A instituição escolar a partir de Bourdieu

Este post foi produzido pelos alunos Mariane Montibeller Silva RA085946 e Roberto Carlos Simões Jr. RA073681

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A obra de Pierre Bourdieu tem grande relevância na compreensão das estruturas de dominação e reprodução da ordem social. O objetivo do texto aqui analisado é explicitar essas estruturas analisando especificamente a instituição escolar. Para tanto, o autor lança mão do arcabouço conceitual próprio de sua obra, trabalhando especificamente com o conceito de capital cultural, mas indiretamente com os conceitos de habitus e espaço social.

A tese de Bourdieu é que a escola, longe de ser uma instituição “libertadora”, legitima desigualdades sociais, tanto no que diz respeito ao acesso quanto à permanência e à escolha da escola. Isso se deve ao fato de que cada família transmite um certo capital cultural a seus filhos, o que condiciona a ação da criança em relação à instituição escolar. Aprofundaremos então o conceito de capital cultural[1], entendendo que, embora Bourdieu não mencione diretamente nesse texto, esse conceito é indissociável do conceito de habitus.

Existe, para Bourdieu (1996), uma estrutura objetiva em que estão situados os agentes sociais[2]. A ação desses agentes é pautada pelo habitus, que seria então o princípio gerador de toda prática; a interiorização de estruturas objetivamente determinadas. O que decorre disso é que para diferentes posições em que agentes se encontram no espaço social existem diferentes práticas, diferentes habitus. Desse modo, o habitus tem um caráter de classe[3].

Daí podemos entender que o conceito de capital cultural deriva diretamente do conceito de habitus. A família transmite, mais ou menos inconscientemente, uma quantidade de capital cultural para seus filhos, capital esse que é acumulado durante gerações. Bourdieu estabelece uma correspondência bastante clara (e embasada em estatísticas) entre a quantidade de capital cultural transmitida e o desempenho escolar – quanto mais alta for a “origem social” do aluno, maior é a chance de se atingir um desempenho satisfatório, de se chegar a uma universidade, de se dominar a linguagem, de se entender o código artístico, etc. Isso se deve ao fato de que a escola exige de seus alunos a detenção de “boas maneiras”, “bom gosto”, o que só pode ser adquirido e incorporado a partir da transmissão de capital cultural.

Desmistifica-se, portanto, a partir do argumento de Bourdieu, a “ideologia do dom” – especialmente a elite tende a atribuir ao “dom natural” ou ao “mérito” a boa performance escolar, enquanto essa é, como mostra o autor, determinada objetivamente e interiorizada pelos agentes sociais. Ademais, não somente o desempenho do aluno na escola está relacionado à categoria social a que esse pertence, mas a própria escolha e objetivos dos pais frente à educação deixam transparecer (e reproduzem) a estratificação social. Bourdieu cita o caso francês: a escolha de enviar o filho a um liceu (o que permitiria a extensão dos estudos até a universidade) ou a um colégio de ensino geral (o que garantiria um certificado profissionalizante) revela um habitus de classe. Quando um jovem de classe baixa diz que não pretende cursar uma universidade, está expressando uma impossibilidade imposta pela estrutura objetiva e uma subjetividade incorporada por ele.

Atribui-se assim um papel preponderante à atitude da família, pautada pelo capital cultural e pelo habitus, na determinação do prosseguimento ou não dos estudos, bem como na existência ou não de um “ethos[4] de ascensão social”. Atenta-se também para o caráter cumulativo das vantagens e desvantagens estabelecidas pela posição social em que os agentes estão; ou seja, há forte ligação entre as escolhas e o desempenho do aluno nos primeiros anos e as oportunidades que aparecerão posteriormente.

Com base nessa análise, Bourdieu retoma a tese de que a escola é uma instituição conservadora, muito embora predomine na sociedade a idéia de que exista uma equidade de oportunidades para todos. A prática pedagógica que não considera as desigualdades herdadas, exigindo um capital cultural elevado de todos, serve de máscara para o caráter conservador da escola. Essa reprodução também se deve ao fato de que os próprios educadores são “produtos de um sistema voltado para a transmissão de uma cultura aristocrática em seu conteúdo e espírito” (Idem, p. 54), e julgam todos os estudantes, inclusive aqueles oriundos de classes populares e médias a partir de valores da elite:

“Nota-se, evidentemente, que um sistema de ensino como este só pode funcionar perfeitamente enquanto se limite a recrutar e a selecionar os educandos capazes de satisfazerem às exigências que se lhe impõem, objetivamente, ou seja, enquanto se dirija a indivíduos dotados de capital cultural (e da aptidão para fazer frutificar esse capital que ele pressupõe e consagra, sem exigi-lo explicitamente e sem transmiti-lo metodicamente” (Idem, p. 57).

Em suma, a cultura que o sistema escolar transmite a seus alunos e, ao mesmo tempo, exige deles é uma cultura aristocrática. O fato desses alunos nem sempre virem de uma posição privilegiada no espaço social (ou seja, não serem detentores de elevado capital cultural) torna a escola uma instituição conservadora, no sentido de que contribui para a reprodução de uma ordem desigual e para a legitimação e consagração de uma cultura elitista.

Bibliografia

BOURDIEU, Pierre. “A escola conservadora: as desigualdades frente à escola e à cultura” In Escritos de Educação. Petrópolis: Ed. Vozes, 1999.

Bibliografia consultada

_________________. Razões práticas: sobre a teoria da ação. Campinas: Ed. Papirus, 1996.


[1]  Podemos notar em Bourdieu uma ampliação do conceito de capital: se Marx o concebia como primariamente econômico, o autor introduz a essa análise uma dimensão simbólica do capital. Encontramos uma definição mais detalhada do conceito de capital cultural em: BOURDIEU, Pierre. “Os três estados do capital cultural” In Escritos de educação. Petrópolis: Ed Vozes, 1999, p. 71-79.

[2]   Bourdieu rejeita a idéia de sujeito social, adotando o termo “agente” no lugar. O sujeito social seria autônomo, emancipado, em oposição aos agentes que, além de ter um poder estruturante têm suas ações pautadas pela estrutura objetiva.

[3]  Vale ressaltar aqui a reformulação presente no conceito de classe: Bourdieu adota um conceito relacional e distancia-se de um estruturalismo ortodoxo. Os agentes podem ser classificados em relação uns aos outros, dependendo da posição em que estão dispostos na estrutura objetiva.

[4]   Bourdieu, além de ter influência do pensamento marxista, como apontamos acima, mantém forte diálogo com a tradição weberiana. Além do conceito de ethos, a idéia de esferas sociais autônomas, que o autor chama de campo, é um exemplo dessa influência.

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