Reflexões a cerca da obra “O reino deste mundo”

Gostaria de compartilhar comentários sobre essa obra literária, pois acredito na possibilidade de usá-la para aproximar os alunos, da disciplina de sociologia no ensino médio, dos estudos africanos. Nos últimos anos acompanhamos uma tímida iniciativa por uma inclusão do mundo africano nos materiais didáticos e paradidáticos das escolas. O que creio ser uma tarefa difícil nos dias de hoje, em que ainda somos assolados pelo preconceito étnico e racial. Nesse contexto a leitura e discussão dessa obra que explora o fantástico e o real pode ser interessante para se pensar como abordar esse tema na disciplina de sociologia.

Em O reino deste mundo o escritor cubano, Alejo Carpentier, inaugura o que chamou “real-maravilhoso”. Ao contrario da narrativa surrealista, que forjaria um contexto mágico, o real-maravilhoso nasce de um contexto natural. Ele brota da realidade latino-americana que em seu cotidiano convive com o constante diálogo entre as dimensões naturais e sobrenaturais da vida. Isso se tornou evidente para o autor depois de pisar em solo haitiano, uma terra em que os encontros entre o mágico e o real contribuíram imensamente para uma revolução realizada por escravos e ex-escravos, o que levou o país à independência.

O intuito deste trabalho é nos lançar nesse mundo real e ao mesmo tempo fantástico do qual nos fala Carpentier. Nessa narrativa autêntica que nos mostra uma maneira diferente de ver a realidade, que não o dualismo europeu, onde há brancos e não-brancos (inferiores). Apresentarei alguns dos eventos descritos no livro tentando, na medida do possível, destacar certos personagens e acontecimentos que dialogam com elementos como religião, antepassados, condição social.

Em meio a dados reais e fictícios Carpentier nos conta a história do primeiro país a se tornar independente por meio de uma revolução realizada por negros. Como o próprio autor define no texto se narra “uma sucessão de fatos extraordinários, ocorridos na ilha de São Domingos, em determinada época que a duração de uma vida humana não alcança, deixando-se que o maravilhoso flua livremente de uma realidade estritamente seguida em todos os seus detalhes” (2009,p.11).

Logo no primeiro capítulo nos deparamos com dois mundos, dois modos de vida que coexistem em certo tempo e espaço. O mundo dos escravos e o mundo dos senhores. E é através da figura de Ti Noel, escravo negro que protagoniza o romance, que há certo contato entre senhores e escravos e a sugestão dessa oposição.

Em uma visita ao açougue da cidade com seu amo, Ti Noel, se diverte ao imaginar que ao lado das cabeças de bezerro se serviam cabeças de brancos. Um mundo não percebe o outro que convive ao seu lado diariamente. Nesta mesma visita Ti Noel é atraído por algumas gravuras, de altos personagens do cenário francês e de um rei africano, que evidenciam a oposição entre o comportamento da corte francesa e os reinos de Arada, dos nagôs e dos fulas. Para ele que ansiava por liberdade e um reino mais justo, aquele rei africano é que era rei de verdade e não aqueles “soberanos cobertos de cabelos alheios, que jogavam a bola e só sabiam fazer-se de deuses nos cenários de seus teatros da corte”(2009, p. 17).

Ti Noel havia sido alimentado pelos contos do mandinga Mackandal. A figura do negro Mackandal fascinava Ti Noel e muitos outros escravos. Ele foi visto como uma espécie de ser sobrenatural. Tinha o poder, licantrópico, de se metamorfosear em diversos animais. Ele podia aparecer em qualquer lugar a qualquer hora. Assim conseguiu uma onipresença, e uma fé tão grande dos escravos em sua entidade, que lhe garantiu poder suficiente para executar uma revolta à distância. O mandinga, assim como várias outras imagens criadas pelo autor, realiza um resgate da memória africana. Espalhando suas histórias em meio aos escravos, e encontra em Ti Noel um fiel seguidor.

Mackandal trabalhava arduamente na lavoura quando perdeu o braço que ficou atarracado em um moinho. Passou então a cuidar do gado, o que lhe deu mais tempo e possibilidade de conhecer melhor os diversos tipos de plantas e recursos de que a natureza ao seu redor dispunha. Comparando-os com os que já conhecia em solo africano, descobriu ervas venenosas que poderiam ser, e foram, usadas contra a opressão dos brancos. Esse personagem originário da Guiné, tirado da real história haitiana, em 1757 assume a liderança de um bando de fugitivos organizando uma grande rebelião escrava. O vodu desempenhou importante papel no levante, assim como em toda a história haitiana. Como podemos encontrar no relato histórico do livro “O Deus da resistência negra: O vodu haitiano”, Makandal “utiliza as crenças do vodu em sentido profético e incita os negros a matar os brancos através de veneno. Capturado durante uma cerimônia do vodu, foi queimado vivo. Mas os negros continuaram a venerar Makandal como profeta e, desde então, todos os venenos, sortilégios e malefícios usados por eles passaram a ser chamados de makandals. O caráter político do vodu tornou-se tão evidente que tudo se fez para impedir qualquer manifestação religiosa dos negros”(1987,p. 67). E isso se torna ainda mais interessante e elucidativo quando, na leitura de O reino deste mundo, o autor coloca um mistério em torno da fonte do veneno. Não se sabia como ele avançava, o que aterrorizava os brancos que agora bêbados e amedrontados torturavam mais ainda seus criados em busca de uma resposta.

Os colonos não acreditavam na capacidade de agência dos negros. Eles os exploravam em altíssimo grau e os subestimavam demais para acreditar na possibilidade de uma reação em larga escala, uma vingança, uma libertação. E como qualquer povo oprimido, eles queriam o extermínio de seus opressores. E no livro podemos enxergar bem a indiferença do branco e o desejo de vingança e libertação do escravo, a passagem das cabeças dos bezerros e dos brancos lado a lado, ilustra bem essa situação. Já na primeira revolta ocorre um envenenamento em massa de colonos e animais. Podemos também aqui sentir que a presença do vodu foi uma premissa importante para que uma organização maior fosse possível. “ O vodu era o meio da conspiração. Apesar de todas as proibições, os escravos viajavam quilômetros para cantar, dançar, praticar os seus ritos e conversar; e então, desde a Revolução, escutar as novidades políticas e traçar os seus planos” (2000p.91).

Estou tentando sublinhar o vodu, pois acredito na tese exposta na obra de Laennec Hurbon, citada anteriormente. Segundo a qual o universo do vodu é o lugar por excelência onde se manifesta a originalidade haitiana. Diante de uma história tão manchada de sangue e sofrimento o espectro da mudança havia de começar a rondar. E “ já nos navios negreiros e, depois, nas plantações de cana-de-açúcar, o suicídio, a greve de fome, a recusa em receber remédios eram sinais de que o vento da revolta começava a soprar. Ao longo do processo, a resistência dos negros encontra nova expressão dessa revolta na antiga religião dos antepassados: o vodu. E nas clareiras das florestas, como no interior das senzalas, ou ainda abafadas nas plantações, por toda parte vozes se elevam para entoar cânticos e loas, os espíritos africanos que, só eles, podiam restituir aos negros a sua coesão social” (1987,p. 8). E assim o vodu como uma visão de mundo autêntica representa, dentre outros aspectos, a resistência de um povo frente às péssimas condições históricas pelas quais atravessaram, de escravos à dominados pelo estrangeiro, passaram ao subdesenvolvimento e sucessivas ditaduras políticas. Enfim, como Hurbon cita brilhantemente, o vodu é uma “linguagem que permite situar-se no mundo”. (1987,p.11).

Retomando o enredo do livro, depois de duramente abafada a revolta encabeçada por Mackandal “os escravos retornaram a suas fazendas rindo por todo o caminho. Mackandal cumprira sua promessa, permanecendo no reino deste mundo. Uma vez mais os brancos eram ludibriados pelos altos poderes da outra margem”(2009,p. 45). Apesar da morte de Mackandal, a fé fez com que ele continuasse inspirando os escravos a não se contentarem com aquela situação, que como descreve com detalhes o autor era horrenda, as extrema-unções chegavam atrasadas. Ti Noel conta repassa as histórias contadas pelo mandinga. E no final dessa primeira parte do livro vemos que a oposição de imagens e mundos não diminui, ao contrario ela é aprofundada.

Na segunda parte do livro o autor se concentra mais em descrever melhor os personagens, mostra os conflitos sendo atenuados e ao mesmo tempo algumas assimilações. Os universos se misturam em certa medida. Os brancos se divertem no caos estabelecido, nas hierarquias da colônia que estavam ruindo e os negros tem que assimilar certos aspectos da religião dos brancos. Ele descreve uma relação que se estabelece entre uma branca, Paulina, e um criado, o negro Solimán que mais adiante aparece como criado do rei Henri Christophe. Ti Noel que em uma igreja espanhola encontra um calor de Vodu.

É também nessa parte que surge Bouckman, liderando uma rebelião. Bouckman convoca os negros à matarem os senhores, estuprarem as mulheres e queimarem as fazendas, nas seguintes palavras “ O deus dos brancos ordena o crime. Nossos deuses nos pedem vingança. Eles conduzirão nossos braços e nos darão assistência. Quebrem a imagem do deus dos brancos, que tem sede de nossas lágrimas; escutemos em nós mesmos o chamado da liberdade!”(2009,p.54). E quando chegou a hora como o coro de milhares de caracóis, imagem construída pelo autor, os negros pegaram nas ferramentas e saíram sugando as mãos no sangue da vingança. A rebelião acabou e a cabeça de Bouckman cortada. A colônia ruía.

Na terceira parte da obra Ti Noel anda livre na terra onde a escravidão havia sido abolida. Entretanto agora sob o domínio dos signos europeus da corte de Henri Christophe. E dessa forma Ti Noel cai na contradição representada pelo reinado de Henri, rei negro que escraviza negros, e acaba sendo obrigado a trabalhar na construção da cidadela de La Ferriére, monumento símbolo deste governo. E todas as tentativas de resistência foram caladas com morte. E segundo o autor o que era pior ainda, era que “ havia uma infinita miséria em ver-se espancado por um negro, tão negro como os demais, tão beiçudo e acarapinhado, tão nariz largo como os demais” (2009,p.93).

No reinado de Henri Christophe, assim como em diversos depois da independência, o culto ao vodu era tratado com grande intolerância. Havia um desejo de trazer o Haiti a luz da “civilização”, além do que poderia ser perigoso para manutenção do sistema político. A terceira parte termina com a queda e morte de Henri Christophe. Tudo descrito de forma bem emblemática. As fortalezas do Castelo de Henri Christophe continha sangue de touro o que o protegia dos brancos, mas não contra a força dos negros . E o rei acaba engolido pelo cimento de seu próprio Castelo.

Em meio a outros desdobramentos, como o delírio de Solimán, a última parte do livro mostra que a liberdade dos haitianos era ameaçada novamente. Agora nas mãos dos mulatos republicanos, com a figura dos agrimensores, eram obrigados a cumprir tarefas agrícolas. O que Bouckman e Mackandal não puderam imaginar em suas vidas. O autor descreve tamanho desapontamento e desespero de Ti Noel que já em idade avançada via seus iguais sob o açoite de alguém novamente. Diante disso, lembrando de Mackandal, ele pensa que a roupagem de homem traz muita desgraça, melhor seria transformar-se em animal, e começa a se metamorfosear. E vemos aqui também a imagem de Ti Noel rei, um rei com seu poder adquirido pelo que sofreu nesse mundo. Um rei que conclui que a vida lá seria um “infindável reviver de cadeias, esse renascer de grilhões, essa proliferação de misérias”. E por fim, deixando somente seu corpo como herança, Ti Noel diz que nunca se sabe por quem se padece e se espera, “padece e espera e trabalha por pessoas que nunca conhecerá, e que por sua vez padecerão e esperarão e trabalharão para outros que tampouco serão felizes, pois o homem anseia sempre por uma felicidade situada mais além da porção que lhe é outorgada. Mas a grandeza do homem está precisamente em querer melhorar o que ele é. Em impor-se tarefas. No Reino dos Céus, não há grandeza a se conquistar pois la tudo é hierarquia estabelecida, incógnita relevada, existir sem fim, impossibilidade de sacrifício, repouso e deleite. Por isso, esgotado pelas penas e pelas tarefas, belo dentro de sua miséria, capaz de amar em meio as pragas, o homem só pode encontrar sua grandeza, sua máxima medida, no Reino deste Mundo”(2009,p. 131). Depois de todos essas reviravoltas que acabam voltando na calamidade, me parece que a ultima mensagem é de certa tolerância, para que melhoremos no Reino deste Mundo.

Bibliografia

HURBON, Laennec. O Deus da resistência negra: o vodu haitiano. São Paulo: Edições Paulinas, 1987.

CARPENTIER, Alejo. O reino deste mundo. São Paulo: Martins Martins Fontes, 2009.

JAMES, C. L. R. Os jacobinos negros: Toussaint L’ Ouverture e a revolução de São Domingos. São Paulo: Boitempo Editorial, 2000.

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