O tema da Desigualdade Social no ensino médio – os cadernos do estado

O tema da desigualdade social aparece no Caderno de Sociologia do 2º colegial (1º bimestre) e como esse é um tema extremamente complexo e amplo, dificilmente poderia ser satisfatoriamente estudado ao longo de dois meses em encontros semanais de no máximo 50 minutos – sendo que entre esses encontros devem constar algum momento para avaliação de todos os alunos. Mesmo assim, feito essa consideração, cabe analisarmos criticamente nesse espaço do blog a mediação que o Caderno do Estado proporciona ao professor de sociologia – apontando aqui falhas que poderiam e deveriam ser evitadas, levantando pontos que possam ser uma solução melhor do que as recomendadas pelo Caderno, e isso, vale reforçar, sem jamais desmerecer os problemas que estão além desse material – mas já é possível adiantar que o caderno infelizmente adiciona a esses, outros tantos problemas. Foi utilizada a edição de 2010, mas creio que não deva ter sofrido qualquer modificação para esse ano.

Um primeiro problema que já de cara salta aos olhos é a não apresentação de uma distinção clara aos alunos entre os conceitos de diversidade e de desigualdade – o primeiro com uma clara conotação positiva diferentemente da segunda, que remete rapidamente à injustiça, à inequidade. Esses conceitos são colocados e usados ao longo do Caderno sem uma preocupação com a compreensão clara do aluno sobre o que sociologicamente ou mesmo de modo geral cada um representa por sua vez e mesmo como se relacionam. Ademais, fica limitada a desconstrução do que o senso comum apresenta como diversidade – exemplo disso é a noção do Brasil como um país diverso num sentido estritamente positivo e harmonioso, na esteira sem dúvida de Gilberto Freyre e sua “democracia racial”. Dado que essa concepção (claro que de um modo mais simplificado e ideologicamente enviesado) já alcança o público através da adesão que muitos meios de comunicação de massa a essa imagem de Brasil, caberia às aulas um esforço de desconstrução e complexificação, ligando os pontos da diversidade e a desigualdade, que se analiticamente merecem uma separação para facilitar o senso crítico do aluno, historicamente andaram muito juntas e, por isso, explicam a atualidade brasileira, sua estratificação e seu racismo.

Em segundo lugar, o Caderno coloca dados sobre as diferenças regionais do país, numa tentativa de mostrar como os dados nacionais podem mascarar desigualdades regionais. No entanto, não há nenhuma analise sociológica, apenas a apresentação dos dados. O nordeste é mais pobre, com menor nível de educação etc., enquanto o sudeste está mais bem colocado pelas médias nacionais – sendo o caderno produzido pela secretaria de educação do Estado de São Paulo, parece até uma seção de propaganda ao governo estadual. Mas o grave é que além de não ir além da apresentação dessa fotografia da desigualdade regional brasileira, não evita nem problematiza a noção que fica nas entrelinhas: o nordestino como um parasita da riqueza do sudeste, ou mesmo o nordeste como um problema para o desenvolvimento e justiça social brasileiros (aliás, os Cadernos reservarão uma seção em outros bimestre para a imigração interna, com os mesmo problemas de pouca fundamentação sociológica, mas juntamente com essa falta problematização poderão juntas reforçar esse profundo preconceito presente na sociedade brasileira). Novamente a história e aspectos da formação social brasileira deveriam entrar mais do que dados fotográficos que não transmitem as conexões e os fundamentos que mesmos números que expressam. E novamente soma-se a esse problema , o problema anterior, misturando-se o da tema diversidade e da desigualdade regionais –  se era difícil fazer justiça a quantidade de “culturas” dentro do Brasil no pouco tempo que se reserva a sociologia, ficou impossível dar conta dessas culturas e os contextos sócio-econômicos (apenas fotograficamente apresentados) que o Caderno pensa ter mostrado, já que muito timidamente valoriza uma perspectiva da formação social (portanto político, cultural e econômica).

É nesse ponto que coloco a terceira crítica: poucos conceitos sociológicos e poucos autores da sociologia são trabalhados. A inclusão de “Estabelecidos e outsiders”, de Norbert Elias, transforma o capítulo numa apreciação – até importante – da diversidade, em que o “outro” não é novo, nem estrangeiro, mas mesmo assim é visto como “outro” – por motivos que a interação social acaba delimitando – mas novamente essa discussão, ou melhor, esse autor é alocado mecanicamente no Caderno, sem uma comunicação importante com os dados apresentados sobre a desigualdade regional ou ao menos uma apreciação mais detalhada de como isso ajuda a explicar a formação social do brasil (nesse sentido sem dúvida o texto teria uma instrumental de conceitos importantes para gerar reflexão na aula – mas como já dito acima, a questão da formação passa a largo dos capítulos do caderno). Talvez fosse interessante conciliar os dados de diferenciações regionais e a eloquencia própria que esses dados possuem com a história e análise sociológica do Brasil. Gilberto Freyre em Casa Grande e Senzala e Florestan Fernandes em A integração dos negros na sociedade de classes, poderia ser um embate importante a ser apresentado em uma aula – naturalmente estaria longe de ser uma apreciação se quer razoavel, mas levantar a interpretação de Freyre e o contraponto dado por Fernandes teria muito a acrescentar na introdução da desigualdade e diversidade no Brasil – se o professor ainda tiver domínio poderá em outra aula aproveitar as novas pesquisas da historiografia da escola de campinas que fazem uma severa critica ao esquema de Fernandes de explicação da “transição” capitalista brasileira. Se o bimestre, como dá a entender a maior parte do Caderno se interessa mesmo pela questão da diversidade, tocar em sala de aula pelas linhas mestras de Levi-Strauss em Raça e História para trabalhar com o conceito de raça poderia ser extremamente instrutivo.

Excluiria para tanto vários trechos, como os reservados à definição solta de migração, imigração e emigração, talvez até mantivesse a discussão de aculturação e assimilação de Georg Simmel, mas o fundamental na concepção desse bimestre seria transformá-lo numa espécie de  Formação Social do Brasil, diversa e desigual (que aliás parece ser a proposta mais profunda desse Caderno, mas que como vimos peca pela fraca articulação entre as aulas e entre os conceitos), procurando então conscientemente apresentar e ministrar as aulas como sendo sobre a formação da sociedade brasileira abarcando em cada aula algum conceito ou grupo de conceito sociológico para aprofundar o entendimento dessa formação.

Apenas para resumir a falta de articulação do tema no Caderno: no início, tem-se as tabelas sobre desigualdades regionais; depois, a questão do estrangeiro (migrações, outsiders, etc); por fim, as tensões na diversidade (no Brasil e no mundo) – esses três momentos trabalhados de maneira justaposta, sem a possibilidade de um aproveitamento cumulativo dos conhecimentos mostram que, mesmo considerando as limitações que a aula de sociologia e seu conteúdo necessariamente terão com a carga horário semanal que tem, mesmo assim o Caderno peca profundamente em sua proposta sobre a desigualdade social – que acabou se tornando ao mesmo tempo e muito desconectadamente um bimestre sobre diversidade.

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