FILME: Ao mestre, com carinho – numa análise marxista

 

Ao mestre, com carinho é um filme da década de 60 (ver a referência ao fim do texto) muito inspirador para pensarmos nas relações instituídas dentro de uma escola e naquelas outras que podemos engendrar, no sentido de transformar a escola num espaço construído  e constituído por seres humanos, os quais, em conjunto, buscam relações verdadeiras e uma vida melhor.

Filme importante, sobretudo, para o professor.

Pode-se baixar o filme a partir deste link:

http://downloadfilmesgratis.blogspot.com/2008/12/ao-mestre-com-carinholegendado-1966.html

Aqui, esboço um ensaio sobre filme, a partir de uma análise marxista:

Ao mestre, com carinho e Karl Marx (1818-1883)

Pensar o filme ou qualquer outra questão a partir da perspectiva marxista nos faz refletir sobre os casos individuais – micros – enquanto situações que fazem parte das condições estruturais da sociedade – os aspectos macros. A vida de uma pessoa está intrincada dialeticamente com as condições materiais e espirituais que a sociedade – através de seu modo de produção – nos oferece. O contexto do filme em questão é a sociedade capitalista, londrina, dos anos 60 do século XX. Em linhas gerais, o filme retrata o posicionamento revolucionário de um professor perante a sua turma, que através de sua mudança de atitude engendrou um modo muito mais profundo e humano de desenvolver o processo educativo com os seus alunos. Temos em vista, com o filme, a possibilidade da educação – e da escola – não estar somente à serviço do capital, mas de servir, pelo contrário, para a formação de intelectuais orgânicos – indivíduos cônscios da prática da vida social e compromissados moral e intelectualmente com a dignidade da vida humana, que passa longe das tendências alienantes da sociedade capitalista.

A escola, na primeira parte do filme, pode ser vista como a casa da desgraça, como um depósito das contradições e de todas as condições degradantes que desviam as pessoas delas mesmas e que, ao mesmo tempo, sustentam o próprio modo de produção capitalista. Digo, a escola enquanto um espaço alienado e que reproduz a alienação. O que as pessoas faziam na escola? Os professores não toleravam as suas turmas, odiavam os diabos que eram aqueles adolescentes, odiavam as suas aulas e as suas tentativas fracassadas, odiavam a si próprios e o seu trabalho precarizado; os alunos, por sua vez, iam para a escola para enfrentar os professores e se divertir, formar grupos e fazer bagunça, odiavam os diabos que eram os seus professores, odiavam os conteúdos que tentavam enfiar nas suas cabeças, odiavam obedecer e nada receber em troca. Qual o sentido daquela escola? Se nada funciona, por que as pessoas vão lá? Sentem-se obrigadas a isso? Sim, a escola é obrigatória. Mas para o quê? A escola é um passaporte obrigatório para um mundo alienado, sendo ela própria um centro que propaga alienação – é necessária pois “educa” as pessoas na lógica da economia burguesa, que em si é algo caótico e que explora o ser humano – desse modo, o ambiente escolar não escapa dessas características.

Assim como uma fábrica, a escola – na primeira parte do filme – é um local onde os seus operários – no caso os alunos – são cobrados duramente e somente por aquilo que devem e que podem produzir; seguindo a lógica da produção, assim como na fábrica, a qual bonifica o trabalho dos operários através do pagamento do salário, a escola o faz por meio das notas, aprovações etc. Contudo, traço marcante prevalece nos dois espaços: a exploração do trabalho. Na escola, o professor e o aluno são explorados. Em nome de quem? Quem os explora? Todos estão refém de uma lógica – de uma ideologia – que distancia as pessoas delas mesmas valorizando elementos mundanos que nos ludibria acerca da verdade. Teorizando, podemos dizer que a escola, naquele contexto, está longe de ser um espaço de humanização, pois está diretamente ligada aos valores da economia burguesa, que essencialmente vincula o homem ao processo produtivo, numa produção de riqueza alienante. Neste caso, reproduz o conhecimento de forma utilitarista e técnica, fragmentando-o e especializando o saber. O saber torna-se um meio, não havendo satisfação em si e para si do conhecimento; este serve unicamente em vista de um retorno material. A educação burguesa, portanto, ignora a sensibilidade do aluno, pois está interessada exclusivamente na capacidade de produção destes estudantes, impondo a eles uma concepção de trabalho produtivo. Embrutece estes indivíduos pois coloca a teoria antes da prática, distanciando-os das qualidades e dos interesses reais que estes alunos poderiam ter sobre os mais diversos campos do saber. Neste sentido, a escola burguesa fragmenta e teoriza o conhecimento, compartimentalizando-os em disciplinas distintas, que exigem profundas especializações por parte dos alunos, evitando qualquer tipo de interdisciplinaridade. Em suma, como numa fábrica, a escola também cultiva e impõe a alienação do ser humano.

No filme, contudo, o professor Thackeray assume uma postura que inverte toda esta lógica. Pega todos os livros que subsidiavam as suas aulas e os jogam no lixo. Dali para frente ele e os seus alunos iriam conversar. Compartilhar e trocar experiências, construindo juntos aprendizados. Iriam construir saberes que dialogavam diretamente com a vida de cada um; não haveria mais incompatibilidade entre teoria e prática. As conversas, questões e problemas seriam trazidos da prática. A proposta do professor era de ensinar e trabalhar no sentido de formar os seus alunos pessoas adultas: homens e mulheres inteligentes, pois – sobretudo – responsáveis consigo e com o próximo. Educação para a vida, não apenas para o mercado. Thackeray percebeu que a escola e o seu funcionamento estavam alimentando um tumor na vida de todos ali. Era preciso humanizar um espaço por todo coisificado; sensibilizar o que estava embrutecido. No filme não está escancarada a preocupação de formar pessoas compromissadas com o materialismo histórico e dialético. Mas o professor Thackeray soube usar na prática o essencial para desenvolver uma prática educativa revolucionária – que forma intelectuais orgânicos – condição fundamental para que se desenrole, no acirramento concreto da luta de classes, a revolução das condições materiais de existência.

Gustavo Ferraz

guramosferraz@gmail.com

FILME:

  • 1967: To sir, with love (Ao mestre, com carinho). Reino Unido; drama, cor. Direção e roteiro: James Clavell. Estúdio: Columbia Pictures Corporation.

Textos de referência:

  • MORILA, Ailton Pereira e SENATORE, Regina Célia Mendes. Trabalho e Educação

em Marx e Gramsci. In: Revista da Rede de Estudos do Trabalho, Ano III, n. 6, 2010.

  • SILVA, João Carlos da. Educação e Alienação em Marx: Contribuições teórico-

metodológicas para pensar a História da Educação. In: Revista HISTEDBR On-line,

Campinas, n. 19, p. 101-110, setembro 2005.

Anúncios

  1. 1 FILME: Ao mestre, com carinho – numa análise weberiana « Estágio Supervisionado em Ciências Sociais

    […] Na publicação anterior, fizemos o mesmo exercício, contudo sobre a análise marxista do filme. LINK: https://escsunicamp.wordpress.com/2011/12/12/filme-ao-mestre-com-carinho-numa-analise-marxista/ […]




Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s



%d blogueiros gostam disto: