Uma nova escola!?

As contradições a cerca do ensino de sociologia no Ensino Médio se dá em boa parte ao definir o conteúdo da disciplina e o que seria legítimo esperar do professor nesta atuação, discutindo-se qual face das Ciências Sociais é pertinente de ser trabalhada com adolescentes. Pra abordar estes temas utilizarei os comentários de Françoes Dubet em uma entrevista realizada no Brasil para a Revista Brasileira de Educação e o texto de Ileizi F. Silva, onde ela discute os desafios da sociologia no ensino médio.
Em entrevista o sociólogo francês François Dubet, relata as impressões de sua experiência como professor de adolescentes em um colégio público na França. As dificuldades de ensino e o comportamento dos alunos muito se assemelham ás condições de ensino no Brasil, em aspectos como a falta de interesse dos alunos, a relação de “violência” entre professor e aluno, a metodologia de ensino, a formação de professores, as contradições no currículo, entre outros temas. Alguns destes aspectos podem ser utilizados para pensar o ensino de sociologia no Ensino Médio, tais como seus relatos sobre a construção do currículo e a formação de professores.
Dubet ao ser indagado sobre as dificuldades da relação pedagógica, ele ressalta entre outras coisas a falha na elaboração no currículo, a deficiência de “foco” e dinamismo desta relação, e desabafa:
“Para falar mais simplesmente, eu acho que eles devem aprender menos coisas, mas é preciso que eles as aprendam.” (PERALTA e SPOSITO, 1997:227)
O retorno da disciplina de sociologia com obrigatoriedade nos quadros curriculares, acaba por impor expectativas a ser cumprida pelos professores sobre uma esperada transformação na atitude dos alunos através do aprendizado de conceitos sociológicos, antropológicos e políticos. Neste momento tão delicado da constituição da sociologia como disciplina, não vejo espaço para um ensino sistematicamente quadrado pautado no estudo de autores complexos como são os autores clássicos da sociologia, a “redução” do ensino de sociologia a temas que contemplem a vida cotidiana dos alunos, a reflexão sobre temas como preconceitos, responsabilidade política, movimentos sociais, entre outros, com atenção para que este ensino não seja prejudicado pelas tendências regionalistas ou tecnicistas como discutido por Ileizi F. Silva, não diminui a matéria, mas como relata Dubet pode contribuir para um melhor aprendizado.
Dubet trata também da necessidade de uma maior atenção na formação dos professores, para que eles estejam realmente preparados para passar por situações adversas na sala de aula, como o problema da falta de interesse e a relação de violência entre o professor e o aluno:
“Ao lado da didática, seria necessário um pouco de psicologia dos adolescentes, um pouco mais de sociologia…. É preciso preparar as pessoas para todas as dificuldades. Deveria haver cursos sobre a violência porque a gente deveria aprender a responder a isto como se aprende a ensinar as matemáticas: é um absurdo. Esta formação deveria ser mais ágil, muito mais longa e muito menos ideológica.” (PERALTA e SPOSITO, 1997:230)
É uma pena que Dubet não tenha desenvolvido mais detalhadamente estas orientações em sua entrevista, mas este trecho já demonstra que o professor deve ir além da mera relação de repassar a matéria aos alunos, ele deve estar preparado para compreendê-los e convencê-los ao aprendizado.
“De fato, no colégio, é preciso trabalhar na transformação dos adolescentes em alunos quando eles não têm vontade de se tornar alunos.” (PERALTA e SPOSITO, 1997:225)
Este preparo deve ser realizado não no esforço do professor de formação na própria prática, mas na graduação, na formação da licenciatura, não que a experiência prática não seja crucial na formação do professor, mas a licenciatura precisa ser revista:
“Embora este artigo não trate especificamente de formação de professores, gostaria de lembrar que um dos problemas do ensino de sociologia nas escolas é o não compromisso dos cursos de Ciências Sociais com a formação de professores para o ensino médio. Não é novidade que a licenciatura é negligenciada nos cursos, desvalorizada e deixada de lado.” (SILVA, 2007:421)
Ao se deparar com professores e alunos que vivenciam estas questões pude compreender a urgência com que estas elas devem ser repensadas, pois já temos o espaço na grade escolar, que se constitui instável devido às contradições que envolvem a disciplina e a própria política escolar. Este não merece sério esforço por parte dos profissionais da área para consolidá-lo, ou o Ensino Médio não seria a época ideal para se tratar dos temas das ciências sociais?
Este quadro nos coloca a questão do que seria o objetivo da sociologia no Ensino Médio, e a resposta a esta questão definiria ainda outra questão referente à formação de professores para atingir este fim. E este quadro se complica ainda mais quando considerado o caminho percorrido da ciência até se “transformar” em disciplina, entre a seleção do conteúdo passando pelos órgãos oficiais do governo e por fim a uma reestruturação pedagógica. (SILVA, 2007:407)
Tais questões é um desafio a ser aceito pelos cientistas sociais, pois não se trata somente da formação de uma disciplina, mas da elaboração e escolha de um conceito de escola.
“Pensar o ensino de sociologia no ensino médio passa pela nossa compreensão sobre a educação, ou seja, sobre que tipo de educação que desejamos. E isso não e fácil de ser definido porque depende do embate, do conflito entre inúmeros projetos de sociedade em disputa entre nos cientistas sociais, entre os grupos que tem acesso aos aparatos do estado, que definem as políticas, entre os professores das redes publica e privada, e assim por diante. Pensem em como tem sido difícil definir os currículos de ciências sociais nas universidades. Quanto debate! Assim, o papel da sociologia na formação dos adolescentes e dos jovens dependera do tipo de escola, de ensino médio e de currículo que iremos definir ao longo da historia.” (SILVA,2007:422)

Bibliografia
PERALVA, Angelina T.; SPOSITO, Marília P. 1997. Quando o sociólogo quer saber o que é ser professor: entrevista com François Dubet. (Trad.: Ines R. Bueno) Revista Brasileira de Educação 5/6:222-31.

SILVA, Ileizi F. 2007. A sociologia no ensino médio: os desafios institucionais e epistemológicos para a consolidação da disciplina. Cronos 8(2):403-27.

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  1. Ferreira

    O texto precisa de uma revisão urgentemente e se beneficiaria de menos citações e mais formulações próprias (devidamente revisadas).




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