Educação em Émile Durkheim

Com esse texto pretendo introduzir na discussão desse blog algumas ideias sobre educação na obra de Émile Durkheim. Apesar das críticas feitas ao autor ao longo da história da sociologia, creio ser valido considerar essa perspectiva, em um momento em que há um esforço em pensar a recente introdução do ensino de sociologia no Ensino Médio e sua eficácia.

Inicialmente, Durkheim define educação como uma influência especial que o adulto exerce sobre as crianças e adolescentes. Ao desenvolver esse tema, investiga mais diretamente duas visões de educação. Uma seria a de Kant, “o fim da educação é desenvolver, em cada indivíduo toda a perfeição de que ele seja capaz”, “perfeição (…) é o desenvolvimento harmônico de todas as faculdades humanas”, e a outra seria uma perspectiva mais utilitária, “fazer do individuo um instrumento de felicidade para si mesmo e para seus semelhantes”. Faz a crítica à ambas visões sob variadas formas, mas, no geral, critica o que serviu de base para a conclusão dessas.

Estas perspectivas pautaram-se em questões teóricas, buscando uma educação ideal, não se guiaram pela história, pois se assim fizessem, não encontrariam nada que servisse a elas de respaldo no que definiram. Ao contrário do que defendem essas visões, Durkheim afirma que o ideal não seria aplicável, pois em cada sociedade a educação seria de um jeito, de acordo com o que ela fosse definida. Pois cada sociedade possui sua individualidade, se comporta de maneiras muito diversificadas. Nas cidades gregas e latinas, por exemplo, “a educação conduzia o indivíduo a subordinar-se cegamente à coletividade, a tornar-se uma coisa da sociedade. Hoje, esforça-se em fazer dele personalidade autônoma”.

Durkheim acredita que a cada momento a educação se adapta ao período que a sociedade se encontra, portanto a educação de que dispõe uma pessoa não deve ser igual a dada ao seu filho, visto que a cada momento objetiva-se algo diferente. E se educa-se o filho como seu pai foi educado, as crianças estarão excluídas dos hábitos adotados naquele período, como fossem deslocadas de sua época. Portanto, os pais devem deixar seus filhos se habituarem à contemporaneidade, serem educados de acordo com seu período histórico. “Há, pois, a cada momento, um tipo regular de educação, do qual não nos podemos separar sem vivas resistências, e que restringem as veleidades dos dissidentes”.

A educação estaria atrelada a várias questões sociais, como observa-se ao levar em conta a história, tais como “religião”, “organização política”, “grau de desenvolvimento das ciências”, “estados das indústrias”, dentre outros fatores. Portanto, em sociedade, a constituição da educação depende de inúmeros elementos. O mundo coletivo cria a educação, e não o mundo individual. Assim o autor não toma a história como base para reaplicar a educação de outrora, mas sim para estudar a constituição, a necessidade de sua existência.

Para criar um conceito de educação, Durkheim investiga o que há de comum em vários sistemas educativos. Entende que a necessidade de adultos e a necessidade de crianças e adolescentes, onde os primeiros exercem influência sobre os segundos, compõem a educação. Como cada sociedade é múltipla, possui diversas regiões e classes sociais, cada local esboça uma educação diferenciada, onde cada criança, quando adulta, ocupa um lugar social. E essas diferenças existiriam mesmo que não houvesse disparidade econômica, pois elas não dependem somente disso. Ainda que essa diversidade exista, há algo em comum entre esses locais de aprendizado, algo que paira na educação de todas as crianças e adolescentes. E esse elemento comum pode ser desde um objetivo até a própria matéria abordada como um fato semelhante. “Esse ideal, ao mesmo tempo uno e diverso, é que constitui a parte básica da educação”, e ele possui como objetivo desenvolver na criança aspectos, não só físicos como mentais, que tal sociedade almeja para seu povo. Os próprios grupos também exigem características que acreditam ser indispensáveis para quem dele participe. “A educação não é, pois, para a sociedade, senão o meio pelo qual ela prepara, no íntimo das crianças, as condições essenciais da própria existência” e ela abarca, de uma só vez, questões regionais e outras mais globais, ou seja, questões múltiplas e iguais ao mesmo tempo. Nota-se aí, a importância que Émile Durkheim dá à educação.

O autor chega a conclusão de que a educação se estrutura numa “socialização metódica das novas gerações”. Ela entalha o indivíduo no coletivo, prepara-o para uma vida em coletividade. Faz no ser uma certa pressão para anexar tais hábitos em seu dia a dia, e isso não é espontâneo, posto que espontaneamente o homem não respeitaria a disciplina moral. “Foi a própria sociedade, na medida de sua formação e consolidação, que tirou de seu próprio seio essas grandes forças morais, diante das quais o homem sente a sua fraqueza e inferioridade”. Lapida-se o indivíduo, que nasce “egoísta” e “associal”, para viver em sociedade. No meio animal a hereditariedade se destaca, visto que o animal não tem muito que aprender de diferente, o que não acontece com o homem. Este recebe sim influências familiares, tais como a capacidade de atenção, certa dose de perseverança, o juízo são e a capacidade imaginativa, mas a influência coletiva acaba se expressando com maior facilidade, o que torna a formação do indivíduo mais rápida.

Podemos enxergar diferença de aprendizado entre uma pessoa que foi socializada e outra que não, como no caso do “menino selvagem”. “O homem não é humano senão porque vive em sociedade”, Durkheim prova isso quando demonstra como a sociedade está na formação de nossos valores, nossos hábitos, nossas regras, etc. Acredita que mesmo aquilo que o homem almeja ser, vai de encontro com o que a sociedade reflete, de acordo com o que é necessário para ela. O indivíduo pode possuir pensamento autônomo ou não, isso depende mais do que a sociedade pede naquele período, pois a educação satisfaz necessidades sociais.

A sociedade está sempre em evolução. “A sabedoria humana vai sendo acumulada e revista, dia a dia, e essa acumulação indefinida que eleva o homem acima do animal e de si mesmo”. Para que o legado de cada geração possa ser conservado e acrescido, será preciso que exista uma entidade moral duradoura. Como exemplo tem-se a linguagem. Rousseau, ao falar da formação da linguagem, defende a importância da sociedade para a concretização dessa e mesmo sua conservação e desenvolvimento a cada geração. Nesse contexto, o Estado deve prover condições adequadas para que crianças e adolescentes tenham oportunidade de se socializarem dessa forma, mas quem de fato escolheria, seria o pai. E devido a importância da educação para a sociedade, seria praticamente impossível o Estado não se preocupar com ela, visto que apresenta uma função coletiva de adaptar as crianças ao meio social. Pelo que vemos é mais uma preocupação com a socialização do que uma questão de controle da educação. “Se a sociedade não estiver sempre presente e vigilante, para obrigar a ação pedagógica a exercer-se em sentido social, essa se porá ao serviço de interesses particulares e a grande alma da pátria se dividirá”. Com tal fiscalização do Estado, Durkheim não vê problemas em se desenvolver uma educação que não advenha do próprio Estado, entretanto essas escolas devem assegurar a comunhão de ideias e sentimentos espontâneos criados pela própria sociedade. E também os mestres devem ser neutros, de modo que não influenciem os alunos com seus interesses individuais.

Para Durkheim a educação não é o primeiro fator a caracterizar o ser humano, pois quando se educa o indivíduo, o educador não vai encontrá-lo despossuído de conceitos, “Ela se aplica a condições que se encontram na criança”. Pois isso advém das próprias questões orgânicas da criança. E quanto mais se molda a mente da criança, colocando objetivos definidos, mais difícil se torna a tarefa de educá-la.

Sob a condição de ultrapassar a natureza individual é que se embasa a natureza do homem, e a educação deve auxiliar em tal labor. E para isso “a autoridade moral é qualidade essencial do educador”. Para exercer tal autoridade o mestre deve ter vontade, “Porque a autoridade implica a confiança, e a criança não pode manifestar confiança em quem vê hesitar, tergiversar, voltar sobre suas decisões”. E isso não se confunde ao temor do castigo “o temor do castigo é coisa diversa do respeito à autoridade”. E ele deve também sentir que há autoridade, e isso vem dele, o que poderia ajudá-lo seria pensar na “missão que lhe cabe e na grandeza de sua missão”. Não deve levar a autoridade com orgulho, vaidade nem pedantismo, mas sim com respeito à função como também aos próprios alunos, pois esse pensamento acaba sendo transmitido à criança. E a autoridade não é o oposto da liberdade, pois “é justamente com o objetivo de adotar a criança desse domínio de si mesma que a autoridade do mestre deve ser empregada”.

Bibliografia:

DURKHEIM, E. “Capítulo I – A Educação, a sua Natureza e o seu Papel” in Educação e Sociologia.

RODRIGUES, J. A. (org) Durkheim: Sociologia. Ed. Ática (Coleção Grandes Cientistas Sociais).DURKHEIM, E. “As Regras do Método Sociológico” in Os Pensadores. Ed. Abril Cultural. Vol. XXXIII.

 

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