Na América, essa expressão seria pela educação, a qual as autoridades educacionais estariam se esforçando para eliminar. Pauta sua análise na educação dos Estados Unidos, mas, como veremos, sua concepção se aplica no filme de maneira cabal. Hannah Arendt argumenta que o problema de um país poderia ser o de outro, principalmente quando falamos sobre educação. Afim de uma compreensão do filme a partir de uma perspectiva hannarendtiana, ilustraremos de maneira resumida o seu pensamento objetivado, por assim dizer, no mesmo.

A educação, para ela, deve ser voltada para a criança, que é o próprio objeto da educação: ser humano em processo de formação. A criança não pode ser tratada como madura, assim como o adulto não mais deve ser educado. Dessa forma, a educação não se aplica aos adultos, pois esses já passaram pelo momento de formação, o que pertence ao adulto é a política: quem faz política é aquele já educado. Uma pessoa pode aprender sem ser educada, mas uma criança que é educada necessita de um aprendizado, caso contrário a educação mostra-se vazia. A educação é diferente da especialização, pois a pessoa que está se especializando nada mais faz do que se adequar a uma determinada ação, dentro já do mundo dos homens. Sendo assim, a especialização não é uma educação. A educação faz com que a criança se adeque ao mundo dos homens, saia do seu mundo (mundo das crianças) para adentrar num ambiente que até então era desconhecido em essência por ela, visto que fora protegida, teoricamente, pela família. Essa proteção é necessária porque a criança ainda está no seu momento de formação. A escola tem como função “ensinar às crianças como o mundo é” (Arendt, 2005, p.246). Ela é uma intermediária entre o mundo da criança e o mundo do adulto. A transição feita pela escola é mais branda do que a criança ser colocada de frente com a outra realidade. O professor é visto como aquele que apresenta às crianças o mundo dos homens2. “Tudo que vive (…) emerge das trevas, e, por mais forte que seja sua tendência natural a orientar-se para a luz, mesmo assim precisa de segurança da escuridão para poder crescer” (Arendt, 2005, p.236).

Conseguimos, pois, enxergar esses pontos no filme. Há o afastamento de Julien da sua mãe no início do filme – afastamento esse que representa o distanciamento da família. Ele vai para a escola: local de transição entre o ambiente familiar (proteção) para o mundo dos homens. Na escola encontra professores que não apenas revelam o conhecimento do passado, do que já fora desenvolvido pelo homem até então, como também falam da situação presente do mundo – invasão da Alemanha na França e o movimento feito pelo exército no território francês. Os professores tratam as crianças com seriedade, o que auxilia na transição da criança para o mundo dos homens. Percebamos que não há a especialização das crianças nessa escola, mas sim que estão desenvolvendo a mente delas, com um prisma bem amplo, como é o caso de ter música na grade escolar. Na escola há uma educação com ensino e não apenas um ensino, pois mostram também como o mundo é. Há, porém, dentro do ambiente escolar, o contato das crianças com o mundo dos homens, pois a tropa nazista entra na escola em busca de judeus. Nesse momento, encontramos a união entre os alunos, pois não delataram seus amigos judeus, mesmo com medo da situação. Por mais que não estivessem prontas para se defender do inimigo souberam agir perante ele. Esse encontro direto com o mundo dos homens ficou marcado na vida daquelas pessoas.

Para Hannah Arendt, há uma separação entre o mundo da criança e o mundo dos adultos. O mundo da criança é um ambiente no qual existem leis e os adultos interferem – mas de modo relativamente impotente –, composta por uma autoridade mais forte e tirânica do que a sociedade do homem. Essa tirania se dá através da ditadura da maioria e a criança não tem muito para onde correr. No filme isso fica claro quando as crianças maltratam Bonét. Este não tem muito que fazer em relação à coerção exercida pelos seus companheiros de quarto. Julien possui bastante influência nesse ambiente, entre as crianças da sua idade.

O mundo do homem está relacionado com o a política, um ambiente no qual os debates se instalam, local que é também, por assim dizer, externo ao meio familiar. Arendt defende que a separação entre esses dois mundos apresentados não seja muito tangível, feito por um fino liame. Isso acontece no filme e é diferente do que ocorre nos EUA, no momento em que Arendt escreveu A Crise na Educação. Essa barreira entre os dois mundos é artificial, visto que o ser humano está em desenvolvimento; nos EUA não percebiam isso, no texto de Arendt, enquanto os professores do filme possuem essa concepção. Pois estes querem formar pessoas que entendem a concepção de liberdade, assim como também saber utilizá-la, objetivam formar os cidadãos do amanhã. E passam o conhecimento adquirido pela humanidade, até então, para os alunos.

Existe no filme outros pontos que Hannah Arendt poderia enxergar com bons olhos ao analisar aquela escola. Os professores colocam o conhecimento acima da vocação, não se prendem ao pragmatismo encontrado nos Estados Unidos por Arendt. Enquanto a preocupação dos professores no filme é com o conhecimento, na América se apegavam à técnica, estavam preocupados em passar a técnica aos alunos. E essa preocupação com a forma e não o conteúdo auxiliava na crise da educação, pois não havia aí a valorização do passado, como também não havia, graças a isso, a autoridade do professor. Dessa forma, o passado não era tão desenvolvido pelos últimos e Hannah Arendt considera a tradição – o conhecimento do passado – como elementar para a educação. Se nos Estados Unidos havia uma crise na educação por, entre outros motivos, falta de autoridade do professor, na escola do filme a autoridade do professor se dava pelo conhecimento – professor e alunos como contempladores do conhecimento – e, por valorizarem o passado, respeitavam-no. O professor era visto como um companheiro que olhava para o passado junto com seus alunos. A criança continuaria aquele mundo construído por seus antepassados, por mais que houvessem transformações, pois havia o contato entre o mundo das crianças e o dos adultos. Na América esse contato era difícil pelo fato de existir uma barreira maior entre o mundo da criança e do adulto.

Podemos constatar, pois, que muito do que Hannah Arendt considera como positivo na educação, está contemplado no filme Adeus, meninos. Mas afirma que a educação não deve voltar a ser daquela forma, não deve “regredir”, mas desenvolver uma teoria nova capaz de exercer aquilo que Hannah Arendt considera como sua função. E dado que o mundo está em constante transformação, a educação também deve estar.

O filme termina com o contato do ambiente escolar com o mundo dos homens. Fica claro, nesse momento, a representação da França através daquela microestrutura (escola). Ali havia conflitos entre classes – judeus e classe burguesa no núcleo das crianças, assim como conflito entre burguesia e classe subalterna, como no caso do garoto que trabalhava na escola e era humilhado pelas crianças. E também conflito entre o meio externo (Alemanha) e o interno (França) – pois a escola representaria a França enquanto o exército a Alemanha. Havia também a representação do Estado pela escola – embora não sendo constituinte da classe burguesa, os padres acabavam, em última instância, defendendo as crianças da classe subalterna3.

Havia delatores dentro da própria escola, mas o produtor do longa-metragem não expressa seu juízo de valor sobre quem está certo ou está errado naquela situação. Muitas vezes não conseguimos atinar se nossa ação é certa ou errada no momento da ação, mas sim após ela. Conforme salienta Neidson Rodrigues, o filme faz com que não tenhamos nosso passado como algo sem valor, mas que possamos aprender com ele e fazer com que, momentos como esse vivido pelo produtor, não voltem a se repetir. “Deve ser compreendido como um eloquente discurso contra o esquecimento que aliena os homens de sua responsabilidade no passado e os perdoa, previamente, da responsabilidade para com o futuro” (Rodrigues, 2003, p.47). A escola representava uma resistência para o posicionamento do Estado francês frente aos nazistas, mas acaba fechada após encontrarem judeus lá dentro.

Referência Audiovisual

Malle, Louis. Adeus, meninos (Au Revoir les Enfants). Alemanha: 1987.

Referências Bibliográficas

ADORNO, T. W. Educação e Emancipação. São Paulo: Paz e Terra, 1995.

ARENDT, Hannah. A crise na Educação in: Entre o passado e o futuro. São Paulo: Perspectiva, 2005. 5ª ed.

RODRIGUES, Niedson. Adeus, meninos: um discurso contra o esquecimento. In: Teixeira, Inês Assunção de Castro e Lopes, José de Sousa Miguel. In: A escola vai ao cinema. Belo Horizonte: Autêntica, 2003. 2ªed.

1Esse conceito, assim como o de mundo dos homens, será desenvolvido no decorrer da dissertação.

2Isso porque ele demonstra as leis dos homens através das regras postas mesmo dentro da sala de aula. Deve tratar a criança com mais seriedade do que ela é geralmente tratada no seu mundo. Ao mesmo tempo, o professor protege os alunos do contato mais direto com o mundo dos homens. Após esse período escolar a inserção da criança seria mais simplificada.

3Mas, nesse momento, devemos considerar os judeus, por serem alunos, como parte integrante dessa “elite”. Dessa forma a classe em dominante em si seria a dos alunos e o rapaz que fora mandado embora a classe dominada. O Estado defenderia, em última instância, a classedominante.


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