Por uma proposta de método

Uma proposta de método a partir da Fenomenologia e conceito de mundo da vida de Schutz, e as teorias de alcance médio de Merton.

Schutz foi um sociólogo muito influente no desenvolvimento da disciplina nos Estados Unidos, seguidor da corrente fenomenológica, que estuda a forma experiencial (ou sensorial) dos eventos.

Muito de seus escritos se dirigem à consolidação da corrente fenomenológica e teorização da percepção dos fenômenos pelas pessoas, ou seja, como as pessoas percebem os fenômenos e como a sua experiência em relação a eles da base a toda a sua construção de mundo e percepção. Schutz deixava claro que era necessário tomar consciência do centralismo do eu para poder iniciar uma tentativa de compreensão mais ampla do cenário social, e essa consciência, assim como as experiências, era obtida dentro de um espaço a que Schutz chamou “Mundo da vida”.

O Mundo da vida é o espaço onde vivem os indivíduos. Diferente do espaço cientifico ou o mundo das idéias, este mundo da vida é habitual e sensível (perceptível), e carrega um conhecimento que lhe é próprio, o conhecimento de sentido comum.

O conhecimento de sentido comum é prático (aplicável, permite que aqueles que o possuem o operem e tomem decisões apoiados nele), significativo (possui determinações e lógica própria, carrega significado) e intersubjetivo (é construído por sobre as consciências individuais, uma biblioteca onde os livros só são escritos se entendidos de maneira semelhantes por vários indivíduos.)

Para se perceber um problema ou fenômeno social, é preciso primeiro tomar a consciência do centralismo do eu nas experiências de vida diária, e perceber que inclusive as experiências que os outros vivem absorvemos com base na absorção prévia que realizamos dessa experiência ou de experiências parecidas. É preciso colocar-se no lugar do ator e romper com a atitude natural. Isso significa questionar a naturalidade dos eventos e ações que experimentos em nosso dia a dia.

A proposta é fazer os alunos romperem com a atitude natural, tentar entender o que não é explícito, mas mesmo assim gera efeito. É provocá-los, no sentido de perceber o que está acontecendo no mundo ao redor que só se percebe quando se olha com atenção.

Desta maneira, tenta-se trazer à sala de aula os problemas e tensões que os alunos encontram em suas próprias vidas e relações diárias, para que eles entendam que existe a possibilidade de se apreender esses fenômenos e identificá-los.

Esse é um bom caminho para identificar um problema, ou um contraste, uma tensão. Mas, fora evidenciá-lo, não nos entrega muitas ferramentas para operá-lo. Nesse momento, entra Merton e as teorias de alcance médio.

Merton é um escritor também importante no cenário norte-americano da Sociologia, um dos maiores representantes do funcionalismo, corrente que tenta identificar os itens, eventos e ações dentro do mundo social que cumprem determinadas funções que permitem que o mundo social siga existindo.

Também é reconhecido pela importância que dava ao que chamou de “teorias de alcance médio”. Trata-se de teorias dentro da Sociologia que não necessariamente explicam todos ou qualquer fenômeno universal nas constituições sociais, tampouco resolvem problemas para além daqueles a que se propõe desde início (o que em outras ciências pode ser chamado unicamente de teoria), mas que podem ser observadas e testar paradigmas de teorias universalistas, justificando-as ou refutando-as.

Assim, depois de identificar um problema a partir do modelo de Schutz, poderíamos teorizar sobre suas consequências, funções e determinações a partir de uma teoria de alcance médio a ser construída com os alunos e, a partir dela, apresentar paradigmas maiores e teorias mais generalizantes como as de Weber e Marx. Por exemplo, depois de encontrar um problema no mundo do trabalho e teorizar sobre as origens e consequências de determinado efeito, pode-se encaminhar a discussão para a nomeação dos efeitos e eventos encontrados (como a alienação do trabalho, a mais valia, ou até mesmo a ética do trabalho ou status), levando os alunos a reflexionar e se apropriar melhor de conceitos abstratos das grandes teorias a partir da experiência (fenomênica) de sua pesquisa ou identificação dos problemas.

Esse método de ensino de Sociologia pode se adequar aos mais distintos projetos de disciplina, assim como as diversas obrigações curriculares. Ele permite o ensinamento de conceitos importantes junto com o desenvolvimento de um tipo de pensar próprio da Sociologia, além de familiarizar os alunos com metodologias utilizadas para a construção do saber sociológico.

 

Referências

 Social theory and social structure

RK Merton – 1968

Schütz… – 1980

O Educador Profissional e o Cotidiano Escolar

http://lucimaramaia.com.br/index.php?option=com_content&task=view&id=20&Itemid=8

Alfred Schutz

http://plato.stanford.edu/entries/schutz/

Alfred schutz e o mundo social interpretado, Tomás A. da costa Batista, UFRJ, 2009

 

 

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