KARL MARX E EDUCAÇÃO II: Contribuições do pensamento marxista de Gramsci

Este post é uma continuação do anterior no sentido de atualizar as referências que podemos estabelecer entre o pensamento marxiano e a Educação. Anteriormente concluímos que a Educação mantém uma relação estreita, condicional, com a alienação – cerne do modo de produção capitalista. Podemos acessar este post a partir do link: https://escsunicamp.wordpress.com/2011/11/30/karl-marx-e-educacao/

Agora, com esta publicação, faremos referência a Antônio Gramsci (1891 -1937), pensador marxista italiano, o qual sugere que a educação e o processo educativo podem superar a alienação do trabalho, contribuindo ativamente para com a transformação e superação da sociedade capitalista. Baseamos estes argumentos no texto de Ailton Pereira Morila e Regina Célia Mendes Senatore (referência ao fim do texto).

Como a educação pode superar a alienação? Antes, é preciso se ater ao princípio do trabalho (o qual abarca o conceito da alienação), ponto central para pensar a Educação sob este perspectiva.

O trabalho, nesta perspectiva, é entendido como essência do ser humano – não apenas no sentido prático de atividade produtiva, pela qual utilizamos o termo usualmente. O trabalho, portanto, em seu sentido genérico, seria a relação primeira que o homem estabelece com a natureza, transformando-a e transformando a si mesmo, incessantemente, num processo dialético. O trabalho é, portanto, a atividade vital que engendra a cultura, que forja a consciência e que principia a organização política e as relações sociais entre os homens. Numa frase, o homem é fruto do seu trabalho. Após a satisfação das primeiras necessidades (comer, beber, proteger-se do frio, descansar etc.), conseguidas pelo trabalho, o ser humano gera para si outras necessidades. A partir daí, pelo aumento do processo de produção e da complexidade social, aumenta-se também a divisão do trabalho, que inicialmente adota como critério os aspectos físicos e biológicos (homem caça e mulher cuida do lar, por exemplo) e, noutros casos, como se percebe na história da sociedade civilizada, ocorre a divisão social do trabalho – na qual o critério é a posição que o indivíduo ocupa na estrutura daquela sociedade – no processo produtivo. Sob este critério, a divisão mais elementar é a diferenciação entre trabalho intelectual e trabalho manual: “é esta divisão que engendra a propriedade privada” (MORILA e SENATORE, 2010, p. 2); ou como afirma Marx, esta divisão do trabalho e a propriedade privada são “expressões idênticas: a primeira enuncia em relação à atividade, aquilo que se enuncia na segunda em relação ao produto da atividade” (MARX, 1986, p. 46). Neste quadro, o trabalho do homem se torna alienado, visto que obedece aos interesses de classe, em que as riquezas produzidas por uns são apropriadas por outros, em que a regra é: proteger e garantir a propriedade privada. Esta e os interesses a ela vinculados passam a ditar os rumos da organização social – inclusive dentro da escola, através da propagação da ideologia burguesa.

Seria a partir dessas compreensões que podemos pensar em transformar a escola e o processo educativo. Sobre isto, é importante atentar ao fato de que Karl Marx não conferia grande peso ao potencial revolucionário da escola. Apesar de o autor considerar a importância da transformação neste âmbito somando-se dialeticamente com o acirramento da luta de classes, Marx focava o maior peso na fábrica – no cerne do modo de produção capitalista e da transformação social. Há de se considerar que, no contexto de Marx (século XIX), o acesso à escola era escasso, pouco acessível; e as escolas disponíveis para os trabalhadores eram estritamente técnicas e operacionais, no sentido exclusivo de formar mão-de-obra capaz de operar máquinas e de cumprir os seus serviços na fábrica. Mesmo assim, considerava que a educação poderia desempenhar um papel revolucionário no interior do ambiente fabril. Dentro da fábrica, teria de ser desenvolvido um projeto de educação que conciliasse o trabalho técnico ensinado ao operário, com o ensino intelectual, este nunca desenvolvido junto com a massa trabalhadora. Segundo eles, Marx reivindicava uma educação que valorizasse não apenas as mãos dos trabalhadores, mas também o cérebro, no sentido de situá-los em sua condição histórica e de classe. A superação da alienação seria, portanto por meio da formação sobretudo das crianças no interior das fábricas.

Digamos que a contribuição de Gramsci é uma atualização do pensamento marxiano sobre Educação porque o contexto histórico do século XX já era diferente. Com a consolidação do Estado burguês inicia-se um processo que bem podemos perceber atualmente: a escola burguesa universalizou o ensino e o acesso à escola. Isto confere a esta instituição um peso bem maior quando comparado aos meados do século XIX. Gramsci dimensiona este novo peso e confia nestas instituições ideológicas – como é o caso da escola – um tremendo poder de transformação social.

Diferentemente de Marx, o qual pensa a educação a partir da fábrica, Gramsci toma como ponto de partida a cultura. Para o autor, a sociedade pode ser dividida entre sociedade política (o âmbito do governo e dos aparelhos coercitivos – onde se estabelece a dominação) e sociedade civil (o lugar dos aparelhos ideológicos, da hegemonia e do consenso, onde transitam as ideias que são aceitas pelo senso comum – onde se estabelece a direção); como numa equação, a soma das duas é o que podemos chamar de Estado. Com esta distinção, Gramsci confere muito peso ao que se passa no âmbito da sociedade civil, onde, por exemplo, atua a escola. Isto porque, a dominação (aqueles que governam) não se mantém se não houver consenso (que é o senso comum); ou seja, para uma classe ser dominante os seus interesses têm de ser hegemônicos no âmbito da sociedade civil. A escola, portanto, a serviço da classe trabalhadora, tem o potencial revolucionário de subverter os valores dominantes burgueses, a partir de uma propagação ideológica contra hegemônica. Neste sentido, o autor enxerga a escola como um espaço propício e essencial para a transformação da sociedade, como afirmam Morila e Senatore, tendo em vista que a escola pode instrumentalizar a classe trabalhadora para que esta possa, em união, superar o estado atual das coisas.

Além disso, Gramsci acredita que a transformação intelectual e moral das pessoas é condição para a revolução das condições materiais da sociedade. O processo é dialético, sendo um condição para o outro – por isso a tamanha necessidade de desenvolvê-los e articulá-los no sentido da transformação social como um todo. No que concerne à escola, ela propicia a elevação cultural das pessoas, o que é condição para o processo revolucionário. Neste sentido, o papel da escola tem por dever o papel fundamental de desenvolver intelectuais orgânicos, isto é, pessoas compromissadas com o materialismo histórico e dialético, e com a superação do trabalho alienado. Como? Suas acepções não diferem muito daquelas que Marx havia afirmado anteriormente. Gramsci reivindica o espaço da escola, enquanto o pensador alemão prevê o desenvolvimento da educação no interior da fábrica. Para além disso, Gramsci afirma que o ensino técnico (profissionalizante) deve ser conciliado com o desenvolvimento intelectual do indivíduo, no sentido da formação de intelectuais orgânicos – os quais contribuem ativamente para com a transformação da realidade social. Este é o ponto para superar a alienação.

É óbvio que a tarefa não é simples, ainda mais tendo em vista o aprofundamento das condições precárias dentro da escola e que acometem todo o sistema educacional brasileiro: os baixos salários, a falta de infraestrutura, de investimentos, o sucateamento da escola pública e do favorecimento das instituições de ensino privadas, a má formação dos professores e educadores, a incompatibilidade do material de ensino proposto com a realidade dos alunos e alunas; ou seja, a escola quase como um depósito obrigatório; como algo que mesmo inconscientemente nota-se que perdeu, ou mesmo não possui claramente, um sentido. Podemos assim afirmar se quisermos tirar um retrato estereotipado da educação brasileira. Contundo, diante de todas as adversidades é necessário lutar em nome de uma educação pública de qualidade. A tarefa não é simples, mas um passo importante é justamente trocar ideias, transmitir pensamentos que se elaboram a partir da crítica para que a realidade injusta venha à tona, para cada vez mais pessoas. O professor pode juntar forças e plantar muitas sementes com o seu trabalho. É um dos principais que sofre com o trabalho alienado e com as péssimas condições, ao mesmo tempo em que tem o poder de dialogar com muitos indivíduos acerca das questões que cercam tanto a sua quanto a vida deles. As contribuições de Marx e Gramsci são imprescindíveis, tanto para a reflexão, quanto pelo estimulo e o vislumbramento real de uma ação, de um comportamento, que busca, sobretudo, a emancipação do ser humano em prol dos interesses populares.

Textos de referência:

MORILA, Ailton Pereira e SENATORE, Regina Célia Mendes. Trabalho e Educação em Marx e Gramsci. In: Revista da Rede de Estudos do Trabalho, Ano III, n. 6, 2010.

MARX, K.; ENGELS, F. A ideologia alemã. 5. São Paulo: Hucitec, 1986.

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