Para não dormir na aula de sociologia

Estagiando na licenciatura, não é preciso muito tempo e contato com sala de aula para perceber o quão difícil é lidar com o status da disciplina de sociologia frente as demais na grade curricular. Junto com a filosofia como uma disciplina “para a cidadania”, ela não fornece “competências” úteis ao mercado de trabalho ou vestibular. Isso tudo parece ser parte do quadro mais geral da imagem das ciências sociais no mundo tecnicizante dos diplomas inflacionados. De fato, ninguém sairá da escola como um profissional das ciências sociais ou sabendo emitir laudos antropológicos e mexer em SPSS; a sociologia escolar dedica-se à perspectiva sociológica, uma forma de olhar específica.

Mas parece haver um ponto ótimo muito difícil de se atingir entre a aula de moralismo politicamente correto (seja de esquerda ou direita) e o formalismo/esquematismo teórico pretensamente neutro. O tal ponto em que o contexto dos saberes da realidade social do aluno se encontram com o rigor e poder do conceito sociológico. É claro que todas essas opções podem se encaixar sobre o tal rótulo extremamente manipulável de “conhecimento para a cidadania” . O moralismo e o esquematismo podem parecer cínicos e entediantes aos alunos, mas nós, cientistas sociais, estamos convencidos de que a “verdadeira” sociologia é apaixonante, mas dificilmente concordamos sobre qual é a verdade e o que é bobagem.

Comumente é só sob duras penas que o sociólogo se submete a uma profissão de técnico especializado: costuma fazê-lo pensando nos horários fora do trabalho entediante em que poderá dedicar-se a sua pesquisa. O estigma de cientista menor ou de intelectual blasé se sustenta também no sentimento de intelectual incompreendido. Os leigos preferem suas ideologias e os jornalistas para lhes dizer profecias e máximas sobre “a sociedade”, e o sociólogo que abra uma ONG ou trabalhe no censo.

Para aquele que entrou no círculo acadêmico da sociologia, ser professor pode ser a profissão dos sonhos ou a profissão pra-não-morrer-de-fome; mas dificilmente será uma profissão qualquer. Para Weber (2007) a vocação de sociólogo era a vocação para a pesquisa e academia, uma tarefa de “aristocracia intelectual”. Mas e a vocação para professor de sociologia? Para Weber as duas coisas não necessariamente coincidem, aliás, raramente coincidem.Mas o alemão estava preocupado com a fama e a postura de seus colegas de universidade. Tenho em mente uma preocupação diferente que quero ilustrar por um pequeno exercício de memória aos colegas de estágio: a primeira vez que descobriram a pronúncia de “Weber”, “Levi-Strauss”, “Simmel”, “Gramsci”, etc. Não me refiro as aulas de línguas estrangeiras claro, mas ao tempo em que não tinhamos familiaridade com tais figuras, em que não éramos muito diferentes dos alunos que encontraremos nas salas de aula. Tinhamos apenas a impressão de alguma vocação para o estudo dos problemas sociais, que tomou forma em faculdades para o estudo de problemas sociológicos. Adentramos a fraternidade dos cientistas sociais. Não sem a devida iniciação de mil fichamentos, papers e seminários.

A sociologia do ensino médio não fará desses alunos cientistas sociais, mas pode voltar sua sensibilidade para os problemas socias sem cair na pieguice, e desenvolver algumas capacidades para tratar problemas sociológicos sem tornar-se enciclopédica. Acredito ser essa a nossa tarefa como professores, oferecer a sedução da sociologia para os alunos. Abrir e expandir as possibilidades para a vocação sociológica, sendo que ela não está assim tão separada de uma vocação para professor no fim das contas. Como professores, dificilmente deixaremos de ser pesquisadores, e afinal de contas é preciso pensar também a licenciatura como espaço de pesquisa (MORAES, 2003), não espaço de um aprendizado da técnica da didática e ferramentas dessa ou daquela pedagogia. O exercício de memória acima serve para fazer lembrar que esses jovens também podem desenvolver a mesma vocação para a sociologia, assim como nós o fizemos. Minha preocupação aqui é fazer uma leitura dessa capacidade das ciências sociais de tornarem-se uma paixão intelectual quase irresistível, para tentar vislumbrar afinal como e porquê introduzir os alunos aos seus encantos.

Não pretendo claro pensar este ponto de forma inocente ao igualar professor e aluno, quero dizer que podem chegar aos mesmos destinos e paixões, mas não que devam fazê-lo necessariamente: o aluno tem todo o direito de não morrer de amores pela sociologia, mesmo reconhecendo que ela pode ser interessante e que seu professor seja “bom”.  Mas há outras distinções que é preciso fazer: primeiro que não existe o aluno médio e passivo cujo papel projetamos sobre os alunos reais inspirados pelos livros didáticos, existem diferenças entre estes alunos; segundo, que os alunos também não estão interessados de forma geral em cumprir com o papel social que a escola lhe atribui, estão ocupados com seus dilemas de adolescentes e impõem resistências frente ao professor; representante do mundo adulto e de outra classe ou condição social (seja superior ou inferior) (DUBET, 1997).

Há algum ponto de convergência entre os interesses do sociólogo e os interesses do aluno adolescente, sem ser algum artíficio tosco para combater a agitação da sala de aula, mas nexo para uma empreitada conjunta de construção de conhecimento. A sociologia também deveria interessar àqueles que não são sociólogos. Pelo menos esse desinteresse parece ser a grande frustração do sociólogo incompreendido; ela duplica-se para o professor de sociologia incompreendido, com o agravante de que no último caso a situação será imputada como sua deficiência. Como a sociologia pode ser interessante aos problemas e preocupações do adolescente, e não só do aluno que é obrigado a passar por suas provas?

Podemos recorrer a sociólogos que escreveram para os iniciantes na prática das ciências sociais, para todos os profissionais que precisam ter alguns conhecimentos de pesquisa social, e mesmo para apreciação do público erudito em geral. Nenhum destes livros será voltado para adolescentes brasileiros da escola pública, mas todos tratam da perspectiva ou sensibilidade única despertada nos iniciantes ao estudo da sociologia.

Berger (1986) nos fala da perspectiva sociológica. Mas fala para um público de iniciados que pretendam aprofundar-se nesse treinamento do olhar – para o qual não é imprescindível uma atitude de boa vontade moral ou inocência. O mais misantropo dos alunos pode estar imbuído da mais alta curiosidade sociológica. A rebeldia pode servir muito bem à sociologia já que ao questionar os discursos oficiais ela se aproxima dos sinais emitidos pelo “submundo”. Mas mesmo o mais acomodado temperamento pode questionar as grandes ideologias. É a peculiaridade e encanto da perspectiva sociológica, levar ao questionamento das fachadas das estruturas sociais em que nós mesmos estamos inseridos.

O sociólogo é imbuído de um ohar diferenciado sobre a sociedade, cuja peculiaridade é metodológica, e não digamos, psicológica, de temperamento ou gosto especial pelo questionamento. O sociólogo olha para além das metas comumente aceitas ou oficialmente declaradas das ações humanas; atinge níveis diferentes de significado dos fatos. Dentro de determinada sociedade, um complexo de relações possível de ser analisado em si mesmo, interessam-lhe os atos sociais, ou seja aqueles em que os agentes são reciprocamente orientados um para o outro.

A partir disto é que Berger pode diferenciar problemas sociais e problemas sociológicos. Dentro de um grupo, de um sistema de interações e valores, o que é definido como um “problema” de cunho social pode não ser problemático para outro grupo. Volta e meia a imprensa destaca a mudança no modo dos jovens de lidar com a sexualidade, reportagens sobre “ficar” ou ter experiências homossexuais parecem pipocar pelo menos uma vez por ano, e pais e jovens se dividem em torno de temas como “liberdade”, “promiscuidade”, “juventude”, “natureza” etc. O que pode ser problemático para alguns pais e alunos de uma sala nesse quesito pode ser completamente normal para outros. O professor pode até traçar um debate para colocar os problemas sociais em questão pode apresentar como curiosidade sociológica a posição do amor livre dos anos 60 ou do puritanismo da Inglaterra Vitoriana. Mas os problemas sociais só se tornarão problemas sociológicos quando buscar compreender o que acontece em termos de interação social para além dos discursos em debate, utilizando conceitos. A interpretação sociológica é desmistificadora porque é capaz de olhar a situação dos pontos de vista de sistemas interpretativos antagônicos para dissolvê-los no sistema de relações e de disputas revelado por detrás das intenções e metas declaradas das ações sociais e não previsto por elas.

A perspectiva sociológica de Berger pode servir bem para pensar como trabalhar o que os alunos podem perceber como um problema social para eles, para seus pais, ou para “a sociedade” (o grupo dos cidadãos trabalhadores e pagadores de impostos no conceito do jornalismo policial), podem ser pensados como problemas sociológicos. Um caminho para a desmistificação dos discursos – que não significa uma estreiteza intelectual que implique em aceitar o discurso do politicamente correto. Um debate em sala de aula não deveria levar ao resultado de um vencedor, mas ao autoquestionamento dos dois lados. Talvez fosse interessante um debate em que os alunos fossem obrigados a mudar de lados a cada rodada?

Mas a maioria dos alunos pode ainda não se interessar muito pelos problemas sociais, ou melhor, pensar que seus problemas pessoais não tem nenhum aspecto social ou sociológico e há um limite para expô-los como tal, afinal quem esse tal de professor de sociologia pensa que é para discordar do que dizem os clérigos, terapeutas, os apresentadores de tv, os parentes? Esse charme a peculiaridade da sociologia que pode interessar aos não-sociólogos tem algo profundamente a ver com as perturbações resignadas, moralistas ou românticas dos valores.

C.Wright Mills (1972) preocupava-se com a sensação de encurralamento, uma angústia própria das pessoas que vivem o pós-segunda guerra, em que a velocidade das mudanças e a relativização dos valores desemboca na indiferença ou inquietação da incapacidade de enxergar o horizonte histórico à frente. Tal dificuldade não se deve a uma falta de informação (já no século XX parecia haver um excesso de dados, que dirá no XXI), mas antes a falta de um qualidade de espírito capaz de desenvolver a razão que construa uma percepção do sentido da sociedade.

As pessoas raramente têm consciência das ligações entre suas vidas e o curso da história, e não costumam interpretar seus dilemas de vida em termos sociológicos. A sociologia não vai demonstrar ao jovem aluno porque ele deve ou não deve experimentar com sua sexualidade, mas esse problema íntimo tem uma face social (é orientado para outros agentes sociais; colegas, familiares, religiosos) e uma implicação sociológica (o estigma, a dominação masculina, o corpo). Mas para enxergar esse quadro maior de uma questão tão íntima com real clareza, é preciso uma sensibilidade e qualidade intelectual peculiar segundo Mills: a imaginação sociológica.

A imaginação sociológica capacita para perceber o cenário histórico em seu significado para a vida pessoal e profissional, é a capacidade de passar da perspectiva pessoal para a política e vice-versa. Os problemas de valores e papéis são vividos nos pequenos ambientes cotidianos onde acontece a vida social, e a ligação com as grandes questões públicas pode parecer desapercebida. Mas esses pequenos ambientes onde se discute e sente a perturbação nos valores estimados pelos grupos antagônicos são interligados na estrutura social maior, onde os problemas políticos que concernem ao destino das pessoas são sentidos como distantes e importantes demais para o cidadão comum – mais dignos dos técnicos do governo. Mas as questões públicas tem uma ligação própria com os dilemas privados, fala-se muito de homofobia, corrupção e violência na vida cotidiana e no Facebook, mas protesta-se pouco à favor ou contra. A sociologia pode demonstrar como funciona a sociedade, não como deveria funcionar, mas frente a ela qualquer discurso formulado em termos ideológicos tende a se desmoronar para revelar o verdadeiro jogo social. Inclusive o do governo. E os alunos podem se interessar especialmente por ver cair os discursos da escola, de seus pais, ou… os seus próprios.

A sensibilidade da imaginação sociológica permitiria bolar uma percepção  da estrutura social capaz de produzir uma “transvaliação” de valores, de perceber a ligação que sistemas de valores diferentes têm com grupos e relações de poder, permitir assim uma compreensão da história e de como isso os afeta. Formular dilemas pessoais e problemas públicos para além do senso comum. Dos resultados imprevistos de nossas visões de mundo limitadas ou invertidas pelas justificativas de privilégios, prerrogativas e funções (a.k.a. ideologia).

A sociologia é uma forma de cosnciência completamente moderna, possível pela velocidade das mudanças históricas na modernidade e a relativização dos valores, mas segundo Touraine (1976), nossas sociedades custam a resignar-se à inevitável existência da sociologia. A resistência mais profunda a sociologia reside no apego à crença de que fatos sociais são dirigidos por uma ordem superior metassocial: o Homem, o Deus, a História, a Líbido. Sabemos que sociologia não se faz com maiúsculas, mas devemos esperar encontrar declarada ou acanhada esse tipo de visão. Essa é uma resistência normal, mas devemos suscitar nos alunos que o ponto de análise não deve ir de encontro ao ponto do autor. Não há uma posição confortável para o sociólogo, ele só trabalha destruindo a própria identidade.

Poderíamos formular que a imaginação sociológica nos leva à perspectiva sociológica e até mesmo que os dois termos designam mais ou menos as mesmas coisas em comum, mas não me interessa muito como chamar corretamente esse modus operandi da sociologia. Mas como levar os alunos à reconhecê-lo como pertinente da mesma forma que nós consideramos (o que não se limita ao exercício da profissão de pesquisador)?

A sociologia afinal não se constitui a partir de uma ausência de saber sobre a sociedade, mas constitui-se na eração contra categorias de interpretação que fazem parte das práticas sociais. O sociólogo extrai os fatos sociais dos fatos sociológicos através da crítica das práticas sociais. E é preciso fazer a crítica dos próprios papéis que a ordem espera dele. O mesmo vale para nossos alunos, devemos levá-los também a entender melhor suas possíveis resistências e relações com a escola. A crítica das práticas sociais e dos discursos oficiais também é uma autocrítica.

A graça da sociologia, se me permitem o abuso da confissão, é essa busca de distanciamento e controle sobre os próprios valores e ideologias e o convite para novas perspectivas sobre problemas que permitem repensar sobre o modo como agimos e nos relacionamos. Nas ciências sociais, certos autores podem nos causar completos abalos de cosmovisão de mundo. Como professores também pretendemos causar este impacto em nossos alunos, ao menos enquanto acreditarmos na sedução intelectual.

Podemos nos esforçar para tratar cada aluno como único, buscar entender o que ele já sabe e o que lhe interessa entender, reconstruir a frágil relação professor-aluno todos os dias enquanto eles buscam refugiar-se fora da escola, mas o sucesso dessas medidas depende de nossa crença nas suas capacidades. E queremos que sejam pela sociologia capazes de exercer melhor sua “cidadania”. Melhor seria dizer a capacidade de compreender as limitações dos discursos daqueles que querem governar sobre ele (inclusive professores) e de suas próprias intenções e modos de agir e pensar. Ainda não sabemos bem como fazê-lo, somos recém licenciados de uma matéria “outsider” na grade curricular e não há fórmula mágica ou ferramenta pedagógica ideal; só sabe-se que muito depende do “efeito professor” para o sucesso (DUBET, 1997), algo que afinal de contas só se pode tentar dominar mais pela prática do que pela teoria.

Bibliografia:

BERGER, Peter. Perspectivas sociológicas: uma visão humanística. Petrópolis: Vozes, 1986.

DUBET, François. Quando o sociólogo quer saber o que é ser professor: entrevista com François Dubet. in: Revista Brasileira de Educação nº6 Set/Out/Nov/Dez 1997

MORAES, Amaury César. Licenciatura em ciências sociais e ensino de sociologia: entre o balanço e o relato. in: Revista Tempo Social, USP, abril 2003.

TOURAINE, Alain. Em defesa da sociologia. Rio de Janeiro: Zahar, 1976.

WEBER, Max. Ciência e Política: duas vocações. São Paulo: Cultrix, 2007.

WRIGHT-MILLS, Charles. A Imaginação Sociológica. Rio de Janeiro: Zahar, 1972.

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