Currículo, relativismo e universalismo – Análises de Forquin e Candau.

O que é relevante para ser ensinado e o que não é? Jean-Claude Forquin distingue duas vertentes na justificação do currículo, as justificações de oportunidade e as justificações fundamentais. As justificações de oportunidade se constituem a partir da constatação de que não se pode ensinar tudo, portanto, é necessário fazer escolhas e priorizar conteúdos. As justificações fundamentais são pautadas em questões de valores formadores, aquilo que é ensinado voltado não somente para o desenvolvimento utilitário, do saber fazer, mas também de valores éticos, estéticos e morais, sendo inclusos nestes, os “saberes universais”, que mais para frente será criticado pela Vera Maria Candau.

Forquin debate a contraposição que o desenvolvimento das ciências e teorias da educação sofrem entre a intenção justificadora e a objeção relativista. Ele coloca que existe um relativismo sociológico onde, por conta dos valores serem construídos socialmente, o que é verdade em um lugar não necessariamente será verdade em outro. Portanto, há duas possibilidades no relativismo.

“Pode-se ser relativista por hiper-subjetivismo (afirmando que toda verdade é construção ou convenção), ou por hiper-objetivismo (afirmando que toda representação não é senão o reflexo contingente das características materiais e sociais da situação na qual nos encontramos).” (Forquin, 1993, p. 146)

Mesmo havendo diferenças no conteúdo ensinado e no modo de ensinar, essas diferenças não podem cair no relativismo enquanto argumento para a construção do conhecimento. Além dos valores, os conceitos também possuem natureza social, entretanto, apesar de haver inúmeras maneiras de organizar conceitualmente a “experiência humana”, essa organização não é feita de modo livre ou arbitrário, existe uma lógica a ser seguida.

De acordo com o autor, é necessário tomar cuidado com esse pensamento relativista expresso por algumas correntes, nas quais, colocando que não há diferenças entre racionalismo e dogmatismo, e que não existe mais conhecimento objetivo, pode-se cair em um pragmatismo, levando os professores à desmoralização e desmobilização.

Vera Maria Cadau debate alguns conceitos introduzidos por Forquin na literatura curriculista, tendo como enfoque principal as questões do universalismo, multiculturalismo e relativismo. Primeiramente, ela chama a atenção para o fato de que Forquin não faz referência alguma em seu estudo a alguns dos principais teóricos da chamada pedagogia crítica.

Candau enfatiza a deficiência de Forquin em conceituar os “saberes universais” que ele menciona em seu estudo, segundo Candau, Forquin pressupõe a existência deles, entretanto, para ela, o universalismo deve ser constantemente questionado e repensado.

No que se refere ao multiculturalismo, Candau ressalta o debate sobre a inclusão da pluralidade de valores e referências culturais no currículo colocado por Forquin, que segundo ela, a definição dos critérios de seleção do que vai ser incluído e o que não vai neste currículo se constitui uma tarefa complexa.

Segundo Candau, Forquin se coloca extremamente contrário à concepções relativistas sobre a questão de como tratar o multiculturalismo presente nas sociedades, fazendo a mesma citação de Giroux:

“os/as educadores não poderão ignorar, no próximo século, as difíceis questões do multiculturalismo, da raça, da identidade, do poder, do conhecimento, da ética e do trabalho que, na verdade, as escolas já estão tendo de enfrentar. Essas questões exercem um papel importante na definição do significado e do propósito da escolarização, no que significa ensinar e na forma como os/as estudantes devem ser ensinados/as para viver num mundo que será amplamente mais globalizado, high tech e racialmente diverso que em qualquer época da história.” (Giroux, 1995, p. 88)

Sendo assim, para Candau, o desafio está em “trabalhar a tensão dialética entre universalismo e relativismo, entre igualdade e diferença.” (Candau, 2000, p.03) e finaliza com uma citação de Santos, que diz: “as pessoas e os grupos sociais têm o direito a ser iguais quando a diferença os inferioriza e o direito a ser diferentes, quando a igualdade os descaracteriza”. Portanto, a educação e a escola, segundo a autora, possui a tarefa de aprender a lidar com esse processo dialético.

Bibliografia

GIROUX, H. “Praticando estudos culturais nas faculdades da educação”. In: SILVA, T.T. (org.), Alienígenas na sala de aula. Rio de Janeiro: Vozes, 1995.

CANDAU, Vera Maria. “O currículo entre o relativismo e o universalismo: Dialogando com Jean-Claude Forquin”. Educ. Soc. vol.21 no.73 Campinas Dec. 2000

FORQUIN, Jean-Claude. Escola e Cultura, as bases sociais e epistemológicas do conhecimento escolar (tradução: Guacira Lopes Louro). Porto Alegre: Artes Médicas, 1993.

 

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