O mestre ignorante

(Publicação escrita por Bruna Rossetti Mendonça e Lucas Mestrinelli)

Com o fim da Revolução de 1789 e a consequente demanda por uma maior participação popular no governo, tem início o que podemos denominar de “sociedade da ordem progressiva”. O tão almejado progresso social só seria viável mediante a instauração de uma nova ordem, que contribuísse para a progressão dos sujeitos no sentido que deixariam de ser ignorantes. Esta nova ordem, no entanto,  teria como pressuposto a necessidade de que o povo fosse instruído pelos detentores do conhecimento, sem os quais jamais se tornariam sábios. O fundamento desta nova sociedade seria, portanto, a necessidade da explicação enquanto pressuposto básico para o progresso. Esta explicação, por sua vez, se assentaria sobre a assimetria anunciada entre sábios e ignorantes, ou seja, a desigualdade de inteligências seria um pressuposto a ser superado pela sociedade pedagogizada, a sociedade do mestre explicador.

Neste contexto porém, Joseph Jacotot defendeu que a desigualdade que a nova ordem social buscava superar era eternamente reproduzida por ela mesma, e que não deveríamos tentar supera-la, mas sim deveríamos verificar uma igualdade de inteligências. Para Jacotot, só há inteligência entre iguais. Para criticar a noção de sociedade da ordem progressiva, Jacotot precisou passar por uma experiência reveladora, que o colocou diante de um fato: alguns estudantes flamengos haviam aprendido o francês sem a necessidade de sua explicação. Isto o levou a criticar o principal fundamento da nova ordem social, na medida em que a explicação constituiria, na verdade, a causa do embrutecimento do povo, e não de sua emancipação. A explicação seria assim o “mito da pedagogia”.

Dessa experiência, surpreendente para o autor, surge a tese da obra: pode-se ensinar o que se ignora, desde que mestre e aluno estejam emancipados, ou seja, saibam pensar por conta própria. O que Jacotot mostrou é que entre a inteligência do aluno e a do livro não há necessidade de uma inteligência mediadora, de um mestre explicador, na medida em que todas as inteligências são de mesma natureza. Segundo o autor, a explicação não pode ser o fundamento da sociedade na medida em que comporta uma regressão ao infinito, ou seja, toda nova explicação é passível de ser novamente explicada, até que uma palavra de ordem estabeleça o seu fim. Desta maneira, a ordem explicadora comporta em si o princípio da desigualdade, uma vez que somente uma imposição arbitrária, pautada em uma hierarquia pré-estabelecida, pode assegurá-la como fundamento.

Compreender se refere a um processo de tradução e contratradução, ou seja, de saber expressar-se através das palavras de um outro. Neste sentido, é possível aprender sem a necessidade de um mestre explicador, que submeteria a inteligência do aluno à sua própria, mas é preciso que um mestre estabeleça conosco uma relação entre vontades, pois o “homem é uma vontade servida por uma inteligência”(p.79). Para ele o indivíduo é capaz de alcançar o que quiser, e podemos pensar a inteligência enquanto atenção e busca, na qual o indivíduo experimente o mundo e busca compreendê-lo, e o mestre verifica a pesquisa contínua de forma exigente. Como o papel do mestre é verificar o procedimento de busca, até um pai de família analfabeto pode ensinar seu filho a ler e escrever.

Acreditamos que essa proposta de educação, segundo a qual constataríamos uma igualdade de inteligências como fundamento do processo de aprendizagem, pode apresentar efeitos positivos no que se refere à divulgação do saber e a democratização dos meios de aprendizagem. A quebra do monopólio do saber e sua consequente expansão para fora dos limites da escola pode representar uma alternativa à crise no sistema educacional brasileiro. Dada a desmotivação do aluno e mesmo dos professores em relação à instituição escolar, a proposta defendida por Rancière, a partir da experiência de Joseph Jacotot, pode contribuir para que estes estudantes se vejam enquanto sujeitos do conhecimento. Isso pode levá-los a valorizar a própria vida social enquanto espaço para o aprendizado. No que se refere ao  ensino da sociologia no ensino médio, há uma possibilidade de que essa experiência leve a sociologia a ampliar seu campo de atuação para além dos limites da escola.

Estamos vivenciando a inserção da sociologia nos currículos do ensino médio e pensamos que os argumentos acima expostos derrubam o pressuposto predominante segundo o qual o professor de sociologia deveria transmitir ao aluno um conjunto de saberes, a partir dos quais ele viria a desenvolver uma capacidade de reflexão critica sobre a sociedade. Em que medida que nossa presença nas escolas, enquanto representantes desse paradigma de professores de sociologia, não limitaria o desenvolvimento da reflexão critica dos estudantes como sujeitos dotados de inteligência própria? E na medida em que a obra em questão não determina um projeto completo de educação, de que maneira podemos conciliar nossa pertença à uma instituição escolar com nossa critica a esta expectativa de atuação do professor de sociologia?

Bibliografia:

RANCIÉRE, Jacques. O mestre ignorante: Cinco lições sobre a emancipação intelectual. Editora Autêntica: Belo Horizonte, 2002.

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