KARL MARX E EDUCAÇÃO I

Tratamos anteriormente sobre a visão de Durkheim sobre a Educação, demonstrando o quão presente estão as suas contribuições sobre a realidade do século XXI. O autor compreende a Educação enquanto um fenômeno social fundamental para manter a vigência da sociedade. A Educação transmitida, ou reproduzida por meio do processo educacional, estabelece o que é o certo e o que é errado – através da transmissão das normas e valores prezados pelo meio social – e reproduz a lógica da especialização e da produção – pilares da economia política atual – ao fragmentar o saber por conta das diversas áreas profissionais existentes, as quais, em união, permitem o funcionamento orgânico da sociedade. Durkheim também previa a privatização das escolas (que é a “casa da Educação” desde a consolidação do Estado burguês) e a despadronização da qualidade do ensino – escolas “boas” e escolas “ruins” – pois esta lógica obedece a mesma lógica da desigualdade social existente no âmbito da economia política. Podemos acessar o post sobre Durkheim neste mesmo blog através do link: https://escsunicamp.wordpress.com/2011/11/16/durkheim-e-educacao-realidade-do-seculo-xxi/

Uma pequena observação:

Pretendemos, com estes textos, relacionar a própria atividade do professor – e de toda a escola – com os principais nomes da sociologia, num sentido de estimular a reflexão sobre a sociedade a partir da própria atividade para a qual se destina as contribuições deste blog. É fundamental que o professor de sociologia transforme a sua própria atividade em objeto de reflexão pois assim, além de trazer os alunos junto da crítica, possui um maior cabedal para saber como lidar com a turma e proporcionar momentos proveitosos.

*                                                  *

Neste post trataremos da contribuição de outro pensador sobre o mesmo tema. Qual é a contribuição teórico-metodológica que Karl Marx (1818 – 1883) pode dar sobre a história da educação e sobre o processo, ou sistema educacional?

O primeiro ponto a ser considerado é que o autor do século XIX não dedicou muitos escritos diretamente sobre o tema. Desse modo, o que se pode fazer é, sobretudo, desdobrar o pensamento marxiano para o campo da Educação. Assim faz João Carlos da Silva, educador brasileiro contemporâneo, o qual parte dos Manuscritos Econômicos e Filosóficos de 1844 e da Crítica da Educação e do Ensino, ambas as obras de Marx, para chegar a conclusões mais gerais do pensamento do alemão sobre o tema.

Nesta perspectiva, a Educação é entendida dentro da dinâmica do capital; e mais, como reprodutora das condições de trabalho alienantes – reprodutoras da ideologia burguesa.

Segundo João Carlos da Silva, o ponto central para pesarmos a Educação sob este prisma é a partir do conceito de alienação. Isto porque esta é a marca fundante do capitalismo; e mais: a alienação é a condição de vida, de todos os homens e mulheres que vivem na sociedade capitalista. A lógica do capitalismo é alienante. Somos alienados, em primeiro plano, pela própria posição que assumimos no processo de produção. Alienados por vivermos numa sociedade de classes. Mas, de modo mais claro,o que seria esta alienação no contexto capitalista?

A alienação é uma condição que tem origem na divisão social do trabalho, sendo a mais elementar a divisão do trabalho manual e intelectual; a partir daí surge a alienação, processo em que o trabalhador distancia-se e separa-se da riqueza que produz pois ela não mais lhe pertence – pois pertence ao capitalista, outro ser humano que explora o seu trabalho e lucra com esta exploração. Neste contexto, o homem torna-se mercadoria, numa conjuntura em que o pensamento dominante fica imbuído pelo conceito e pela realidade da propriedade privada, a qual deturpa a relação entre os homens, engendrando um mundo pautado pela concorrência de todos contra todos, o que distancia todos da sua condição plena de ser humano, generalizando portanto a condição de alienação. A sociedade capitalista é essencialmente uma sociedade alienante, pois a alienação elementar está no cerne do seu modo de produção.

Para ficar mais claro consideremos que o trabalho, na fábrica por exemplo, é um trabalho alienado. Por quê? Sob a lógica alienante do capital, a atividade produtiva, o nosso “trabalho” do dia-a-dia torna-se um meio de sobrevivência, no qual o trabalhador não reconhece a sua individualidade, nem pretende encontrar no trabalho a sua maior satisfação, mas pelo contrário, se utiliza do trabalho para satisfazer outras necessidades que lhe são alheias; ou seja, trabalhamos porque temos de trabalhar, mas não aproveitamos a riqueza do nosso trabalho e este tão pouco contribui para com as necessidades humanas do homem, limitando-se male má às satisfações materiais de vida do trabalhador. É neste sentido que podemos pensar o trabalho/atividade na escola – um centro que produz educação. A escola cultiva o conhecimento como o meio necessário para que o aluno possa concretizar uma vida de sucesso material fora da escola. Pragmatiza este projeto de vida inserindo na cabeça dos envolvidos no processo educacional a necessidade do estudo para uma boa inserção no mercado de trabalho. Tudo isto é feito sob a lógica da especialização e da produção, próprias de um mundo regido pelo capital. Educa-se sob os limites da alienação.

A fim de desenvolver este raciocínio, João Carlos da Silva faz uma comparação entre a realidade de uma fábrica e a realidade escolar. O traço comum é que estruturalmente os dois espaços funcionam do mesmo modo, ou com o mesmo propósito, tendo em vista que as pessoas neles inseridas trabalham em função do capital. Para o autor, este paralelo é importante de ser traçado, visto que a atividade dos alunos na escola é uma expressão da atividade que ocorre no seio do modo de produção capitalista, que é, por excelência, a produção fabril. Nestes termos, assim como numa fábrica, na escola os professores e os alunos são cobrados por aquilo que produzem e pelo o que devem produzir. As notas, as pontuações, os certificados e os diplomas são elementos que cumprem o mesmo papel que o salário tem para o trabalhador na fábrica; ou seja, servem como recompensa, ou bonificação pelo trabalho produtivo realizado pelo aluno na escola.

Neste sentido, o autor conclui que a escola está longe de ser um espaço de humanização, pois está diretamente ligada aos valores da economia burguesa, que essencialmente vincula o homem ao processo produtivo, numa produção de riqueza alienante. Neste caso, reproduz o conhecimento de forma utilitarista e técnica, fragmentando-o e especializando o saber. O saber torna-se um meio, não havendo satisfação em si do conhecimento – o que, para além de trazer unicamente um retorno material, contribui diretamente para com a emancipação e o desenvolvimento intelectual do ser humano. A educação burguesa, portanto, ignora a sensibilidade do aluno, pois está interessada exclusivamente na capacidade de produção destes estudantes, impondo a eles uma concepção de trabalho produtivo. Embrutece estes indivíduos pois coloca a teoria antes da prática, distanciando-os das qualidades e dos interesses reais que estes alunos poderiam ter sobre os mais diversos campos do saber, pois os entenderiam primeiramente na prática e em conjunto, na organicidade da realidade. No sentido contrário, a escola burguesa fragmenta e teoriza o conhecimento, compartimentalizando-os em disciplinas distintas, que exigem profundas especializações por parte dos alunos, evitando qualquer tipo de interdisciplinaridade. Nestes marcos atuais, João Carlos da Silva considera que, assim como a fábrica e/ou a empresa capitalista, a escola também cultiva e impõe a alienação do ser humano.

De modo não muito distinto, os apontamentos de Durkheim e de Marx sobre a Educação coincidem. Ambos a consideram como instituição fundamental que mantém o estado de coisas, a vigência orgânica e estrutural da sociedade da época. Escola enquanto reprodutora ideológica e berço dos futuros homens e mulheres que, trabalhando, darão continuidade à vida social e à dinâmica do capital, nos termos de Marx. Desdobrando o pensamento de Marx, chegamos a termos mais precisos, quando comparados às colocações de Durkheim. A escola é uma instituição alienante e alienadora.

Cabe, agora, a seguinte reflexão: é possível transformá-la?

texto de referência:

SILVA, João Carlos da. Educação e Alienação em Marx: Contribuições teórico-metodológicas para pensar a História da Educação. In: Revista HISTEDBR On-line, Campinas, n. 19, p. 101-110, setembro 2005.

Anúncios



    Deixe um comentário

    Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

    Logotipo do WordPress.com

    Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

    Imagem do Twitter

    Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

    Foto do Facebook

    Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

    Foto do Google+

    Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

    Conectando a %s



%d blogueiros gostam disto: