Resenha – Cadernos de Sociologia – 2ª Série, V. 3

Resenha dos cadernos de sociologia elaborados pelo governo do Estado de São Paulo.

Esta resenha foi feita pelos alunos:

Cristhiane Falchetti      100956

André Krein                 115523

O Volume 3 da segunda série dos cadernos de sociologia traz como tema central o Trabalho. Este é um tema clássico da Sociologia e, sem dúvida alguma, é fundamental para se entender diversas das explicações sociológicas sobre a realidade social.

O conteúdo está divido em quatro eixos: a) o significado do trabalho: trabalho como mediação; b) divisão social do trabalho; divisão sexual do trabalho e etária do trabalho, divisão manufatureira do trabalho; c) processo de trabalho e relações de trabalho; d) transformações no mundo do trabalho: emprego e desemprego na atualidade.

A seleção dos conteúdos e a sequencia de apresentação adotada nos cadernos se dá de maneira adequada, porém contempla somente alguns conceitos e discussões que envolvem o mundo do trabalho e que são tratados pela Sociologia do Trabalho. Assim, a apresentação do tema inicia-se pela definição conceitual do trabalho, procurando caracterizá-lo como uma atividade essencialmente humana. Em seguida, são retomadas as diversas formas de divisão do trabalho e como se organiza a sociedade capitalista, apresentando suas principais características em relação ao trabalho. Por fim, discutem-se as principais transformações ocorridas no mundo do trabalho nas últimas décadas, diferenciando-se os principais modelos de produção e organização do trabalho, e os impactos da reestruturação produtiva da década de 60/70 nas relações de trabalho e na produção. Destaca-se muito a situação do jovem em relação ao desemprego. Apesar disso ser importante, é bom deixar claro que o desemprego não é um problema particular do jovem.

Já no que se refere ao tratamento dado aos conteúdos há alguns problemas, aos quais se está exposto quando se tenta simplificar teorias e conceitos mais complexos. A linha de argumentação do texto trabalha com orientação e referências marxistas, mas alguns conceitos marxistas, como mais-valia, alienação e exploração, não apresentam uma explicação muito clara. A matriz marxista é menos presente na última parte do caderno, quando se discute o desemprego. Nesse ponto, recorre-se mais a dados e estatísticas sobre o emprego, relacionando-o a escolaridade, faixa etária, e região geográfica, mas não apresenta uma discussão sobre o desemprego estrutural e as várias formas de precarização do trabalho na sociedade contemporânea. Achamos que a discussão sobre o emprego e a organização do trabalho no presente, por ser uma aspecto fundamental da sociedade e uma situação pela qual todo o jovem se depara, deveria ser melhor explorada. Trata-se de uma discussão que está presente na vida dos jovens, mas que nem sempre é entendida por eles com a devida clareza e objetividade.

Além disso, também poderiam ser retomados alguns conhecimentos históricos sobre as diferentes sociedades, o sentido do trabalho em cada uma delas, e como a divisão do trabalho era justificada. Com isso, é possível levá-los a questionar a “naturalidade” da ordem das coisas, o que pode ser mais perceptível quando se observa a dinâmica histórica da sociedade.

Nesse sentido, de retomar alguns conhecimentos, a articulação com as outras disciplinas é um ponto extremamente importante no ensino de sociologia no ensino médio, analisando o caderno verifica-se a necessidade da contextualização histórica e geográfica dos alunos sobre o conteúdo discutido. Quando o professor falar em Idade Média ou em feudalismo, os alunos precisam estabelecer as relações cognitivas da sua aula de história e de geografia e saber o que está sendo discutido. Por isso é importante que as disciplinas, principalmente as humanas, não estejam em descompasso com os conteúdos. Para exemplificar, ao analisarmos novas formas de produção e relação de trabalho após a Revolução Industrial, a aprendizagem se dará de uma forma muito mais fácil e natural se os alunos já tiverem estudado Revolução Industrial na aula de História.

A não neutralidade do ensino de sociologia é constatada aqui em duas dimensões. A primeira se dá na escolha do que vai ser inserido no material, e a segunda se dá na forma de como esse conteúdo vai ser ensinado. Em relação à primeira dimensão, o conteúdo a ser discutido é demasiado longo e complexo para ser dado em apenas um bimestre, portanto é necessário fazer um corte dos temas e conceitos principais a serem tratados em sala de aula na formulação dos Cadernos e seus conteúdos. Nesse sentido, a orientação do caderno contempla alguns aspectos, porém deixa outros de lado, que no nosso ponto de vista seriam essenciais, como: os direitos trabalhistas, formas de contratação, precarização do trabalho em diversos níveis e principalmente o sindicalismo e organização de trabalhadores, que além de importantes historicamente na formação da sociedade contemporânea, são extremamente importantes no sentido de educar civicamente os alunos, tratando inclusive de conceitos sociológicos essenciais, como o  individualismo presente em nossa sociedade.

A outra dimensão constatada, da não neutralidade, se dá na forma de como o conteúdo é passado aos alunos, essa dimensão é identificada principalmente na parte do caderno sobre o desemprego. As pesquisas utilizadas não possuem a contextualização política e econômica necessária, por exemplo, é citado o desemprego em 2008-2009 sem fazer nenhuma citação à crise econômica que existiu nesse período. Outro caso é a existência de um espaço de destaque dentro do caderno destinado ao desemprego entre os jovens, entretanto, é colocado que o desemprego entre os jovens cresceu nas últimas décadas, portanto o “problema só aumentou” e a “situação só piorou”, e por fim é citado três motivos para o desemprego ser maior entre os jovens, alta rotatividade, baixa qualificação e baixa escolaridade. No caderno está ausente uma reflexão mais apurada sobre o tema, já que a qualificação e a escolaridade dos jovens aumentaram nas últimas décadas, por que o desemprego também aumentou? Existem outros motivos para esse número ter aumentado, um deles é que o jovem geralmente (existem exceções) não possui a mesma necessidade de trabalhar do que um adulto. Um adulto com filhos para sustentar possui muito mais responsabilidade e, portanto, maior necessidade de conseguir um emprego, levando-o assim a poder escolher menos do que um jovem. Assim, se a economia esta mal e o desemprego está alto, um jovem com um pai desempregado acaba por vezes tendo a mesma necessidade de conseguir um emprego, se sujeitando a qualquer trabalho que consiga, se a economia melhora e um jovem possui um pai e uma mãe empregados, ele não precisa se sujeitar a qualquer emprego e pode escolher melhor. Portanto, conforme a economia melhora, o desemprego dos jovens será o último a cair, primeiramente virão as outras faixas etárias que não possuem ninguém para os sustentar, esse é um processo natural em todos os países que possuem uma estrutura semelhante a do Brasil. Assim, é plausível que o desemprego entre os jovens cresça em situações específicas porque a situação geral do país melhorou, e não por que a situação piorou.

A educação crítica e de qualidade passa pela análise dos dados com a contextualização política e econômica necessária, por exemplo, analisando os dados atuais da PME (Pesquisa Mensal de Emprego) do IBGE, é identificada uma taxa de desocupação entre a população de cinquenta anos ou mais na casa de 2%, o que já pode ser considerado pleno emprego. Porém, essa faixa etária possui as piores condições de trabalho no que se refere a informalidade, trabalho por conta-própria e rendimento. Devido a situação dos anos 1970 e 1980 grande parte da população perdeu seus empregos e não conseguiu mais se reinserir no mercado de trabalho, possuindo como alternativa somente trabalho com condições precárias. Então, o que a priori seria uma condição ótima para a população de cinquenta anos ou mais, não é tão ótima assim quanto mostram os dados.

Embora haja uma linha marxista na explicação dos cadernos em relação à alguns conceitos, o texto de Alba Zaluar inserido no caderno explicita uma educação de passividade e uma ideologia de manutenção da propriedade privada a qualquer custo que o professor deve ficar atento ao passar o conteúdo para seus alunos, já que esse pensamento é predominante mesmo entre os professores. Primeiramente é colocado que mesmo não tendo emprego e com a família passando fome não se deve roubar, e em seguida o autor cita um caso em que a família é extremamente explorada e está feliz por isso, pois estão melhores do que se não tivessem nada. Não existe no caderno nenhuma proposta de discussão sobre o texto, dá a entender, portanto, que isso fica a critério do professor, entretanto esse é talvez o assunto mais delicado do caderno inteiro e merece ser melhor trabalhado.

Como orientação para as discussões e análises a serem organizadas pelo professor,  seria interessante a inclusão de alguns pensadores importantes da sociologia do trabalho como: Clauss Offe e sua teoria sobre contrato de trabalho e relação de dependência; Gosta-Esping Anderson e os regimes liberais, corporativistas e universalizantes; Danielle Kergoat em relação à divisão sexual do trabalho; Harry Braverman e a dissociação do processo de trabalho; André Gorz e a sociedade dual com a distinção de trabalho autônomo e heterônimo; Michel Aglietta e o fordismo, taylorismo e a Escola da Regulação; Antonio Gramsci  e o estudo sobre americanismo e fordismo; Jean Pierre Durand e o trabalho no fluxo tensionado;  Leôncio Martins Rodrigues e o sindicalismo, entre outros.

A forma de apresentação e exposição dos conteúdos segue a seguinte sistemática: a) sondagem e sistematização dos alunos sobre o tema por meio de questões relacionadas a sua experiência de vida; b) apresentação e discussão dos conteúdos, utilizando textos, gráficos, figuras, etc; c) avaliação do aprendizado por meio de atividades, pesquisas, ou questões.

Essa dinâmica de aula é interessante porque permite, primeiro, identificar a percepção e o conhecimento que os alunos já têm sobre determinado tema. Ao mesmo tempo, as questões lançadas podem despertar o interesse ou curiosidade do aluno para aquela discussão, fazendo com que ele reflita e expresse a sua opinião. Pode-se partir de questões relacionadas a experiência de vida dos alunos, levando-os a refletirem sobre sua própria realidade a partir de um olhar mais crítico e científico. Para isso, a parte de exposição dos conceitos e teorias deve manter uma ligação com a discussão levantada e oferecer suporte para que o aluno possa interpretar a realidade com base em novos conhecimentos. Contudo, essa mediação entre conteúdo teórico e análise da realidade concreta depende muito da forma como o professor conduz a aula, e não tanto do material didático em si. Este oferece apenas uma orientação quanto aos conteúdos, mas a dinâmica da sala e o perfil dos alunos podem variar muito de uma turma para a outra.

Em algumas propostas de aulas dos Cadernos também contém atividades de pesquisa ou leitura como forma de aprendizado e ampliação do conhecimento. Algumas atividades são interessantes, mas outras poderiam ser repensadas e solicitadas pelo professor com base na sua experiência com a turma. Na parte final de cada “situação de aprendizado” procura-se fazer uma avaliação de quanto os alunos aprenderam ou entenderam daquilo que foi apresentado e discutido. Esse procedimento é importante para que se tenha um retorno sobre o trabalho desenvolvido e para que se possa sanar possíveis problemas ou dúvidas no processo de aprendizado. Contudo, nem sempre essa atividade é bem sistematizada e enfatizada.

De modo geral, os conteúdos e a exposição sobre o tema parecem estar adequados ao ensino de sociologia no ensino médio, porém são insuficientes. Eles apresentam ao aluno alguns conceitos e discussões fundamentais para a compreensão da sociedade capitalista e das relações de trabalho nesta, mas se omitem em determinadas passagens em que seria possível um aprofundamento maior. Embora o conteúdo seja apresentado de forma simplificada e superficial, entendemos que ele tenha de atender uma dada situação específica em que se encontra o ensino público: precária. Não se trata de subestimar a capacidade e o direito desses alunos aos conteúdos científicos, mas é preciso sensibilidade para com a realidade que enfrentamos e para perceber o ritmo com que podemos avançar com cada aluno. Cabe enfatizar, ainda, que os Cadernos servem de orientação ao professor, mas não o limita a eles, de modo que o professor pode, e deve, complementar as aulas com outros materiais, explicações, e perspectivas analíticas. Entendemos que os Cadernos servem como um material de apoio, mas não uma cartilha. Muito do ensino se faz no ato de ensinar, que também é um ato de aprender. Diversas situações e experiências em sala de aula vão fazer com que o professor identifique a necessidade de trabalhar de outras formas ou com outros conteúdos e materiais que não o material didático proposto.

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