Desafios do professor no ensino da sociologia

É certo que ao longo da história o significado do papel da escola e do professor sofreu constantes mudanças. Antes, o professor era o sábio que produzia o conhecimento e o passava aos seus alunos e a Escola, o local onde esse movimento do saber tinha seu lugar, ou seja, a escola tinha como função a instrução e formação de homens e mulheres aptos a viver em sociedade. Porém, com as transformações ocorridas nas diversas esferas – econômica, social, política e cultural – houve um esvaziamento da identidade e do significado do professor, sendo essa perda visível historicamente.

“A escola distanciou-se de sua função social de ser o espaço de aprendizagem e de construção do conhecimento, quando o professor tornou-se transmissor de lições e de modelos construídos por especialistas. Na medida em que passou a trabalhar com conteúdos sem significação para o aluno e tampouco para si, restou ao aluno copiar e repetir sem entender e ao professor copiar e repassar.”  88

E o gradual processo de fragmentação social que foi se instalando em nossa sociedade gerou mudanças tão impactantes que a escola se vê atualmente obrigada a repensar os conteúdos e a forma de ensiná-los e por em debate  a necessidade da formação integral, intelectual e política dos alunos. E é nesse contexto que a Sociologia é reinserida na grade curricular.

Busca-se aqui fazer uma análise sobre qual seria a forma mais apropriada de introduzir os conhecimentos da Sociologia na escola e qual o papel do professor nesse processo. Uma forma de introduzi-los se daria através do diálogo dialético que ajuda a desenvolver a inteligência e o senso crítico dos alunos, dando lhes base para compreender os acontecimentos vividos ou presenciados. É importante reforçar a ideia de trabalhar com o aluno em sala de aula a relação de aproximação dos conceitos dados com a realidade vivida por eles, porém isso não exclui a importância e a necessidade de apresentá-lo a outras realidades.

Além de uma remodelação na forma de ensinar do professor não podemos deixar de lado outro problema que há décadas afeta a educação, sua desestruturação e precarização. O ensino precisa ser reestruturado e não pode funcionar apenas como um reprodutor do conhecimento científico. É necessário organizar sua estrutura a fim de que consiga dar ao conhecimento científico uma forma que seja inteligível ao aluno, e este, ao compreender o conteúdo de forma crítica desenvolverá ferramentas que lhe possibilitaram constantes redescobertas. Ou seja, é de extrema importância que os saberes e categorias da Sociologia clássica sejam trabalhados e ensinados de forma contextualizada e em concordância com a realidade da classe, sendo possível seu diálogo com a realidade social, cultural, política e econômica dos alunos.

Segundo uma pesquisa realizada por Araújo, Bridi e Motim – contida no livro Ensinar e aprender Sociologia, São Paulo: Contexto, 2009 – quando os alunos de uma turma selecionada pelas pesquisadoras foram questionados sobre como um professor deveria ensinar, eles disseram que um bom professor tem a responsabilidade de relacionar a disciplina à realidade deles, assim os conteúdos passariam a ter significado, o que possibilitaria a incorporação dos conhecimentos a suas vidas. Ou seja, os conteúdos que aprendem devem fazer sentido para eles e isso é fundamental para que dêem importância a educação.

Concordo com o que foi destacado no livro e acredito que essa forma de aprendizagem, onde o professor tem como responsabilidade adequar os conteúdos da sociologia à realidade dos alunos, é a melhor forma de atingir uma educação emancipatória, ou seja, aquela educação que oferece aos alunos ferramentas e conceitos palpáveis que os possibilitará interagir de forma critica na sociedade.

Outra questão relevante na discussão sobre o papel do professor no ensino da sociologia é até que ponto o professor deve ou não ser neutro. Se tomarmos como verdadeira a ideia de que o mundo é ideológico, isto é, toda opinião carrega implicitamente ideologia e a imparcialidade não existe, conseqüentemente isso se estenderia até a realidade da sala de aula. Com isso, caberia ao professor usar suas impressões para conduzir e estimular as opiniões contrárias a fim de gerar o debate em sala de aula e mostrar aos alunos os vários pontos de vista, tomando cuidado para não impor sua visão sobre eles. Por fim, a neutralidade absoluta não é possível cabendo ao professor a responsabilidade de analisar os conteúdos e transmiti-los de maneira que instigue o diálogo entre a classe e faça com que os alunos pensem criticamente sobre o assunto e tirem suas conclusões com base no debate guiado pelo professor.

E para fazer isso o professor precisa buscar tomar consciência de seu papel de formador e sensibilizador do debate, trazendo informações e noticiais motivando os alunos a pensá-las de forma diferente da que estão acostumados quando tem acesso via internet ou televisão. Recebendo, assim, o estimulo necessário para fazer questionamentos e reflexões sobre posicionamentos críticos diferentes.

E nesta etapa o professor tem grande importância, pois precisa lidar com outro problema além da formação dos alunos. Falava-se muito sobre a falta de acesso a informação, porém acredito que o acesso a informação é possível a todos, mas a forma como cada um absorve essa informação é que realmente é o problema da questão. Já que, “as informações proporcionam visões de mundo estereotipadas e legitimadoras das causas das classes dominantes, [e] imprimem certa ‘naturalização’ [de] fenômenos que são de ordem eminentemente social”. (BRIDI; ARAÚJO; MOTIN, 2009, p. 78)

Sendo a tendência e veracidade da noticia os maiores problemas da mídia e o acesso ilimitado dos alunos a uma gama de conteúdos – os quais nem sempre é possível comprovar sua origem ou veracidade – o professor acaba ganhando o papel de guiá-los e debater com eles a validade dessas informações, assim, saberão filtrar o conteúdo a que são expostos.

Partindo do que foi discutido até agora acredito ter chego a duas conclusões, primeiro, a de que é preciso partir da realidade do aluno para mostrar a ele um novo mundo e que é preciso reorientar o uso que este faz da internet, buscando introduzir nele uma apreciação crítica do que é visto por ele na mídia, para que esta colabore em seu aprendizado de forma saudável.

Por fim, o professor precisa ter autonomia em seu trabalho, trazer como bagagem os conhecimentos aprendidos em sua formação e fazer uso de argumentos que o ajude a mediar a aprendizagem e o permitam construir o conhecimento em sala de aula. E para que isso se dê de forma eficaz “a palavra chave é autonomia de trabalho, pois sem ela não há criação, nem inovação, tampouco verdadeira interação com o aluno”. (BRIDI; ARAÚJO; MOTIN, 2009, p. 81)

Concluindo, é papel do professor em conjunto com a escola – sem retirar a responsabilidade formadora de outras instituições como a sociedade e a família – entregar ao aluno algumas das ferramentas necessárias que serão utilizadas em sua vida escolar, bem como em outras experiências vividas futuramente por esse jovem. O debate deve ser sempre gerado e estimulado. O professor precisa resgatar seu papel chave no desenvolvimento da disciplina e percepção da realidade para ajudar a construir um currículo para a Sociologia que passe um ensino de qualidade e que, através do trabalho conjunto com a escola, esteja em constante reconstrução, para passar aos alunos os conteúdos de forma atual e crítica preparando-os para a vida em sociedade.

 

Bibliografia:

BRIDI, M. Aparecida; ARAÚJO, Silva M. de; MOTIN, Benilde L. (orgs) Ensinar e Aprender Sociologia. São Paulo: Contexto, 2009

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  1. Ferreira

    Post interessante, mas merece uma revisão.




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