A Sociologia do patrão se recusa a habitar a escola

A reflexão que se segue é fundamentalmente baseada na minha experiência em atividades docentes em duas escolas de Campinas, Castinauta e Cotuca, por meio do Programa Institucional de Iniciação à Docência (PIBID), no subprojeto Sociologia, e pretende dar continuidade às reflexões presentes nos posts anteriores, inclusive nos comentários. Na medida em que o mesmo projeto teve diferentes maneiras de ser aplicado, respeitando os modos particulares pelos quais as escolas constituem suas relações cotidianas, a minha inserção nas escolas foi sempre acompanhada de uma “escuta social” do grupo escolar. A isso me refiro para justificar a exposição desse texto, pois, apesar de acompanhar as especificidades das escolas enquanto espaços socioculturais, também um corte transversal no quadro das relações sociais existe e dá dinâmica aos projetos institucionais que orientam as práticas docentes e a gestão escolar.

O Colégio Técnico de Campinas não possui a disciplina de sociologia e a presença do PIBID se justifica mediante a necessidade de responder às exigências recentes do Estado para cumprir com as condições mínimas de aprovação do funcionamento da unidade de ensino. Entretanto, vigora no colégio uma proposta bastante clara de valorização das disciplinas de exatas ou biológicas (a depender da área técnica), e consequente desvalorização das disciplinas de humanas. No primeiro ano do ensino médio os alunos não possuem aula de história, e no segundo ano a presença da disciplina na grade de horários resulta na saída da disciplina de geografia. O lugar da sociologia fica relegado ao lugar da disciplina de Ética e Cidadania, que aos poucos parece resultar numa substituição total.

As atividades que desenvolvi junto aos alunos do colégio técnico denunciaram o modo pelo qual organizam suas tarefas discentes. Os trabalhos da área de humanas ficam entre aqueles que serão realizados segundo a última posição da lista de prioridades escolares.

Enquanto isso, na escola Castinauta, a maioria dos alunos já está inserida no mercado de trabalho e o período das aulas coincide com aquele do ócio pós-trabalho. Em contrapartida, a resposta mais óbvia para a sociologia é a tentativa de articular a realidade social do trabalho desses adolescentes com a sociologia do trabalho, visando muni-los de conhecimento em vista da emancipação de classe.

Mas “falar de trabalho de novo” é um problema. Primeiro por que, como disse anteriormente, o horário de aula já é “inapropriado”, no sentido de ocupar o momento de ócio. Em segundo lugar, por que as relações de trabalho são definidores de boa parte do dia desses adolescentes. O resultado é que saem do trabalho para ouvirem falar de trabalho. São tomados como trabalhadores, e avaliados enquanto tais em seus empregos e na escola (por meio da disciplina e dos exames).

Nesse sentido, essa perspectiva eleva o mundo do trabalho ao centro articulador e definidor das relações sociais na escola, seja por meio do ensino técnico ou pelos propósitos emancipatórios da sociologia. A experiência docente nessas escolas sugere a formação técnica e o objetivo da consciência de classe como a autonomização do mundo do trabalho, de tal modo que esta subordina as demais posições, papéis, funções e instâncias da vida social e que podem mobilizar processos mais diversos na definição da pessoa.

O que pretendo afirmar é que mesmo a sociologia do trabalho está assentada numa relação de alienação do homem de sua condição humana, a saber, a função simbólica do espírito humano. As diversas estruturas que conferem inteligibilidade ao fenômeno humano, às relações sociais e à própria dimensão relacional da noção de pessoa são vencidas numa relação em que o exercício do poder tende à dimensão autonomizada (ou destacada e tornada independente numa endopráxis) da vida social. A sociologia que sobrevoa a escola e que se recusa a habitá-la na sua concretude sociocultural, alienadora no que se refere à dimensão sociocultural dos sujeitos da dinâmica da instituição escolar, está também a serviço do mundo do trabalho, e, por que não ser mais específico, é também uma sociologia do patrão, disciplinarizadora, inclusive, do ócio pós-trabalho.

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