FILME: Ao mestre, com carinho – numa análise weberiana

Na publicação anterior, fizemos o mesmo exercício, contudo sobre a análise marxista do filme. LINK: https://escsunicamp.wordpress.com/2011/12/12/filme-ao-mestre-com-carinho-numa-analise-marxista/

Novamente, a referência do filme e o site, onde o professor pode baixá-lo:

1967: To sir, with love (Ao mestre, com carinho). Reino Unido; drama, cor. Direção e roteiro: James Clavell. Estúdio: Columbia Pictures Corporation.

http://downloadfilmesgratis.blogspot.com/2008/12/ao-mestre-com-carinholegendado-1966.html

Ao mestre, com carinho e Max Weber (1864-1920)

Penso que, se quisermos traçar um paralelo entre o filme e o pensamento de Weber, devemos fazê-lo em torno das reflexões sobre o poder. Segundo o pensador alemão, o que é o poder? Poder é “a possibilidade de encontrar obediência a uma ordem determinada” (WEBER, p.3). Durante o filme, sobretudo no início, percebemos que o grande conflito é a capacidade do professor possuir ou não o controle sobre a turma. De que forma, então, o professor lida com os jovens e qual a maneira que exerce o seu poder a fim de domar aquela turma de rebeldes? Num paralelo com Weber, podemos dizer que num primeiro momento o professor se relaciona com a turma por meio do poder legal; isto é, utiliza-se da sua condição de “superior” na estrutura organizacional da escola – cargo de professor – para exercer poder sobre os seus alunos. O professor Thackeray entra em sala, exige silêncio, exige que falem, que escrevam, que façam leituras, que participem etc., contudo percebe cada vez mais a não correspondência entre ele e os seus alunos; percebe o fracasso das suas aulas e o quanto não é respeitado. O limite para esta situação é após ser atingido por um objeto jogado pelos alunos contra a sua cabeça e quando estes se utilizaram da sala de aula para queimar algo e impossibilitar as atividades. O poder institucionalizado e legitimado pelo estatuto da escola – o qual colocava o professor como o detentor do poder – não funcionava naquele ambiente. O professor, ora ou outra era respeitado e atendido, mas a pessoa do professor, o sr. Thackeray, não; este era desrespeitado e os seus alunos não o escutavam nem mesmo o obedeciam. Esta é a maior característica do poder legal – no qual a obediência não é em direção à pessoa enquanto ela própria, mas em direção à hierarquia estatutária e à posição das pessoas dentro desta hierarquia instituída. Era preciso mudar esta situação…

Ocorre esta mudança no instante em que o professor Thackeray percebe que os seus alunos são crianças; crianças imaturas que se pretendem adultas, mas que não sabem o melhor caminho para crescer; crianças que se desrespeitam entre si e a si mesmos e que por conta disso não vão respeitar o professor, e por que iriam? Crianças que não aprendem nada em sala de aula, pois estão preocupados com os seus problemas de serem crianças que pretendem ser adultas; crianças que só encontram desvantagens ao obedecer; e são crianças que buscam vantagens; então, a partir daí, o que faz o professor? Thackeray se dá conta de que lidar com os seus alunos somente a partir da sua posição de professor, do exercício do poder legal, não funciona, pois é deprimente e tende ao fracasso. Desse modo, decide ser então o Thackeray-professor, isto é, ele próprio e também professor. E outra relação de poder irá subsidiar esta nova atitude. A partir de então, Thackeray desinstitucionaliza o poder que tinha sobre os seus alunos, pois se apresenta como uma pessoa aberta para conversar e compartilhar experiências. Desenvolve com os seus alunos uma relação de poder não institucionalizada, que segundo Weber, são aquelas que ocorrem entre as pessoas no dia-a-dia. Thackeray-professor fundamenta sua nova atitude – o exercício do seu poder – naquilo que Weber chama de teleológico-racional, ou seja, em vantagens e desvantagens por parte de quem obedece. Agora, nesta nova relação, os alunos terão de obedecer, de respeitar, na vantagem de aprender a ser adultos – na acepção mais digna do termo. Involuntariamente, como consequência desta mudança de atitude, a relação de poder entre Thackeray-professor e os seus alunos sustenta-se num outro fundamento primordial: o afeto. Todos os envolvidos constroem um laço afetivo muito forte, o que torna o dia-a-dia na sala de aula momentos encantados, de muito respeito e de aprendizado. Dessa forma, posicionando-se de maneira mais intimista e dialogando com a vida dos seus alunos, Thackeray-professor alcança o sentido da socialização – desenvolve nos seus alunos a identidade social e a identidade individual, o self, conforme as elaborações de George H. Mead (1863-1931).

Gustavo Ferraz

Textos de referência:

WEBER, Max. Três Tipos Puros de Poder Legítimo. Tradução: Artur Morão. www.lusosofia.net. p. 1 -18.

GRIGOROWITSCHS, Tamara. O conceito de “socialização” caiu em desuso? Uma análise dos processos de socialização na infância com base em Georg Simmel e George H. Mead. Educ. Soc., Campinas, vol. 29, n. 102, p. 33-54, jan./abr. 2008. Disponível em: http://www.cedes.unicamp.br

Anúncios



    Deixe um comentário

    Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

    Logotipo do WordPress.com

    Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

    Imagem do Twitter

    Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

    Foto do Facebook

    Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

    Foto do Google+

    Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

    Conectando a %s



%d blogueiros gostam disto: