“O papel transformador da esperança e do sonho”: a Utopia como uma dinâmica temporal.

Este texto se propõe a ser um complemento teórico às últimas aulas sugeridas pelo caderno de Sociologia do Ensino Médio do estado de São Paulo, contidas na situação de aprendizagem denominada “O papel transformador da esperança e do sonho”. Como reforço reflexivo, será trazido à tona o texto “Para uma sociologia das ausências e uma sociologia das emergências”, de Boaventura de Sousa Santos.

ImageAntes de iniciar a proposta, convém fazer o elogio à comissão que redigiu os cadernos, devido à opção metodológica que tiveram em alocar a temática da tríade esperança-sonho-utopia no último capítulo, do último caderno do último ano de ensino. Acredito que esta discussão fecha a disciplina com chave de ouro, oferecendo aos estudantes uma possível resposta à questão mais insurgente após três anos aprendendo Sociologia: o que fazer com isso tudo que aprendi? Para quê serviram todas essas teorias que estudei durante meu Ensino Médio?

Espera-se que o aluno, tendo obtido ferramentas para compreender melhor a realidade social e os problemas e contradições que a compõem, entenda que à partir destas mesmas ferramentas pode pensar em soluções e possíveis alternativas que visem a melhora dessa realidade. Em outras palavras, a intenção é a de que o aluno, enxergando-se como sujeito social através das lentes da Sociologia, possa se enxergar também como um agente social: que participa, que critica e que, eventualmente, transforma.

Como exemplos de transformação social por meio da esperança e do sonho, o caderno se utiliza das experiências de três importantes personagens históricos: Mahatma Gandhi, Martin Luther King e Nelson Mandela. Estes três homens, em seus dados contextos históricos, defenderam causas coletivas que visavam a mudança e a solução de problemas sociais. Optaram, deste modo, pela luta concreta de suas utopias[1], evitando a resignação e o conformismo, elementos que Boaventura de Sousa Santos reconhece como característicos daquilo que denomina de “razão indolente”.

Segundo o autor, esta forma de pensar o mundo – que é também uma forma de pensar o tempo! – tem se fortalecido cada vez mais na atualidade, sendo marcada fundamentalmente por dois fatores: a contração radical do presente e a expansão infinita do futuro. Com o tempo presente contraído, reduzido a um momento efêmero e fugaz, cria-se a sensação de que não há tempo suficiente para quaisquer tipos de mudanças sociais de larga escala. As utopias, neste sentido, tomam literalmente seu sentido etimológico de “não-lugar”, localizando-se num futuro abstrato que se encontra num ponto infinito do tempo, extremamente distante e independente do presente, que surgirá – sabe-se lá quando! – pela progressão “natural” dos eventos históricos.

ImageComo alternativa, o texto propõe uma inversão paradigmática: a “razão cosmopolitana”, que expande o presente (expandindo também as possibilidades de experiências sociais e humanas) e contrai o futuro, aproximando-o de nosso tempo e conferindo maior responsabilidade às nossas ações. Afinal, se o futuro não é infinito num tempo abstrato, existe a possibilidade de que, por culpa do imobilismo, não haja nunca um “final feliz” na narrativa temporal do homem.

ImageNeste sentido, cabe interpretar a utopia e a resignação como opções políticas que reverberam na história quando tomadas coletivamente. A Sociologia no Ensino Médio pode ser um bom recurso não apenas para a compreensão desta informação, mas também para a prática política daqueles que, sob as diferentes matizes, pretendam participar do caminho da utopia. Ao invés do “tudo” (aquilo que existe) e do “nada” (o que não existe), Boaventura de Sousa Santos utiliza-se dos escritos de Ernst Bloch para propôr um novo par: o “não”, a negação do que existe, e o “ainda não”, a aceitação de que há algo novo que pode vir a existir.

 

[1] O caderno se refere à palavra utopia no sentido dado por Karl Mannheim, consistindo num sistema de pensamento formado em determinado contexto sócio-histórico e que se põe em desacordo com este.

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