Sociologia no Ensino Médio: o estranhamento e a desnaturalização dos fenômenos sociais na prática pedagógica

O objetivo deste artigo surge na tentativa de se discutir algumas questões e possibilidades do ensino da disciplina de Sociologia no Ensino Médio a partir de um caminho de análise que sugere a ampliação das alternativas para a prática docente.

Num primeiro momento, é importante destacar um princípio epistemológico que caracteriza a estrutura da pesquisa e do ensino das Ciências Sociais, ou seja, que aparece como perspectiva, como fundamento para o desenvolvimento do ensino da Sociologia no Ensino Médio: O movimento de estranhamento e desnaturalização.

O movimento do estranhamento é o ato de estranhar no sentido de se admirar, de se espantar diante de algo que não se tem conhecimento ou costume; pode-se alcançar o “estranho” ao perceber algo ou alguém de forma diferente do que se conhece, ao assombrar-se em função do desconhecimento de certos fatores, ao se sentir incomodado diante de um fato novo ou de uma nova realidade, ao não se conformar com algo ou com a situação em que se vive; ao não se acomodar. Ao rejeitar.

O Estranhamento, nesse sentido, se apresenta ao ensino das Ciências Sociais como uma via que possibilita no individuo o surgimento de uma vontade primeira do saber, de uma vontade em se conhecer o novo, em se habituar a ele e assim o entender melhor. Surge como uma ferramenta essencial para o início da problematização de um fenômeno social a partir das perguntas que suscita em cada aluno: “Por que isso ocorre?”, “Sempre foi assim?”, “É algo que só existe agora?”. Por exemplo, frente à questão da violência podemos perguntar: “Houve violência em todas as sociedades?”,  “Como era a violência na Antiguidade?”, “Em outros países, há a violência que vemos no nosso cotidiano?”, “Há um só tipo de violência?”, “Quais as razões para tais e quais tipos de violência?”, etc. Estranhar as situações, inclusive as que fazem parte da experiência de vida do aluno, é uma condição necessária às Ciências Sociais. O estranhamento possibilita o início de um movimento capaz de caminhar para além das interpretações marcadas pelo senso comum. Surge como uma maneira de se começar a estruturar o objetivo de uma análise sistemática da realidade.

Ao lado do estranhamento, outro movimento epistemológico tem papel importante na fundamentação do ensino da disciplina de Sociologia no Ensino Médio: a desnaturalização.

É comum ouvirmos no cotidiano da prática pedagógica a expressão: “Isso é natural”. Esta expressão aponta para a idéia de algo que sempre foi, é ou será da mesma forma, imutável na relação tempo e espaço. Em consequência, por exemplo, podemos nos deparar com uma situação assim: “É natural que exista a desigualdade social, é normal, afinal ela sempre existiu e sempre existirá. O mundo é assim mesmo”. Dessa forma, os indivíduos manifestam o entendimento de que os fenômenos sociais são de caráter natural, ou seja, não lhes é sabido que tais fenômenos são na verdade constituídos socialmente, isto é, historicamente produzidos e reproduzidos, resultado das relações sociais em suas mais diversas estruturas. A desnaturalização das concepções a respeito dos fenômenos sociais surge como um papel central do movimento do pensamento sociológico.

 Há desestruturação da tendência de se compreender as relações sociais, as instituições, os modos de vida e de organização das sociedades, o aparato político, etc., a partir de argumentos “naturalizadores” possibilita o resgate, primeiro, da historicidade desses fenômenos e, segundo, da noção de que certas mudanças ou continuidades históricas decorrem e dependem de um jogo de poder calcado em razões objetivas.

Um paralelo entre a noção do estranhamento e da desnaturalização nos leva de encontro à noção de que a vida em sociedade estrutura-se de forma dinâmica, ou seja, está em constante processo de transformação; constitui-se a partir da multiplicidade das relações sociais que, por sua vez, são capazes de revelar as mediações e as contradições da realidade objetiva de um período histórico. É também apreendida por um conjunto de ações capazes de alterar o curso dos acontecimentos, provocando transformações notórias nas formas de organização humana. O saber sociológico, portanto, pode ser construído a partir da sistematização teórica e prática do processo social.

Dessa forma, a postura inicial de atuação das Ciências Sociais no Ensino Médio pode ser compreendida pela superação do senso comum em direção a uma análise científica da sociedade. O movimento de estranhamento e desnaturalização mesmo diante de situações tidas como óbvias, como, por exemplo, na temática familiar, confere especificidade ao ensino da Sociologia, pois permite que fenômenos aparentemente consolidados suscitem dúvidas, revelem contradições, etc.

O processo de estranhamento oferece ao aluno um ponto de partida, uma possibilidade para o desenvolvimento de um saber capaz de levar o indivíduo de encontro a um debate mais amplo. Somado a isso, a desnaturalização surge como o início da superação de certas noções consolidadas naturalmente, o que permite que o aluno ultrapasse os limites do senso comum. Esse movimento permite ao individuo inquietar-se criticamente com questões corriqueiras e consagradas pela normalidade.

O pensamento sociológico propicia aos jovens o exame de situações que fazem parte do seu dia a dia, imbuídos de uma postura crítica e investigativa, quando traz à tona a tarefa do estranhamento e da desnaturalização dos fenômenos sociais. Despertar no aluno a sensibilidade para perceber e modificar o mundo à sua volta deve ser a tarefa de todo professor.

Bibliografia:

Coleção Explorando o Ensino – Sociologia : ensino médio / Coordenação Amaury César Moraes. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Básica, 2010. (Coleção Explorando o Ensino; volume 15).

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