Arquivo para janeiro, 2012

 

Lançado exclusivamente para a televisão, A Onda é um filme intrigante para trabalhar questões contemporâneas sobre educação, filosofia e política.

Foi baseado em um incidente real ocorrido em uma escola secundária norte-americana em 1967, em Palo Alto, Califórnia. Antes de virar filme, foi romanceado em livro.

Há duas versões deste acontecimento: uma versão norte-americana, lançada em 1981, e uma alemã, lançada em 2008. Ambas contam a mesma história com poucas diferenças.

 

The Wave (EUA, 1981)

O filme norte-americano tem início com o professor de história Burt Ross explicando aos seus alunos a atmosfera da Alemanha, em 1930, a ascensão e o genocídio praticado pelos nazistas. Os questionamentos dos alunos levam o professor a realizar uma arriscada experiência pedagógica que consiste em reproduzir na sala de aula alguns clichês do nazismo: usariam o slogan “Poder, Disciplina e Superioridade” e um símbolo gráfico para representar “A onda”. O professor Ross se declara o líder do movimento da “onda”, exorta a disciplina e faz valer o poder superior do grupo sobre os indivíduos. Os estudantes o obedecem cegamente. A tímida recusa de um aluno o obriga a conviver com ameaças e exclusão do grupo. A escola inteira é envolvida no fanatismo da “A onda”, até que um casal de alunos mais consciente alerta ao professor ter perdido o controle da experiência pedagógica que passou ao domínio da realidade cotidiana da comunidade escolar. O desfecho do filme é dado pelo professor ao desmascarar a ideologia totalitária que sustenta o movimento d’A onda , denuncia aos estudantes o sumiço dos sujeitos críticos diante de poder carismático de um líder e do fanatismo por uma causa.

FICHA TÉCNICA:

Ano: 1981
Duração: 46 Minutos
Direção: Alex Grasshoff

Assita ao filme:

 

Die Walle (Alemanha, 2008)

No filme alemão, Rainer Wegner, professor de ensino médio, deve ensinar seus alunos sobre autocracia. Devido ao desinteresse deles, propõe um experimento que explique na prática os mecanismos do fascismo e do poder. Wegner se denomina o líder daquele grupo, escolhe o lema “força pela disciplina” e dá ao movimento o nome de A Onda. Em pouco tempo, os alunos começam a propagar o poder da unidade e ameaçar os outros. Quando o jogo fica sério, Wegner decide interrompê-lo. Mas é tarde demais, e A Onda já saiu de seu controle.

FICHA TÉCNICA:

Direção: Dennis Gansel
Roteiro: Todd Strasser (romance), Dennis Gansel (roteiro), Peter Thorwarth (roteiro)
Gênero: Drama
Origem: Alemanha
Duração: 101 minutos

Assista ao Trailer:

 

A Onda nos abre caminhos para discutir o papel do professor na sala de aula e sua capacidade de formar opinião e abrir mentes. Neste filme, as coisas infelizmente ganham um rumo inesperado.

“Vocês trocaram sua liberdade pelo luxo de se sentirem superiores. Todos vocês teriam sido bons nazi-fascistas. Certamente iriam vestir uma farda, virar a cabeça e permitir que seus amigos e vizinhos fossem perseguidos e destruídos. O fascismo não é uma coisa que outras pessoas fizeram. Ele está aqui mesmo em todos nós. Vocês perguntam: como que o povo alemão pode ficar impassível enquanto milhares de inocentes seres humanos eram assassinados? Como alegar que não estavam envolvidos. O que faz um povo renegar sua própria história? Pois é assim que a história se repete. Vocês todos vão querer negar o que se passou em “A onda’. Nossa experiência foi um sucesso. Terão ao menos aprendido que somos responsáveis pelos nossos atos. Vocês devem se interrogar: o que fazer em vez de seguir cegamente um líder? E que pelo resto de suas vidas nunca permitirão que a vontade de um grupo usurpe seus direitos individuais. Como é difícil ter que suportar que tudo isso não passou de uma grande vontade e de um sonho”. (Discurso final do professor Wegner)

 

UMA ESCOLA EM RUÍNAS


A Onda aborda todas as questões já recicladas pelo cinema contemporâneo: separação de grupinhos (o famoso buylling), desafetos trocando farpas em sala de aula (e nas ruas) e o fanatismo dos grupinhos fechados.

A Onda trabalha com terminologias ligadas aos estudos das ciências sociais e filosofia, possui alta carga histórico-cultural alemã, tornando a simples disposição do espectador num exercício crítico incrível.

Ao formar o grupo “A Onda”, dentro da escola, o professor vai ter a turma de seus sonhos. Todos engajados, com o assunto sempre na ponta da língua, portanto, a situação vai ganhar status desagradável quando os alunos trocam a inserção “dentro da sala de aula” por fanatismo fora da sala de aula.

 

A ONDA E OS FATORES DA EQUAÇÃO NAZISTA

 

O primeiro ângulo a iluminar neste tópico é o fato de que o diretor/roteirista buscou trazer a baila as principais características do facismo.

O nacionalismo é uma delas. De acordo com pesquisas, pode ser considerado como doutrina ou filosofia política que prega valores tais como: bem estar social, e que o individuo deve guardar lealdade e devoção à nação. Assim, o Estado nacional é entendido como um conjunto de pessoas unidas num mesmo território por interesses comuns. Portanto, o nacionalismo pode ser entendido como um movimento político social que visa uma organização social que se fundamenta na coesão social, a identidade coletiva e a cultura das nações (Encina, 2004).

Benedict Anderson

Segundo Benedict Anderson, os conceitos de nação e nacionalismo são fenômenos construídos dentro da sociedade e são condições necessárias para o advento das ideias nacionalistas a presença da prensa e o desenvolvimento do capitalismo. Cultuado dentro dos estudos culturais, Anderson é descendente de irlandeses e de ingleses, mudou-se ainda criança para a Califórnia, já adulto foi para a Inglaterra e formou-se na Universidade de Cambridge. Registrou-se no programa de estudos sobre a Indonésia da Universidade Cornell, foi para Jacarta e para Tailândia. Atualmente é professor de estudos internacionais em Cornell e sua principal obra é Imagined comunities, publicada pela primeira vez em inglês no ano de 1983 e já traduzido para 21 idiomas. Sua última tradução brasileira é de 2008 com o nome de Comunidades imaginadas: reflexões sobre a origem e difusão do nacionalismo.

Durante uma aula, o professor comenta sobre a copa do mundo, onde havia nas cidades várias bandeiras alemãs pelas ruas e um sentimento profundo de pertença à nação.

Apesar de em alguns momentos a trama apresentar dados que tornam espinhosa a sua compreensão, temos na citação acima, algo para ser estudado em paralelo com a teoria de Benedict Anderson, mundialmente conhecida como Comunidades Imaginadas. Segundo dados da pesquisa para desenvolver este especial, encontramos que no desenvolver de suas teorias, a noção que Anderson observa da “nacionalidade” vem, nos anos recentes, transformando-se uma força principal em muitos aspectos do pensamento moderno. Tanto o desenvolvimento das Nações Unidas, dos conflitos existentes e gerados pelas “subnações”, do fim das dinastias européias e asiáticas em proveito de uma unificação estatal e lingüística são evidências de que o nacionalismo é, certamente, reconhecido como uma moral hegemônica no mundo político moderno. Contudo, apesar da influência que o nacionalismo teve na sociedade moderna, Anderson acredita que suas origens conceituais são inadequadamente explicadas. Sua finalidade em escrever Comunidades Imaginadas é, então, fornecer um fundo histórico para o emergente nacionalismo e seu desenvolvimento, evolução, e recepção. A grande contribuição desta obra está em discutir o surgimento do nacionalismo não enquanto resultado da transformação histórica Européia, mas sim enquanto contribuição original dos países colonizados e asiáticos, rompendo assim com as interpretações “europocêntricas” no estudo das nações.

Capa do livro de Benedict Anderson

Os fascistas eram totalmente contrários ao sistema socialista. Defendiam amplamente o capitalismo, tanto que obtiveram apoio político e financeiro de banqueiros, ricos comerciantes e industriais alemães e italianos. No filme, um dos rapazes vai obter ajuda financeira do pai para criação de buttons, cartazes, camisas e outros suportes para exibição da logomarca do grupo A Onda, mostrando mais uma vez a cumplicidade do roteiro em relação aos ideais fascistas. Outro fator digno de exclusividade aqui é o militarismo, pois no fascismo, havia alto investimento na produção de armas e equipamentos de guerra. Fortalecimento das forças armadas como forma de ganhar poder entre as outras nações. Objetivo de expansão territorial através de guerras. Trazido para o contexto do filme, essa necessidade de ganhar poder entre outras nações pode ser relacionado com o desejo de dominar toda a escola, tornando-se uma turma altamente poderosa, impondo seus ideais como únicos e exclusivos.

Assim, perceba como dentro de apenas um só filme, extraímos diversos assuntos como nacionalismo, instâncias de legitimação de poder, educação e relações pós-colonialistas, temas favoritos nas principais provas de vestibulares em todo país.



Plano de aulas elaborado para Sociologia do 1º Ano do Ensino Médio. Os temas introduzidos serão o de natureza e cultura. Baseando-se principalmente nos conceitos apresentados nos textos de Claude Levi-Strauss, Ruth Benedict e Roberto Da Matta.

1ª Aula

Uma sociedade de formigas em funcionamento pode ser considerada social, mas elas não falam e não produzem obras de arte, por exemplo, que marquem diferenças entre formigueiros específicos. Elas modificam o ambiente, mas sempre do mesmo modo e com o uso das mesmas matérias químicas. Não existe tradição viva, dinâmica e constantemente re-elaborada. O biológico teria seu lugar em transformações internas de uma estrutura orgânica. (DaMatta, 1981)

Os seres humanos convivem com paradigmas e regras de ação que definem seu comportamento. Há que se fazer escolhas entre modos de pensar, perceber, classificar, ordenar e praticar uma ação sobre o real, e geralmente essas escolhas são baseadas em regras sociais naturalizadas e tradições familiares e grupais.

Nessas regras existem listas de inclusões e exclusões, do que pode ou não pode ser feito:

  • Incesto, adultério
  • Mediação entre homens e deuses
  • Carne de boi / carne de porco

Vivenciar essas regras, e organizar o tempo de maneira consciente aparece nas teorias culturais como definidor do aspecto humano, ter consciência é poder ser socializado.

E assim os grupos se constroem e interagem, num movimento dialético entre o grupo e suas regras, suas formas de vivenciar, conceber, singularizar, valorizar e preencher o tempo.

  • Link 1 : “Dance, Monkeys, Dance”

http://www.youtube.com/watch?v=m89rYW0epTs

Vamos conversar sobre o que é proposto no vídeo: os humanos realmente têm consciência, o que seria essa consciência, e no que ela seria diferente dos animais?

2ª aula

Na última aula começamos a definir o conceito de cultura, como relativo à tudo o que é particularmente humano, em oposição àquilo que é natural e biológico, inclusive na própria humanidade.

Levantamos hipóteses do que poderíamos considerar como cultural:

  • Estrutura familiar
  • Política
  • Arte
  • Religião
  • Vestimenta
  • Trabalho
  • Esportes
  • Tecnologia
  • Jogos
  • Habitação
  • Outros…

Na ideologia e sistemas de valores da nossa sociedade, o natural é classificado em oposição ao social e ao cultural, o homem está em oposição à natureza numa atitude ativa, visando seu domínio, controle e comando. Podemos falar de aspectos naturais no ser humano (nutrição, respiração, reprodução, morte, etc.) e a partir daí relacionar os modos diversos que as sociedades encontram para lidar com as variadas situações. De maneira ampla, essas maneiras diversas fazem parte de nosso escopo cultural.

Exibição de imagens de culturas distintas sobre:

  • Ritos passagem (nascimento, maturidade e morte)
  • Relação com o corpo

Percebemos a criatividade com que o homem se relaciona com os aspectos naturais através desses exemplos, e podemos refletir sobre a capacidade de conceber o tempo, valorizá-lo e singularizá-lo.

Podemos entender a cultura como resultado de relações sociais, materialidade histórica e condições de existência e isso é o que propomos nesta aula, pensar a cultura como os modos diversos de:

  • Conceber a realidade e expressá-la
  • Organização da vida social
  • Apropriação de recursos naturais
  • Expressão do conhecimento em seu processo de simbolização
  • A maneira como as pessoas representam conhecimentos

Lembrando sempre que a cultura é dinâmica, é uma construção histórica e um processo coletivo, sujeito à constante transformação; e que entendê-la é entender os caminhos diversos tomados por diferentes grupos humanos.

Refletir sobre as diversas maneiras de se viver é uma preocupação antiga, e na próxima aula estudaremos mais detalhadamente a gênese deste conceito, e neste momento propomos assistir um trecho do filme Os deuses devem estar loucos II, 1989 (Jamie Uys, Botsuana, África do Sul, 97 minutos). Sugerindo que assistamos ao filme pensando nas questões de organização do espaço, do tempo e das regras nos dois grupos de pessoas que aparecerão.

Pretende-se apresentar questões aos alunos com o intuito de fazê-los pensar em: quem é o outro e como ele é percebido; o que esse outro tem em comum com o aluno, porque as práticas cotidianas são tão diferentes no que se refere à alimentação, relação com a natureza, forma de organização, família, crenças, etc.; o que é ser outro e quando eu sou o outro. Se supostamente somos todos semelhantes biologicamente, porque tanta diferença?

Para tal, a partir das primeiras cenas do filme que retratam uma comunidade do deserto Kalahari, em diversos momentos, entre eles a obtenção de água, coleta de frutos, caça, tudo isso permeado por uma narração pitoresca, que é carregada de um tom paternal e zeloso quando fala dos Bosquimanos. Logo em seguida tem inicio as cenas retratando o mundo do homem “civilizado”, com a ressalva de que a distância que os separam dos bosquimanos é de algo em torno de 1000 km, e a narração passa a carregar um tom bem mais critico, embora apresente o homem “civilizado” com o mesmo estilo lingüístico que utiliza para apresentar os bosquimanos, dessa vez o tom é carregado de ironia.

Enfim, transmitidas as cenas que nos darão o suporte para iniciar a aula, a proposta é discutir com os alunos, em grupos, ou numa roda de conversa as cenas passadas baseando-se nas seguintes questões:

-O que há de diferente entre os bosquimanos e o homem “civilizado”?

-Existem vantagens e/ou desvantagens em ser um Bosquimano ou um “civilizado”?

-O que significa ser “civilizado”?

-O que você acha que os bosquimanos pensariam sobre o seu modo de vida?

-É possível que um bosquimano pudesse aprender algo com o seu modo de vida? E você poderia aprender algo com o modo de vida dos bosquimanos?

3ª aula

Gênese do conceito:

– Alemanha sec XVIII unificação: busca pela unidade do povo alemão, já que não havia unidade política. Através dos estudos das particularidades dos costumes e das crenças, do desenvolvimento do povo alemão no contexto das condições matérias em que se dava, os estudiosos buscavam uma explicar uma unidade viva do povo alemão.

– Ruptura com o paradigma teocêntrico, ascensão do paradigma cientificista, a visão laica da vida humana e do mundo social torna-se dominante.

– Conceito nasce ligado à cisão humanidade/animalidade; e à cisão eu/outro.

– E se insere no contexto do colonialismo e da expansão territorial e dominação de outros povos pelas nações européias, situação que alimentava o debate sobre cultura relacionado ao interesse de conhecer e dominar os povos e nações que estavam sendo subjugados.

– Esse debate sobre cultura participa da imposição da superioridade política, econômica e intelectual do ocidente.

Conceitos iniciais – cultura e sociedade / diversidade cultural:

– Leitura em sala de trechos da Coleção Primeiros Passos: “O que é cultura” de José Luiz Santos, com debate coletivo sobre os tópicos de “Cultura e Sociedade” e “Então, o que é cultura”.

Bibliografia

BENEDICT, Ruth. Padrões de Cultura. Rio de Janeiro: Editora Livros do Brasil. 1983.

DA MATTA, Roberto. Relativizando: Uma introdução à antropologia social. Petrópolis, Vozes, 1981.

GEERTZ, Clifford.  O Impacto do Conceito de Cultura sobre o Conceito de Homem. In A Interpretação das Culturas. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1989.

LÉVI-STRAUSS, Claude. Natureza e cultura. In: As estruturas elementares do parentesco. Petrópolis: Vozes, 2009.

SANTOS, José Luiz. O que é cultura. Coleção Primeiros Passos. São Paulo, Brasiliense. 2006.