As Inovações do Pensamento Sociologico de Latour

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Um das criticas feitas pelo professor Pedro Peixoto em sala de aula, em relação os atermos muito ao “senso comum sociológico”. Isto significa ater-se somente ao que já foi “canonizado”, legitimado e definido na historia da sociologia, significa não olhar para o que se tem produzido de novo em termos empíricos, metodológicos e/ou teóricos.

Pretendo fazer uma descrição breve de aspectos da teoria de Latour que possam ser interessantes de serem ensinados numa aula de ensino médio. Não pretendo realizar aqui um trabalho de aprofundamento na teoria de Latour, mas tentar produzir um texto que sirva para orientação para uma aula ou algumas. Uma das dificuldades de se ensinar o pensamento deste autor para uma turma do ensino médio será fazer com que os alunos compreendam do que ele se trata. Ora, mas por que os alunos teriam problema em compreender o pensamento de Latour? Creio que isso possa decorrer não só por ser uma pensamento novo, mas principalmente por contrair profundamente muito do tem-se estabelecido acerca do que pensava-se, por exemplo, acerca da ciência e da sua relação com a sociedade ou da religião e sua relação com a ciência.

Bruno Latour é um dos autores contemporâneos que tem trazido criticas e inovações para a área da sociologia, da antropologia e da filosofia. Possuo maior familiaridade com o pensamento de Latour que refere-se a ciência e a religião.

Uma da inovações de Bruno Latour é ter feito de cientistas seus nativos. Ter realizado uma etnografia dentro de um laboratório, acompanhando cientistas e ter relatado o que ele observou sobre como um conhecimento, teoria, técnica é desenvolvido e como é possível a realização disto. Observou como ocorre o processo de legitimação de uma profissão frente à sociedade, ao Estado e à comunidade cientifica, como ocorre o desenvolvimento de uma nova teoria, conceito, técnica e como acontece a propagação desta na comunidade cientifica. Assim revela os processos de tradução pelos quais algo da materialidade, como uma amostra de sangue ou uma rocha, podem ser transcritas e/ou descrita, por exemplo, num periódico cientifico.

No livro A Esperança de Pandora um dos objetivos do autor é desconstruir a percepção da ciência como algo separado do resto da mundo social, regido por forças, leis e logicas próprias. O trabalho cientifico, na realidade, ainda pra Latour, não acontece separado de todo o resto do mundo humano, depende profundamente deste tanto para ser realizado quanto para que alcance legitimidade e possa, por fim, produzir algum resultado no mundo.

No livro é citado o caso do inicio do desenvolvimento da bomba nuclear pelo cientista Frederic Joliot1. Latour mostra como condições históricas, sociais, econômicas e sociais fazem parte também da construção da ciência e do conhecimento cientifico.

Ele não afirma que a ciência seja puramente constituída social e politicamente, tampouco que ela seja construída apenas pelos procedimentos de laboratório e inovações teóricas. O autor combate a separação entre estas duas realidades.

A historia sobre o desenvolvimento da bomba nuclear passa pelas descobertas e experimentos feitos no laboratório e pelas história dos acontecimentos fora dele. Por exemplo, não é suficiente dizer apenas sobre os princípios sobre reação em cadeia, urânio, parafina e deutério , nem só apenas falar sobre a segunda guerra mundial, o interesse do governo francês em obter o mais rápido possível a bomba nuclear ou sobre a serie de rituais sociais pelos quais Joliot teve de passar para legitimar-se como cientista. As duas realidades conectam-se, misturam-se, por exemplo, as propriedades físicas especificas do urânio e da água pesada misturam-se e interagem com a segunda guerra mundial, com a comunidade cientifica da época e com a aproximação do exercito alemão de Paris.

Para realizar seu trabalho Joliot não pode imergir na atividade do laboratório, desconectando-se do mundo e dos acontecimentos ao seu redor. Ele necessitou justamente interagir, integrar-se, recorrer a pessoas, instituições e acontecimentos que, poderia se dizer, não tinham nada a ver a com o urânio e com um reator nuclear. Por exemplo, precisou estabelecer contato com o ministro da guerra da França a fim de convencê-lo a financiar sua pesquisa, pedir a Union Miniere que lhe fornece o urânio que tratava como refugo, ter a sorte de encontrar uma empresa norueguesa que produzia a água pesada2 da qual necessitava, item difícil e raro de ser obtido no período, e convencê-la a vender esta a ele, conseguindo que esta chegasse até a ele, durante a 2ª guerra. No fim percebe-se a profunda conexão que estabeleceu-se entre forças e instituições sociais, o momento histórico, actantes como o deutério, a parafina e o urânio, indivíduos como Joliot e a comunidade cientifica do período, para que a bomba nuclear pudesse ser produzida.

O processo do desenvolvimento da bomba deve ser contado levando-se todos estes fatores em consideração. Além disso, deve-se reconhecer a devida capacidade de agência de cada uma das partes envolvidas, ou seja, de atuarem modelando os acontecimentos e a realidade. No pensamento de Latour não são só os homens e/ou as forças e instituições humanas, como o Estado, por exemplo, possuem agencia, mas também as coisas ou objetos. Não só Joliot modificou ativamente a realidade e a história mas também o urânio, o deutério e o reator onde eram realizadas os experimentos de fissão e a bomba nuclear que resultou de todo esse processo.

Latour cunha dois termos importantes em sua teoria; actantes e híbridos. Actantes são objetos que possuem capacidade de ação sobre o mundo e sobre os indivíduos. Híbridos são aqueles que se encontram numa posição intermediaria entre duas esferas diferentes, ciência e politica, natureza e cultura. Os actantes e os híbridos confundem-se, estão numa posição intermediaria, e talvez por isso também atuam e por atuarem ficam nessa posição intermediaria. São quase-objetos e quase-sujeitos. O que chamaríamos de coisas, objetos ganham agência, atuam na realidade enquanto humanos ganham o status de objetos. Além disso, Latour cita outro tipo de hibridização, a que acontece entre a politica e a ciência, entre a cultura e a natureza nos processos de desenvolvimento de uma teoria cientifica.

Ainda de acordo com o autor, quando a constituição moderna é feita ela estabelece uma separação irreal entre a ciência e o “resto” do mundo. Como se os cientistas produzissem novas técnicas, teorias, completamente desconectados do mundo e, de tempos em tempos, entregassem a este suas criações. O autor advoga, por meio de suas observações de campo e do relato históricos, como a confecção da bomba nuclear, para revelar o estado de mistura e interdependência da ciência do o resto do mundo humano.

Outra ideia a ser mostrada é existência de híbridos. Estes não são apenas objetos produzidos, utilizados ou estudados na atividade cientifica, eles também são os fatos criados, na perspectiva de Latour, no trabalho cientifico. Creio que talvez essa seja um dos aspectos da teoria do autor que mais podem causar confusão pois é um dos que mais contradizem o nosso senso comum sobre a ciência. Como é possível que os fatos seja construídos e ao mesmo tempo reais?

Para discutir isso recorro ao que Latour escreveu sobre esse problema na livro Esperança de Pandora:

A noção de fatiche não é uma categoria analítica suscetível de ser acrescentada a outras por meio de um discurso claro e bem definido, que a clareza do discurso resulta do recurso à mais profunda obscuridade, obrigando a escolher entre construtivismo e realidade, conduzindo-nos à cama procrustiana em que o acordo modernista nos quer fazer dormir: os fatos científicos são reais ou construídos? As crenças nos fetiches são projetadas nos ídolos ou são esses ídolos que estão ‘realimente’ atuando? Embora tais ques tões pertençam ao senso comum e pareçam necessárias para qualquer clareza analítica, elas são, pelo contrário, as questões que tornam todas as associações entre entidades humanas e nãohumanas totalmente opacas…

…O fatiche sugere um movimento inteiramente diverso: é por ser construído que ele é tão real, tão autônomo, tão independente de nossas próprias mãos. Como temos visto repetidamente, as ligações não diminuem a autonomia, antes a promovem. Enquanto não entendermos que os termos “construção” e “realidade autônoma” são sinônimos Iremos considerar erroneamente o factiche como mais outra forma de construtivismo social em vez de vê-los como a modificação de toda a teoria daquilo que ele pretende construir. Latour (2001, pag. 314 – 315)

Outro termo importante para o pensamento do autor é o fatiche, o qual designa os produtos da atividade cientifica, suas descobertas, seus dados, informações, teorias e modelos. Este termo é cunhado a patir da combinação do termo fato e do termo fetiche. O fato seria algo completamente externo, com propriedades inerentes e imutáveis, autônomo, independente e não construído, proprio do mundo externo ao individuo, proprio da mundo interno do invidiuod, de suas mentes . O fetiche seria completamente interno, sem propriedades inerentes e imutáveis, necessitado das projeções pessoais e sociais para ganhar propriedades e potencialidades, ele é não autônomo, dependente do mundo social, é construído. Como mostrado no trecho acima o fatiche não pode ser pensado de acordo com a forma legitimada pela constituição do pensamento moderno. Esta o oculta, obscurece faz perder seu sentido.

Neste trecho vemos que a questão que Latour propõe é que também desconstruamos o senso comum acerca do conhecimento, nos mais diversos campos, e que desconstruamos a dicotomia entre fato e construto, entre o mundo externo e o mundo interno. O autor propõe que reconheçamos as misturas e hibridações que constantemente ocorrem para produzir nosso mundo.

O autor também propõe que repensemos a separação entre mundo externo e mundo interno. Diz que o abismo, que apregoam os modernos, é, na verdade, irreal. Que o mundo é produzido por intrincadas intercomunicações, interações, modificações, modelagens e remodelagens desses dois mundos, e que precisamos pensar a realidade permitindo-nos seguir estes intricados caminhos por onde eles nos levem sem promover falsas separações e encontrar falsas contradições.

Esta é uma pequeno panorama do que o autor fala sobre a relação da ciência com o politico e social. Caso fosse dar uma aula sobre o assunto, baseado no que descrevi aqui, tentaria mostrar aos alunos que, diferente do que se afirma em vários discursos, o que é feito na ciência não esta separado ou para além da resto da sociedade. Ela não acontece num mundo ou num espaço diferentes. O que acontece em torno deles, a realidade do momento em que vivemos, a politica, a economia, as empresas, as necessidades, demandas da sociedade e dos momentos históricos influenciam sim o desenvolvimento da ciência, os objetos com as quais os cientistas trabalham. O funcionamento da ciência depende necessariamente de todo o resto da sociedade humana, assim como das propriedades dos objetos que por ela são estudados. O social e o natural não são separados por um abismo, misturam-se e intercomunicam-se, mudando e resignificando-se mutuamente.

A dificuldade que coloco em relação ao alunos, em relação a lidarem com a teoria do autor é, na verdade, dificuldade minha também. Pois, essa contraria o que seria o senso comum geral, o senso comum cientifico, sociológico, e como o Latour diz, o próprio fundamento do pensamento moderno. Do meu ponto de vista, ai poderia residir uma das dificuldades em se ensinar este pensamento, pois ele propõe uma nova forma de interpretar a realidade e como e do que ela constitui-se para nós, não só ao aluno como também ao professor.

Bibliografia:

ARRARA, Sérgio. Uma “tempestade” chamada Latour: a antropologia da ciência em perspectival. Physis,  Rio de Janeiro,  v. 12,  n. 1, June  2002 .   Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-73312002000100012&lng=en&nrm=iso&gt;. access on  30  Nov.  2011.  http://dx.doi.org/10.1590/S0103-73312002000100012.

LATOUR, Bruno. A esperança de Pandora: ensaios sobre a realidade dos estudos cientificos. Bauru: EDUSC, 2001.

LATOUR, Bruno. “Não congelarás a imagem”, ou: como não desentender o debate ciência-religião. Mana,  Rio de Janeiro,  v. 10,  n. 2, Oct.  2004 .   Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-93132004000200005&lng=en&nrm=iso&gt;. access on  30  Nov.  2011.  http://dx.doi.org/10.1590/S0104-93132004000200005.

PEREIRA NETO, André de Faria. Tornar-se cientista: o ponto de vista de Bruno Latour. Cad. Saúde Pública,  Rio de Janeiro,  v. 13,  n. 1, Jan.  1997 .   Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-311X1997000100021&lng=en&nrm=iso&gt;. access on  30  Nov.  2011.  http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X1997000100021.

TEIXEIRA, Márcia de Oliveira. A ciência em ação: seguindo Bruno Latour. Hist. cienc. saude-Manguinhos,  Rio de Janeiro,  v. 8,  n. 1, June  2001 .   Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-59702001000200012&lng=en&nrm=iso&gt;. access on  30  Nov.  2011.  http://dx.doi.org/10.1590/S0104-59702001000200012.

VELHO, Otávio. Comentários sobre um texto de Bruno Latour. Mana,  Rio de Janeiro,  v. 11,  n. 1, Apr.  2005 .   Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-93132005000100010&lng=en&nrm=iso&gt;. access on  30  Nov.  2011.  http://dx.doi.org/10.1590/S0104-93132005000100010.

TODOS OS ARTIGOS DA BIBLIOGRAFIA PODEM SER ENCONTRADOS, PARA LEITURA E DOWNLOAD GRATUITO, NO SITE “http://www.scielo.org&#8221;.

Os links para cada artigo estão na bibliografia.

1A descrição completa do caso esta no capitulo O Fluxo Sanguíneo da Ciência.

2Água pesada é a água mas com átomos de deutério na sua composição no lugar do Hidrogênio O deutério é um hidrogênio que possui além de um próton ou nêutron em seu núcleo.

Lucas Braga RA 044751

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