O material didático e a desvalorização do docente

A atual situação da educação em nosso país não é novidade para nenhum brasileiro. Não é preciso ser um especialista no assunto para perceber o baixo investimento governamental na qualidade de ensino, infra-estrutura escolar e principalmente na profissão docente, e embora o Brasil esteja passando por fases de transição e apresentado melhoras estatísticas no campo, estamos longe de possuir uma educação adequada.

Ainda que tais estatísticas não sejam o bastante para exemplificar o quão grave está a situação da educação brasileira, tornam-se importante instrumento para que possamos nos situar no assunto. Na avaliação anual global sobre educação, realizada pela Instituição da Organização das Nações Unidas (ONU), Unesco, o Brasil ainda apresenta uma baixa posição em relação aos outros países.

Segundo o relatório de 2010, o Brasil poderia se encontrar em melhor situação se investisse na qualidade de seu ensino. Dos critérios utilizados para medir a qualidade, o país registra altos índices em três (atendimento universal, igualdade de gênero e analfabetismo), no entanto, apresenta um indicador muito baixo em relação a crianças que ultrapassam o 5º ano escolar, ou seja, vão para o Ensino Fundamental II.

Conquanto, por mais que o Brasil apresente altos índices em relação ao analfabetismo, sua erradicação caminha de forma muito lenta. Corroborando para a atual situação, a valorização do professor no país se encontra muito baixa, e, como os educadores são fatores principais para uma qualidade melhor de ensino, este passa a ser o maior desafio para os futuros governantes.

Para tanto, é necessário que se desenvolva situações favoráveis para que essa carreira se torne novamente objeto de desejo de profissionais. Tais situações se pautam muito além de qualificação docente e salários mais representativos, mas também em relação a inversão da precarização do sistema de ensino, que hoje temos por realidade.

Segundo o relatório “De olho nas Metas”, feito anualmente pela Organização Não-Governamental Todos Pela Educação, de cada 100 alunos matriculados no último ano do ensino médio no Brasil, apenas 11 aprendem o que era esperado para essa fase. Esse dado é ainda mais agravante quando pensamos que o apre(e)ndido no ensino médio deveria simbolizar ingresso direto para uma universidade.

Esses dados nos mostram, portanto, que o sistema de ensino não se encaixa no que significaria o “suficiente” para garantir uma condição mínima de educação. Esses jovens que não conseguem digerir o conhecimento passado precisam de uma educação que caiba na vida, e infelizmente não é isso que encontram, não só no ensino médio, mas em todas as séries da educação brasileira.

É essa questão que me motiva a escrever esse post, influenciada por alguns elementos da publicação denominada “Desafios do professor no ensino da sociologia”. Isso porque acredito, como BRIDI et al (2009) que educar equivale a socializar os alunos e alunas, e torná-los participantes do legado cultural da sociedade em que vivem. Estes não são, portanto, necessitados da mera transmissão de conteúdos, mas de sua inserção na realidade social.

O que acontece, atualmente, é uma problemática em relação ao que merece ou não ser ensinado, em conjunto aos discursos oriundos nos anos 90 sobre o caráter instrumental da educação. Dessa forma, de acordo com GENTILI (2004 apud BRIDI et al, 2009, p. 76) a escola sofre também com o assédio neoliberal e os discursos da qualidade total e mercantilização do sistema de ensino. Este, portanto, se degrada à medida que a escola se transforma em uma mercadoria.

Segundo OLIVEIRA (2009, p. 740), “[a educação] tornou-se exportável, portável e negociável”. Isso porque cresce no Brasil a venda de materiais pedagógicos, apostilas, livros, que vão aos poucos terceirizando e privatizando nosso sistema de ensino, que acaba por limitar o papel do professor em sala de aula.

Neste sentido, TARDIF E LESSARD (2005) ressaltam o papel da docência como uma atividade onde o professor se dedica por completo ao seu objeto de trabalho, que se trata, justamente, de outro ser humano, o que o caracteriza como um processo de interação humana. Logo, o profissional deve estar inteiramente envolvido.

Tal diferenciação do trabalho docente mostra quão inviável e pouco produtivo é um sistema de ensino que não oferece autonomia ao professor. Em relação a esse ponto, outra autora, ALENCAR (1995), coloca a importância da criatividade no contexto educacional. Para ela, todos nós possuímos um potencial criativo que se desenvolve em diferentes medidas conforme nos são oferecidas condições favoráveis para tal.

Essa criatividade colocada seria fator fundamental para uma abertura com os alunos, uma maior interação capaz de fazer com que o educando se sinta parte do processo educacional, do processo no qual Paulo Freire bem assenta existente em uma troca de aprendizados entre alunos e professores.

No entanto, vale lembrar que o trabalho docente recebe intervenção direta de vários fatores que juntos facilitam ou inibem as habilidades criativas dos envolvidos nesse processo. São eles condições de trabalho, arquitetura da escola, ambiente, entre tantos outros que sabemos influenciar diretamente no aprendizado. Contudo, o abordado com maior relevância aqui consiste no material apresentado que nos guia para a forma de abrir o horizonte do aluno para o conhecimento a ser apreendido.

São esses materiais, que deveriam quebrar as barreiras da educação fragmentada e nos trazer a interação, novas problemáticas extraídas do âmbito real dos estudantes e professores, flexibilidade de ensino para uma educação eficaz. No entanto não é isso que é possível observar.

O que vemos, portanto, é a ausência de autonomia do professor, transformação da lógica educacional em empresarial, fortemente influenciada pelo material de ensino que deveria nutrir as práticas da educação. Com isso, é possível ponderar “se” e “como” o material didático realmente influencia no papel do professor em sala de aula. Como essa prática é vista pelos professores da área? É essa questão que busco pensar e trazer como ponto aqui.

Em uma breve pesquisa na internet sobre o sistema de ensino de algumas escolas foi possível observar a existência de “pacotes educacionais”, expressão que OLIVEIRA (2009) utiliza em seu artigo. São esses, apostilas, que trazem, mais do que o saber, a venda de uma marca, de uma padronização do ensino que tem como função “facilitar” o trabalho docente.

A utilização dessas marcas apostiláveis aponta para a influência do capital no sistema de ensino, cada vez mais racionalizado. Essa idéia de racionalização é muito bem abordada em OLIVEIRA (2009), quando este enxerga nas escolas atuais um princípio de transição de lógica. Trata-se da inserção de uma lógica empresarial, que busca ora a otimização dos lucros, ora a contenção de gastos.

Dessa forma, verifica-se uma preocupação não com a qualidade do material, mas com uma questão meramente econômica. A pergunta que fica é, será que o material didático reflete a realidade dos alunos?

Para corroborar com essa idéia, me valho novamente de OLIVEIRA (2009), que traz dados específicos da educação no Brasil. Segundo a revista exame (apud OLIVEIRA, 2009, p. 752), em 2008 o ensino privado moveu cerca de R$90 bilhões, comparado aos R$15 bilhões em 2004. Embora esse valor não ultrapasse ainda os gastos públicos em educação do país, um aumento de R$75 bilhões em 4 anos não pode passar despercebido.

O crescimento dos investimentos em educação privada pode, portanto, simbolizar a disseminação desse material comercial e da confirmação da inserção da escola na lógica mercantil. O que preocupa, no entanto, além de uma questão de qualidade e adequação do material apresentado a essas crianças, é a desprofissionalização de docentes que essa lógica desencadeia.

Isso porque, um suporte que traz uma ordem específica, prende e reduz o trabalho do professor em sala de aula podendo apenas trazer a desvalorização ainda maior de seu trabalho como profissional. Como traz OLIVEIRA (2004), “a imposição de um procedimento técnico sobre o currículo das escolas” só pode trazer a perda de autonomia, poder e autoridade dos trabalhadores do ensino, ou seja, a desqualificação desses profissionais.

Me parece que ao trabalho docente sobre uma responsabilidade maior, a necessidade de um “jogo de cintura” para introduzir sempre detalhes, discussões, atividades que nem sempre são contidos nos modelos de ensino, mas que posteriormente podem ser cobradas em exames ou provas de ingressoem universidades. Issoporque cada vez mais a escola passa pela transformação em empresa, com metas e obrigações conteúdistas. Esse contexto vai de acordo com as idéias de TARDIF E LESSARD (2005) ao afirmarem que o trabalho docente comporta uma dupla face: é um trabalho regulado e flexível.

O que OLIVEIRA (2004) nos mostra em seu texto, no entanto, é que determinados mecanismos empresariais colocados dentro da lógica educacional pode acarretar uma perda de controle do trabalhador do seu processo de trabalho, e até mesmo à alienação. Isso porque o profissional se torna cada vez mais especializado e com isso “perde a noção de integridade do processo” (OLIVEIRA, 2004, p. 1134).

Tal informação nos mostra, portanto, o quão grave pode ser a perda de autonomia do professor em sala de aula. Embora os professores na rede pública de ensino possam alterar o método, ou acrescentar pontos ao plano de ensino caso não considerem suficiente, é interessante pensar que, posteriormente, existirá uma cobrança tanto docente quanto discente em relação ao conteúdo constante nas apostilas fornecidas, através também de provas estaduais para “premiação” em bônus.

Um ponto que pode ser considerado a favor do sistema apostilado de ensino por parte de alguns professores é, sem dúvida, o tempo de jornada de trabalho. Isso porque obviamente sem um bom suporte, um livro para se trabalhar, seria necessário grande tempo de preparo das aulas, o que não é, infelizmente, a realidade atual dos professores.

O que se pondera aqui pode, portanto, fazer referência à colocação de LUDKE e BOING (2004) em relação à forma de transmissão do saber. Para esses autores, é necessária uma interação entre professor e aluno para decodificar, ler, compreender textos e situações. Dessa forma, fica evidente que um material didático que limita a atuação do professor em classe acarreta também na defasagem de ensino.

Ainda em LUDKE e BOING (2004), é possível fazer uma relação com a reestruturação do trabalho pedagógico que vêm, aos poucos, trazendo uma maior precarização do trabalho docente. Para esses autores, a ausência de autonomia, especialização e transição de lógicas pode influenciar diretamente na construção de identidade de nossos docentes.  Com isso, a noção dos profissionais da educação do que seria um sistema de ensino vai se turvando conforme são inseridas características empresariais dentro da escola.

Nesse contexto, destarte a precária condição salarial dos docentes, que também muito preocupa, a falta de identificação com o trabalho desse profissional de ensino torna a profissão cada vez menos atrativa, devido a um sistema perverso de controle e desvalorização.

O gosto pela pedagogia vai se esvaindo entre os jovens, ao que LUDKE e BOING (2004) caracterizam como o desaparecimento do tom de missão, vocação ao serviço docente. Ainda para os autores, embora o trabalho docente há muitos anos tenha se afastado de uma categoria de trabalho em si, a ocupação já esteve sim mais valorizada profissional e financeiramente. Nesse caso, a falta de profissionalização mascarada por materiais que servem de apêndices ao trabalho do professor tem legitimado a precarização de um trabalho que deveria ser valorizado em demasia.

O que entendo por isso é que, a lógica capitalista está escancarada na educação do Brasil, tanto no setor público quanto no privado. A educação reflexiva cedeu aqui lugar para um tipo de educação mecanizada voltada para os interesses do mercado, onde o tempo e o movimento tende a ser parte fundamental no controle da “produção”, e o trabalho do professor submetido a esta mesma pressão.

Em tempos de toyotismo a educação não está imune a estas influências, a racionalização do trabalho através da divisão sistemática das matérias e da padronização do material sem levar em conta a realidade dos alunos, e a internalização da cobrança identificada pela necessidade de cumprimento de metas são apenas alguns exemplos das transformações que afligem o sistema escolar interferindo diretamente no papel da escola na sociedade. Nas palavras de Santomé:

  “… a instituição escola traíra sua autentica razão de ser: preparar cidadãos e cidadãs para compreender, julgar e intervir na sua comunidade, de forma responsável, justa, solidária e democrática” (SANTOMÉ, Jurjo Torres. Globalização e interdisciplinaridade: o currículo integrado. Cap. 1 pag. 14)

 Cumprindo o papel no sistema no qual estamos inseridos, nem se quer percebemos a sua deteriorização, de forma que muitas vezes vemos as mudanças como benefício para os alunos e no caso do material didático como diretrizes (em seu sentido mais extremo) para utilizaçãoem aula. Ocapitalismo vem assim cumprindo seu papel de neutralização dos indivíduos.

Dessa forma, como aqui ponderado, o material didático compulsivamente apostilado pode estar contribuindo na realidade para submeter o professor aos ideais do capital, desestimulando sua formação e desqualificando sua posição social, de pensador e mestre, para um mero tutor operacional.

Diante disso, fica a minha impressão sobre o sistema apostilado, método hoje utilizado por grande parte das escolas particulares e públicas. A perda de autonomia dos professores e a confirmação da precariedade de ensino não devem passar despercebidas, tampouco a transição da lógica educacional a outra cada vez mais mercadológica.

 

 

Bibliografia

 

 

ALENCAR, E. M. L. S. Criatividade. 2 ed. Brasília: Editora Da Universidade de Brasília, 1995.

BRIDI, M. A.; ARAÚJO, S. M.; MOTIM, B. L. Ensinar e Aprender Sociologia. São Paulo: Contexto, 2009.

LUDKE, Menga e BOING, Luiz Alberto. Caminhos da profissão e da profissionalidade docentes. In: Educação e Sociedade, Campinas, vol. 25, n. 89, p. 1159 – 1180, Set./Dez. 2004

MARX, Karl. O Capital. Critica da economia política. Livro 1, vol. 1, capítulo I. Difel: são Paulo, 1982.

OLIVEIRA, Dalila Andrade. A reestruturação do trabalho docente: precarização e flexibilização. In: Educação e Sociedade. Campinas, vol. 25, n. 89, p, 1159-1180, Set./Dez. 2004, p. 1127-1144, Set./Dez. 2004

OLIVEIRA, Romualdo Portela. A transformação da educação em mercadoria no Brasil. In: Educação e Sociedade. Campinas, vol. 30, n. 108, p. 739-760, out. 2009

SANTOMÉ, Jurjo Torres. Globalização e interdisciplinaridade: o currículo integrado. Porto Alegre: Artmed, 1998. Capítulo 1

TARDIF, Maurice e LESSARD, Claude. O trabalho docente: elementos para uma teoria da docência como profissão de interações humanas. Petrópolis: Vozes, 2005. Cap. 6 Os fins do trabalho docente, p. 195 – 230

http://www.todospelaeducacao.org.br/

http://unesdoc.unesco.org/images/0018/001894/189433e.pdf

http://www.unesco.org/new/en/education/themes/leading-the-international-agenda/efareport/reports/2010-marginalization/

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